29 agosto 2016

A Lovely Day, ou: redescobrindo Bill Whiters


Sempre penso que sou devedor de tributos. Quero prestar tributos a grandes artistas ou grandes obras que descubro, ainda que tardiamente, e que, por terem sido muito importantes para mim — as descobertas — , penso que o mínimo que posso fazer é homenageá-las. Pra mim, tornar esta obra, ou artista, do conhecimento de todos, é compartilhar a satisfação.
Isto acontece mesmo quando faço descobertas que podem soar bastante previsíveis para os iniciados. Ainda que sob o risco de receber o epíteto OLD para o que quer que venha a revelar, prefiro vestir minha armadura de singeleza e crer que compartilhar boas descobertas artísticas é como compartilhar bons sentimentos.
E, sim, sei que seria bastante previsível sugerir “Ei, você conhece Bill Whithers, aquele de Ain’t No Sunshine? Escuta este som!”
Seria previsível fazer uma indicação destas, até pelo fato de esta canção ser um sucesso mesmo para quem desconhece seu autor. “Ain’t No Sunshine”, vencedora do Grammy de Melhor Canção de R&B em 1972, ano seguinte ao seu lançamento, vendeu mais de um milhão de cópias quando o single foi lançado, sucesso nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e Reino Unido.

E é fascinante conhecer a história por trás deste, que é o primeiro grande sucesso de Bill Whiters. O músico tinha 31 anos quando escreveu esta música, inspirado pelos personagens do filme Days of Wine and Roses:
“Eles eram ambos alcoólatras que alternavam fraqueza e força. (…) Às vezes você perde coisas que não eram particularmente boas para você. É apenas algo que me passou pela cabeça ao assistir esse filme, e provavelmente algo que aconteceu na minha vida da qual eu não estou ciente.”
Na canção, um soul poderoso e lamurioso, Whiters repete, no terceiro verso, a frase I know 26 vezes. Ele pretendia incluir mais letra, mas aceitou a sugestão dos músicos para deixá-la assim. Na época em que a música foi feita, Whiters ainda trabalhava em uma fábrica de assentos de privada. Quando o single foi agraciado com o disco de ouro, a gravadora de Whiters presenteou-o com uma privada de ouro, dando início à nova fase da vida do artista.







Michael Jackson cedo também prestou seu tributo, com esta versão incrível da canção:

Marinheiro gago

Bill Withers nasceu em Slab Fork, pequena cidade de mineração de carvão na Virginia. Caçula de seis filhos, nasceu com gagueira e, em suas entrevistas, descreve sua infância como um período difícil. Ele tinha treze anos de idade quando seu pai morreu. Aos dezoito, Withers alistou na Marinha dos Estados Unidos, onde serviu por nove anos. Foi somente durante este período que ele superou a gagueira e se interessou em cantar e escrever músicas.

Em 1965, Whiters foi dispensado da Marinha. Mudou-se, então, para Los Angeles em 1967, determinado a seguir a carreira musical. Antes disso acontecer, no entanto, Withers trabalhou como montador de várias empresas diferentes, apresentando-se em clubes à noite. Quando ele estreou com a canção “Ain’t No Sunshine, recusou-se a renunciar ao seu emprego por sua crença de que o negócio da música era muito inconstante.
Na sequência desta música, veio um talento capaz de reunir sucessos desde seu primeiro trabalho. Seu disco de estreia é Just I Am, de 71, puxado pelos singles “Ain’t No Sunshine” e “Grandma’s Hands. Este, um soul bastante poderoso também, fato comprovado por esta versão em que Whiters a interpreta somente no violão.

Quando descobri Bill Whiters

O fato é que poderia descrever aqui toda a biografia do artista — que, diferente de vários nomes da época, não é relacionada a nenhum escândalo ou envolvimento com drogas. Poderia, também, enfileirar a coleção de sucessos que fizeram a trajetória de Bill Whiters e o tornaram um dos nomes mais importantes da soul music. Porém serei mais pessoal. Já que este é um texto sobre minha relação com Bill Whiters, intensificada por um fato recente.
Conheci seu trabalho indiretamente, através da versão da banda Raw Stylus de uma música que depois descobri ser sua. É o impressionante funk “Use Me”.

Lançada como single em agosto de 1972, “Use Me” vendeu mais de 3 milhões de cópias, tornando-se rapidamente a nº 2 da parada Billboard Hot 100. Foi incluída posteriormente no álbum Still BillA performance da canção, ao vivo, gravada em outubro de 1972, foi incluída também no álbum Bill Withers, Live at Carnegie Hall, lançado em novembro do mesmo ano.

