18 abril 2013

Antimanual de sobrevivência




Aproveitando a presença de J. M. Coetzee por aqui, ressuscito uma resenha que fiz para O Globo Online de seu então mais recente livro a ser lançado no Brasil, Juventude.

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Juventude, do sul-africano J. M. Coetzee, é um livro que inevitavelmente entra na clássica definição dos romances de formação. No entanto, subvertendo as fórmulas comumente empregadas nesse gênero, não apresenta episódios espetaculares ou um daqueles acontecimentos epifânicos, capazes de revelar a John, o protagonista, o sentido da vida. Bem pelo contrário. Neste romance autobiográfico, John, estudante sul-africano recém formado em matemática e aspirante à poeta, essencialmente faz isso: aspira. À própria vida, à uma paixão avassaladora, a instantes quaisquer que o livrem do marasmo de um cotidiano onde nada parece corroborar para o seu sonho de escritor. Nesta tentativa, vai para Londres. Como um estrangeiro, no entanto, é um ente entregue somente à sua sorte, que pulula em empregos como programador, tentando sobreviver à insensibilidades destes e procurando encontrar identificação com um país que não é o seu? Mas o que é seu, então? A África do Sul, distante, é um país do qual não lhe interessam nem as notícias que sua mãe lhe envia nas constantes cartas preocupadas. O conflito racial que o regime do apartheid repele com violência, não lhe preocupa, tão distante (e insensível?) é John dos problemas da sua nação de origem.



No meio de Juventude, escrito um pouco antes de Coetzee ganhar o Nobel, John por vezes comove, por outras, irrita. É um ser inseguro, imaturo, indiferente. De um alheamento que o faz quase autista, esperando que lhe caia no colo, romanticamente, o dom, o poema que identificará no mesmo segundo como digno de ser aprovado por Pound, sua referência máxima. Assim como espera que lhe caia a paixão em forma de uma mulher que lhe faça vibrar, desejar, e não através das tantas que trata com descaso, desconsideração – um desinteresse e uma frieza tais que por vezes permeiam a misoginia:


Sua própria explicação para os fracassos no amor, agora velha e cada vez menos confiável, é que ainda tem de encontrar a mulher certa. A mulher certa enxergará, através da superfície opaca que ele apresenta ao mundo, as profundezas interiores, a mulher certa destravará as intensidades ocultas de paixão dentro dele. Até a chegada dessa mulher, até o dia destinado, ele está só passando o tempo. Por isso Marianne pode ser ignorada. 


Leituras, vivências, experiências, paixões. Em Juventude, Coetzee não responde à nenhuma destas questões. O que sobram são indagações. De um poeta que não sabe como se construir para alçar o panteão dos "abençoados". Que adia o momento de pôr no papel os versos que têm em mente com o mesmo desespero com que empurra de sua vida a menina de quem tira a virgindade. John, em essência, é um passivo. Um romântico esperançoso da glória que se deixa arrastar, frustrado mas incapaz de mover uma palha para modificar seu destino ou acalentar algum interesse sequer com paixão. A própria bolsa de mestrado que ganha, na qual escolhe estudar Ford Madox Ford, é uma burocracia a mais, tão somente, tal qual os cartões perfurados no seu emprego-bovino como programador de computador em uma Londres dos anos 60. Tal qual a rotina preguiçosa do pão com linguiça frita a cada jantar.


Narrado em terceira pessoa, Juventude é escrito com precisão, em estilo conciso, seco, quase ingênuo na forma como formula as questões através da voz de John, e da forma como John acha que se tornará escritor. O motivo de sua mudança para Londres não é outro senão submergir nas profundezas, vendo-se ainda mais estático e limitado na Cidade do Cabo. No entanto, não é a mudança que lhe fará bem sucedido nos intentos que ele desconhece como se armam:


Há mais coisas na história infeliz, porém, do que a mera vergonha. Veio a Londres para fazer o que é impossível na África do Sul: explorar as profundezas. Sem descer ao fundo, ninguém pode ser artista. Mas o que exatamente é esse fundo? Achara que caminhar pelas ruas geladas, o coração amortecido de solidão, era estar no fundo. Mas talvez o verdadeiro fundo seja diferente e venha de forma inesperada: numa chama de perversidade contra uma garota nas primeiras horas da manhã, por exemplo. Talvez a profundeza onde quer mergulhar tenha estado dentro dele o tempo todo, encerrada em seu peito: a prundeza da frieza, da insensibilidade, da calhordice. Dar rédea solta a seus pendores, a seus vícios, e depois atormentar a si mesmo, como faz agora, ajuda a qualificá-lo para ser um artista? Não consegue, neste momento, ver como? 