Depois desta descoberta, comecei a pesquisar mais sobre a obra de Whiters, sendo obliterado por este outro grande som, Just the Two of Us”. Gravada em 1981, por Whiters e Grover Washington Jr., foi incluída no disco deste saxofonista, chamado Winelight. A canção chegou a número 2 da Bilboard Hot 100, ficando lá por três semanas. Em 1982, ganhou o Grammy de Melhor Canção de R&B. Além de diversas outras, Will Smith foi um dos artistas que criou a sua versão para a música.

Eis por que estamos aqui

Quando achei que já conhecia tudo o que de mais impressionante Bill Whiters produzira, eis que me deparo com esta graciosidade em forma de canção. Era o fim de uma sessão do filme Petspara a qual levei meu filho. E nas cenas finais, edulcorando a redenção que costuma ser o epílogo emocionante destas animações, reverbera pelo cinema esta pérola:

Poderíamos falar da inexorável linha de baixo clássico de um soul setentista, cama sonora macia para o vocal grave de Whiters. Poderíamos falar dos teclados gentis, marcando, como frases sussurradas, uma confissão que pode soar ingênua em tempos de corações empedrados. Poderíamos falar de uma confissão que pode soar ingênua em tempos de corações empedrados:
Then I look at you / And the world’s alright with me / Just one look at you / And I know it’s gonna be / A lovely day / lovely day, lovely day, lovely day
Poderíamos também falar do fim da canção, em que Whiters segura uma nota por incríveis dezoito segundos.
Porém, prefiro falar de sensações. De algo que vai muito além do que as definições técnicas e todos os conhecimentos acerca de clássicos soul dos anos 70 não conseguem abarcar. De não-eficiência de palavras, ainda que tentativas de encontrar a epifania nos mais diversos elementos — na voz, na melodia, na letra — , sejam feitas.
Prefiro falar de que é isto o que faz uma grande canção. Da tentativa infrutífera de tentar descobrir o que a torna tão fascinante e não conseguir. Apenas continuar a sentir o quão fascinante uma canção pode ser.

02 agosto 2016

Cobain


Em agosto de 1987, Kurt Cobain leu no jornal sobre Gerald Arthur Friend, um sujeito que sequestrou, torturou e estuprou uma garota de 14 anos. Esta história deu origem à "Polly", uma das músicas do Nevermind, álbum do Nirvana que completará 25 anos do seu lançamento no dia 24 de setembro.



Na mesma data, este ano, será uma lançada uma coletânea da qual sou um dos organizadores e autores, Cobain. Uma reunião de 25 escritores com contos baseados em 25 músicas da banda (mais alguns bonus tracks), e que será disponibilizada, gratuitamente, em e-book.

Coube a mim o conto baseado na música "Polly". Um conto bastante difícil de ser escrito, porque todo o tema da música só contém elementos de sofrimento. Construí uma breve biografia para este psicopata, assim como para a menina e para alguns diversos personagens que auxiliam no desenvolvimento da história. Escrita pesada, mas cujo resultado me agrada bastante. Aqui, um trecho.


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Eram só duas garotas, mas o quer que pareciam conhecer escapava completamente a Arthur. Ele parou o carro à sombra da pequena árvore de jambolão, distância suficiente para deleitar-se com a grossa camada de brilho de morango nos lábios de Poli, uma película que se esticava com a elasticidade de uma cobertura de sorvete à cada vez que a menina comentava alguma coisa com a amiga. Havia  noites em que Artur se sentava na varanda do pequeno motel em que morava e ficava ouvindo o cantar das cigarras por entre o assovio fino dos pinheiros. O cheiro da noite era diferente, trazia o perfume quente do xampu de pêssego da vizinha da porta ao lado, espreitando-se por entre o vapor do banho e misturando-se ao odor do asfalto levantado pelos pesados caminhões que passavam por ali àquela hora. O xampu de pêssego o fazia lembrar da mãe e sua essência frutada, aquele composto nos cabelos ainda molhados com o qual podia ser vista sempre que se achava em condições de abrir a porta do trailer para que ele e Tom entrassem, depois de despachar o sujeito com o qual ficara trepando a manhã inteira enquanto ele estava na escola. Naquelas noites ele se punha a pensar que merecia uma espécie de recompensa, um benefício adicional que o fato de nunca mais ter ouvido falar da mãe nunca lhe trouxera. Cada vez que encarava os lábios de uma menina, uma menina como Poli, parecia que encontrava este benefício adicional. A efemeridade da recompensa, no entanto, o frustrava —  o frustrava ter que contar com a fortuidade de encontrar algo assim nas lojas de conveniências, nos centros comerciais, praças, supermercados. Precisava daquilo para sempre, e sentir aquilo, a viscosidade e maciez daqueles lábios, sob um olhar que ia encará-lo e resfolegar sob seu peso, e gemer e pedir para aliviar um pouco, aquele olhar que diria que estava pronta para mais uma, pronta para consumi-lo como consumia o brilho labial que devia ter gosto de morango.