O maravilhoso nesta obra de Coetzee, no entanto, está exatamente na frustração: tanto na de John, que frustra sonhos e anseios por covardia própria, como na frustração de expectativas do leitor, que não encontra nenhum manual de vivência, nenhuma bóia a que se agarrar, nenhum guia de formação do escritor, nenhum acontecimento espetacular que vá fazer com que John acorde para o que tanto deseja. Não. O que há em Juventude são os relatos da "província" (Juventude é o segundo romance que compõem as Cenas da vida na província, iniciadas com Cenas de uma vida) de uma vida comezinha, besta, limitada. Se John se deixa levar tão somente para a burocracia de um emprego como programador, que lhe provém o bom salário e uma casa financiada que terminará de pagar em quinze anos, certamente estará distante do seu intento de ser um escritor, livre, à mercê das experiências que certamente o formarão:


Por outro lado, pode fazer as pazes com esse mundo, como vê os homens à sua volta fazerem, um a um: contentando-se com o casamento, com uma casa e um carro, contentando-se com o que a vida tem de realista para oferecer, mergulhando as energias no trabalho. Fica mortificado de ver como o princípio de realidade funciona bem, como, levado pela solidão, o rapaz com espinhas se contenta com a menina de cabelo opaco e pernas pesadas, como todo mundo, por mais improvável que seja, acaba encontrando um par. 


Mas, se não sabe como obter as experiências que forjarão seu destino, ou se é covarde demais para isso, (É incompetente demais para levar uma vida de fora-da-lei, comportado demais, medroso demais de ser pego. ) que rumo lhe cabe? A mediocridade? O meio-termo, a insatisfação inacabável com a condição que tem e que, afinal de contas, jamais fará absolutamente nada para modificar. 

12 abril 2013

O jogo na obra de Cortázar



No meu caso, a literatura tem sido uma atividade lúdica — com toda a seriedade que para mim tem o jogo. E escrever tem me feito muito feliz. (Julio Cortázar)

Segundo Chklovski em L’Art Comme Procedè, Théorie de la Littèrature (Textos dos Formalistas Russos organizado e traduzido por Todorov), “a finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; os procedimentos da arte são os do estranhamento dos objetos, que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção.” De tal maneira que podemos dizer que na obra de Julio Cortázar, o contraponto entre verossimilhança e estranhamento é a mola propulsora de uma infinidade de jogos passíveis de serem identificados na sua literatura. Diante de sua obra, o leitor poderá sentir-se à frente de textos para diversão (não será por acaso, o autor produziu uma novela chamada Divertimento), por diversas razões: a construção acrobática, de um virtuose das letras; as inter-relações que a porosidade de seu mundo possibilita; a presença da fala coloquial; os comentários com o leitor; os convites à participação do leitor. O jogo, da mesma forma que o jazz, é um leitmotiv da obra, um tema recorrente e é motivo de constante indagação da crítica. Assim, para Néstor García Canclini, em Cortázar: uma antropología poética (Buenos Aires: Nova, 1968), que interpreta o conjunto da obra de Cortázar, o jogo remete a outros aspectos temáticos: o da liberdade e da responsabilidade, tal como aparece, sobretudo, para os personagens adolescentes, que são numerosos na ficção cortazariana.


O jogo, na obra de Cortázar, aparece como ordem temática, proposto como uma experiência repleta de potencialidades reveladoras, uma “diversão” (no sentido etimológico de “desvio”), que desvia da normalidade repetitiva, apontando para uma nova possibilidade de realidade, de maneira transcendente, como busca de sentido para a vida e, muito constantemente, através dos jogos espaço-temporais recorrentes em certos contos e cuja complexidade é objeto de indagação ou desafio para muitos de seus personagens. Mas o jogo aparece também como ordem formal: funciona como primeiro estímulo para prender o leitor, obrigando-o a ser partícipe dos lances propostos pelo autor, a embarcar em uma constante lúdica de vai-e-vém, num jogo de ser e parecer, de abertura de brechas. Essa constante lúdica desafia o ser lúdico do leitor, impelindo-o a desbaratar um emaranhado e estar atento ao processo de escritura.