01 agosto 2016

Em progresso



É sempre difícil dizer qualquer coisa sobre um romance em andamento. A Zona da Invisibilidade. Ainda mais um dos trabalhos mais ambiciosos a que já me propus. Já me toma quatro anos de escrita e sigo trabalhando nele. Há a ansiedade pelo ponto final, mas um prazer sem fim pela escrita. O que posso fazer, se a alguém interessa, é voltar a publicar alguns trechos dele. Eis um dos mais recentes.


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Baré Cola, o nome do refrigerante. E é bizarro, como tudo o que é bizarro quando se tem dez, doze anos de idade, que ele fale Baé Cola. Inserção anteriorizada do freio lingual é o nome da sua disfunção, mas, para todos, Zé da Baé é só um sujeito que fala engraçado o nome de um refrigerante que todos têm que pedir quando vão ao Ramirez ou simplesmente quando têm que comentar, de forma gratuita Que puta vontade de tomar uma Baré Cola, caralho! Fala engraçado porque tem a língua presa, e cujo nome é justificado, como uma cartão de apresentação e um cardápio, por esta limitação — deixando claro desde o princípio que tipo de zoação se deve cometer com ele. Nada de tapa na nuca, toquinho na canela. Só uma risada galhofeira a cada vez que ele pronunciar uma palavra com a letra R. Serão muitas as oportunidades de risada galhofeira, portanto.

Agora imagine este garoto: inserção anteriorizada do freio lingual, língua presa, vamos lá; cabelo tigelinha, braços magros passeando livremente dentro de uma camiseta gigante, tentando dar jeito no seu quarto na casa recém-adquirida por seus pais naquele bairro sobre o qual não sabe praticamente nada — além de, mais uma vez, se parecer com o cenário de uma das dezenas de capas das fitas K7 que está tentando organizar na sua estante, a despeito do cabelo grudando na sua testa e atrapalhando sua tentativa de compilação ordenada.

Sugar Hill Gang, Grandmaster Flash and The Furious Five, Public Enemy, Run DMC, Beastie Boys. Boas companhias no seu processo frustrado de extravasar dores incompreensíveis aos outros. Uma catarse auditiva que envolvia sessões trancado em um quarto escuro e abafado com caixas de ovos nas paredes, para poder cantar junto, no volume máximo, versos que não deveriam fazer muito sentido para seus vizinhos, imersos no torpor de Jim Beam e dos Gauloises que os defumavam, sentados em suas varandas e jogando laranjas em direção aos moleques que tentavam acertar uma goleira de chinelos, com suas bolas de capotão. Versos dominados em um idioma que não é o seu e que ninguém espera que domine; infinitos ir-e-vir da fita magnética cansada de play, rewind.

Broken glass everywhere. People pissing on the stairs, you know they just don't care
I can't take the smell, I can't take the noise. Got no money to move out, I guess I got no choice. Rats in the front room, roaches in the back. Junkie's in the alley with a baseball bat
I tried to get away, but I couldn't get far... *

A despeito da semelhança daquele lugar com a imagem do que deveria ser o Brooklyn ou o Harlem, estampando as obras de seus heróis do rap, as coisas ali pareciam bem mais arranjadas do que tinham sido até então.

A ideia da mudança não pegou ninguém repleto de felicidade. Havia pouca probabilidade de se imaginar alguma espécie de resort ou um bairro minimante decente, depois do que seu pai lhes arranjara até então. Sua mãe se recusava minimanente a discutir a ideia. Ela não se achava nem um pouco capaz de suportar o trauma de uma nova mudança, especialmente para uma vila da qual nunca ouvira falar, além do prospecto que seu marido tentou fazer com que ela lesse, sem sucesso, uma boa dúzia de vezes. Uma idílica e aprazível comunidade distante do Centro, mas próxima do sossego. Mesmo para Zé da Baé, desacostumado com os subterfúgios publicitários dos órgãos públicos em seus materiais comerciais, aquilo parecia uma peça para pegar imbecis desinformados. Só que era difícil que alguma coisa fosse pior do que ser abordado quase diariamente por seus próprios vizinhos perguntando se tinha algum para lhes arranjar. Ou ser acordado na madrugada por batidas na porta de compensado dos fundos, por outros vizinhos — estes já interessados em saber se era seguro tentar invadir a casa.  A decisão do pai, de qualquer forma, fora tomada. Independente da sua mãe, que preferia passar quase todo o tempo no quarto, folheando velhas revistas de fofoca ou parecendo, para quem olhasse, que estava assistindo a Vale a Pena Ver de Novo, por baixo do aconchego do edredon, por baixo do calor do chambre, por baixo do torpor do cloridrato de sertralina.

Mas então eles foram. Estavam ali. Habitando uma casa que se unia ao termo comunidade, estampado no prospecto, porque era igual a todas as outras que seus olhos podiam alcançar. Espécie de colônia de férias com nenhuma praia à volta e só o brilho de um sol escaldante lhes recebendo, acompanhado de olhares de vizinhos que nem disfarçavam sua atenção, janelas escancaradas, alguns saindo à rua, interessados no mais novo clã branco demais para aquela comunidade, parecia. Não estavam ali para dizimar com a aprazível comunidade. Zé da Baé esperava que o torpor de sua mãe, sendo descarregada do pequeno caminhão que lhes trouxera, como se fosse também ela uma das velhas quinquilharias que apinharam na caçamba, parecesse aos outros um atestado de tranquilidade. Olhem, vizinhos pacatos e silenciosos meneiam suas cabeças recém-chegadas em nossa direção! Saudê-mo-los, portanto. Parecem boa gente!

  A casa cheirava à tinta, nas suas múltiplas demãos anteriores à sua chegada, e isto era bom. Pinceladas mal dadas sobre rodapés de madeira que não deveriam ser atingidos eram justificados pela fortaleza, muito distante do compensado da casa anterior que parecia feito unicamente para ressoar socos de vizinhos trincados de pó. Tijolo maciço lhes envolvendo, segurança de paredes nas quais se podia bater, pregar quadros, encostar móveis sem temer a possibilidade de desabamento sobre algum desavisado dormindo no quarto ao lado. O móvel está encostado na parede, uma estante toda sua para enfileirar sua coleção de K7s e seu pequeno Panasonic, ecoando sua canção-tema. Repetição ad infinitum de bumbo, inexorável linha de baixo incansável e uma espécie de deboche agudo gerado por sampler, cama sonora para o vocal grave de Melle Mel.

Junkie's in the alley with a baseball bat. *

Mas agora estava distante de tudo. O pai tomara o prumo. Fizera o que tinha que ser feito. Fugiram para longe dos socos nas paredes de compensados, de vizinhos revirando os lixos uns dos outros.

Mas o quão longe estão?

I tried to get away, but I couldn't get far... *







* “Cacos de vidro em todos os lugares. As pessoas urinando nas escadas, você sabe que eles simplesmente não se importam. Eu não aguento o cheiro, eu não aguento o barulho. Não tenho dinheiro para sair, eu acho que não tenho escolha. Ratos na sala da frente, baratas nos fundos. Drogados no beco com um taco de beisebol. Eu tentei fugir, mas eu não podia chegar longe.” (N. A.)

* “Drogados no beco com um taco de beisebol.” (N. A.)

* “Eu tentei fugir, mas eu não podia chegar longe.” (N. A.)

17 agosto 2015

Redenção



Três anos de idade. 

E ele diz “eu vou te pegar”, e seus ouvidos captam cada sílaba da frase deste menino de três anos de idade e percebem a sua intenção de parecer assustador, enquanto corre atrás de você, e você tem repertório suficiente para lembrar que esta intenção na voz dele — ainda que você consiga abrir parênteses mentais de espanto — é associada àquele personagem vilanesco da animação que ele já viu uma boa dezena de vezes, retornando com seus dedos gordinhos, os mesmos dedos que agora estão crispados na tentativa completa de composição do personagem, pressão sob medida sobre a tela do tablet que este menino de três anos de idade maneja com uma facilidade e coordenação motora que você não sabia serem possíveis em uma criança tão pequena assim.


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Este é um trecho de Redenção, conto inédito, que pode ser lido no site do Musa Rara.

06 abril 2015

Conto novo



*** LANÇAMENTO FORMAS BREVES ***

"Agora que estamos de volta", de Alessandro Garcia.
COMPRE AQUI por R$ 1,99. Atalho para as lojas:
http://blog.e-galaxia.com.br/formas-breves/


“Enquanto toma banho, ele fecha os olhos e imagina quando poderá dar a ela a cidade que prometeu. Tudo ali é cinzento e pesado, como se blocos de fuligem se alojassem em seus pulmões todas as manhãs em que precisam enfrentar o metrô.”

O desejo no desvão da linguagem, numa narrativa contundente de um dos jovens talentos do conto contemporâneo.

Alessandro Garcia é autor de “A sordidez das pequenas coisas”, finalista do Prêmio Jabuti e segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional. Publicou nos livros “Contos de Natal” (e-galáxia, 2014), “É Assim que o Mundo Acaba” (Editora Oito e Meio, 2012), “Assim você me mata” (Terracota, 2012), “Ficção de Polpa – Vol. 3” (Não Editora, 2009), “Ficção de Polpa – Vol. 1” (Fósforo, 2007; Não Editora, 2008). Escreveu o perfil do escritor Jonathan Franzen para o livro “Por que Ler os Contemporâneos?” (Dublinense, 2014). É editor da revista literária “Flaubert”.

Formas Breves é um selo digital dedicado ao gênero conto. Seu único princípio é a qualidade. Com traduções diretas e exclusivas de grandes clássicos do conto universal ou com narrativas da nova geração de escritores em língua portuguesa, Formas breves é um ancoradouro desta galáxia chamada conto.

22 março 2015

De Santo Domingo a New Jersey

Qualquer busca sobre A fantástica vida breve de Oscar Wao (Editora Record, 332 páginas, 2009) apresenta o livro como a saga de um protagonista nerd ao extremo, terrivelmente obeso, afundado em um universo de ficção científica e que sonha em ser o Tolkien Latino. A própria orelha do livro o vende assim — um sujeito inadequado que jamais realizará seus desejos. Tudo escrito com "humor original e ternura". Talvez seja a estratégia para tornar o livro mais comercial, mas a verdade é que há muito mais, o que justifica ter sido considerado um dos melhores livros de 2008, ganhador do Pulitzer, do National Book Critics, entre outros importantes prêmios.


Somente a história de um filho de dominicanos, nascido nos Estados Unidos, que não se encaixa no estereótipo de macho alfa frequentemente associado aos seus conterrâneos já seria interessante no tratamento de um escritor hábil. O fato é que, mais do que isto, Junot Diaz, o autor — também dominicano — consegue construir a saga de uma família dominicana desde a época de Trujillo (general que comendou a República Dominicana de 1930 a 1961), até o fim dos anos 90. Para apresentar esta saga e construir um rico retrato da comunidade dominicana nos Estados Unidos, Diaz dá voz a uma gama de personagens. Afinal, para falar de Oscar, é preciso falar de sua irmã, de sua mãe, avós, desenterrando demônios do passado.

O autor, Junot Díaz.

Dosando com precisão esta mescla de amargura e humor, o romance desperta um sentimento agridoce. É painel intenso que dá voz aos imigrantes, com suas expressões fartas em espanhol e escarafunchando lembranças dolorosas. Imagine contrapor tudo isto a porções fartas de namedropping nerd: livros, jogos, filmes, quadrinhos, séries. Tudo está nomeado e assinalado para marcar as influências que tornaram a infância, adolescência e idade de adulta de Oscar praticamente insuportáveis, em humilhação e inadequação.



Com escrita ágil e envolvente, Junot Diaz apresenta com propriedade o gueto de Nova Jersey, tomado por latinos (e a rusga de dominicanos VS. porto-riquenhos garante outros momentos de humor) e uma República Dominicana que, por mais dolorosa que se apresente, pelas lembranças de repressão evocadas, pinta-se num quadro tão bem descrito, que o que fica é a vontade de conhecer além das páginas.


Publicado originalmente na revista da Have a Nice Beer.

27 janeiro 2015

Road movie gastronômico


Elementos que não podem faltar num road movie (juntos ou separados): 1. Personagem em fuga ou tentando um recomeço; 2. Estrada como metáfora ou meio de descoberta (da resolução dos problemas, do amor verdadeiro, do “eu” do personagem e variantes similares); 3. Aproximação ou distanciamento definitivo de personagens em conflito (que podem estar juntos na viagem ou não).
Com pequenas variantes, os elementos que formam este tão tradicional gênero podem ser notados desde as primeiras produções cinematográficas que o inauguraram — e isto lá em 1902, quando Georges Meliés lançou seu Viagem à Lua. A verdade é que, para alguns, o primeiro filme exibido na história, A chegada do trem à estação de Ciotat, dos irmãos Lumière, em 1895, já trazia a conexão entre cinema e viagem. E não importa que desde então as produções do gênero praticamente nunca tenham esmorecido. Os roads movies costumam trazer aquela familiaridade de identificação imediata: um conflito humano, um carro/moto interessante, lugares exóticos ou paradisíacos no meio do trajeto e temos a receita quase incontornável de sucesso. Adicione personagens carismáticos e corra para o abraço.
Chef, a mais recente empreitada do Jon Favreau não é diferente. Cansado dos blockbusters (o ator/diretor é responsável pelos dois primeiros filmes da franquia Homem de Ferro), Favreu resolveu retornar ao cinema intimista e de baixo orçamento, escrevendo, dirigindo & atuando. Para tornar tudo ainda mais irresistível, conseguiu a façanha de adicionar a amada gastronomia ao seu divertido road movie (e a amada Scarlett Johansson, que não pode nunca ser esquecida).
Utilizando os elementos do gênero: 1. Favreau é Carl Casper, chef apaixonado por seu trabalho. Frustado por ter sua criatividade podada no restaurante onde trabalha, tenta o recomeço com um food truck (o El Jefe) de comida cubana; 2. Casper irá redescobrir a paixão pela gastronomia; 3. A viagem também servirá para reaproximá-lo de seu filho, Percy (Emjay Anthony), de quem é distante desde que separou-se de Inez (Sofia Vergara).
Dito isto, vamos ao que importa: comidas deliciosas (não assista de estômago vazio), trilha sonora imbatível e locações incríveis, onde clássicos points gastrômicos dão o tom — e o sabor. Depois de dar adeus a seu emprego em Los Angeles, a viagem começa com a inspiração. É Miami, na Little Havana onde a família cubana de sua ex-esposa vive, que Casper terá o insight para os sanduíches cubanos que serão o sucesso de seu food truck. Como resistir à combinação de presunto doce, carne de porco assada, queijo suíço, picles e mostarda no pão tostado?

Próxima parada, New Orleans. Lugar onde a comida — beignets cobertas de açúcar no famoso Cafee du Monde — é um programa tão cultural quanto as infindáveis jams musicais na Frenchmen Street. Dali, El Jefe parte para Austin, onde o churrasco texano, assado lentamente do Franklin Barbecue vira recheio para outro sanduíche de sucesso.
É claro que num filme onde a gastronomia manda, a cerveja também tem seu lugar. Se não tanto como deveria — eles aparecem empinando algumas cervejas em momentos de comemoração —, a gente compensa, apresentando uma breve lista dos melhores lugares para se beber, nas cidades visitadas por El Jefe Carl Casper.
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6 bares para apreciar uma boa cerveja, nas cidades de Chef.
MIAMI

The Democratic Republic of Beer(501 NE 1st Avenue)








Mais de 500 cervejas de 60 países, aberto diariamente até as 5h. Ainda sedia um famoso torneio de beer pong.

The Bar
(The Bar, 172 Giralda Ave., Coral Gables)











O número de cervejas é menor: 48. Mas, para compensar, tem uma seleção de jogos de tabuleiros e um menu com uma grande seleção de hambúrgueres.
NEW ORLEANS

Barcadia Bar & Grill(601 Tchoupitoulas Street)










Além de uma grande variedade de cervejas, com foco nas artesanais, tem salas cheias de máquinas de games arcade.

Cooter Brown’s Tavern & Oyster Bar(509 S. Carrollton Ave.)












Uma seleção de 400 cervejas, com 40 nas torneiras. Perfeito para os fãs de esporte, com suas mais de 20 TVs à disposição.
AUSTIN
The Chicago House
(607 Trinity Street)











Qualquer cerveja, a $5 (exceto durante o happy hour, quando tudo é por $4!). Vinte torneiras e duas cervejas de barril.
Craft Pride(61 Rainey Street)












Mais de 50 torneiras dedicadas exclusivamente às cervejas produzidas no Texas.

Publicado originalmente na revista da Have a Nice Beer.