A atração pela coisa lúdica surge em Cortázar como tema, como obsessão, como apego das coisas da infância, como se pode ver neste trecho de Conversas com Cortázar, de Ernesto González Bermejo (Jorge Zahar Editor, 2002):

Se fizéssemos uma escala de valores dos jogos que fosse dos mais inocentes aos mais refinadamente intencionais, acredito que teríamos de colocar a literatura (e a música, a arte, em geral) entre os de expressão mais alta, mais deseperada (sem o valor negativo desta palavra).

Para se compreender o sentido e a função do jogo no fazer literário da obra de Cortázar, é preciso analisar o sentido e a função do elemento lúdico tanto na própria estrutura dos textos, quanto no seu conteúdo, onde por vezes é tão somente um elemento temático interligado aos demais.

Jogo como desvio da normalidade

O jogo, na obra de Julio Cortázar, pode ser considerado como um elemento de transcendência da realidade, como um instrumento revelador de potencialidades que desviam da normalidade repetitiva, apontando para uma outra dimensão da realidade. É importante, no entanto, deixar claro a possibilidade de muitos elementos entrarem nesse jogo: construções de palavras, como anagramas e palíndromos (como podemos tão bem observar em “Satarsa”), uma revolução, a busca de sentidos para a existência, a própria vida. E, não obstante, o jogo por si só. O jogo como proposta de desvio da normalidade. “Manuscrito achado num bolso” é exemplo máximo e incontestável disso: o protagonista do conto inventa um sistema de combinações com as linhas do metrô que se mostram como uma tentativa de substituir a forma ocasional de conhecer uma mulher; regras rígidas e elaboradas matematicamente que criam combinações com as quais o protagonista pretende invadir “outra dimensão” — porém, sem que tal intento seja explicitado. As regras, diabólicas em sua rigidez, são inventadas pelo protagonista sem uma razão explicada. No entanto, ao quebrar suas próprias regras ao conhecer uma mulher é invadido por um complexo de culpa que o obriga a cumprir as regras até o final. E falha, perdendo a mulher. Não faltam elementos simbólicos e próprios das obsessões de Cortázar a entrar nestes contos: estruturas e meios de passagem o fascinam, tais como os metrôs, os bondes, os barcos, as pontes. As possibilidades de combinações possíveis, a ilusão espaço-temporal que compreendem.


Todos estes elementos e símbolos são constantemente utilizados por Cortázar em suas tramas, remetendo, de repente, a outra coisa, além. São como válvulas para instantes epifânicos. Desde uma sensação que um personagem sente quando anda no metrô (Johnny, personagem de “O perseguidor”, conto divisor de águas na carreira de Cortázar) ou a ponte que antevê em sonhos (“Satarsa”), tudo pode ser visto “como o comentário de outra coisa que não alcançamos”, conforme diz em O Jogo da Amarelinha. O jogo, na obra de Cortázar, implica uma probabilidade de passagem, uma abertura ao novo, mas também funciona como um elemento que aciona uma outra abordagem na trama: é o estranhamento tão levado ao extremo que vira o start para o absurdo.


02 abril 2013

Sinapses #04: Literatura e levedura




“Subi ao último andar de um dos hotéis mais altos, entrei no espaçoso bar e pedi uma cerveja Heineken. Passaram bem uns dez minutos até vir a cerveja. Enquanto esperava, apoiei o cotovelo sobre o braço da cadeira e deixei-me ficar assim, de olhos fechados, com a cabeça apoiada na palma da mão. Não conseguia concentrar-me nem pensar em nada. Com os olhos fechados, a única coisa que ouvia era um ruído que me fazia lembrar uma centena de duendes a varrerem o interior da minha mente com as suas vassourinhas. Varriam e tornavam a varrer, e o trabalho deles nunca acabava. A nenhum deles passara pela cabeça usar uma pá do lixo. Quando me trouxeram finalmente a cerveja, emborquei-a em duas únicas goladas.”




O trecho acima é tradução portuguesa do livro Hitsuji o meguru bōken, de Haruki Murakami (que saiu em Portugal como Em Busca do Carneiro Selvagem, pela Casa das Letras, e no Brasil, pela Estação Liberdade, em 2001, como Caçando Carneiros). Considerado hoje o escritor japonês mais famoso no mundo, Murakami já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e concorreu algumas vezes ao Nobel de Literatura. Com doze romances publicados, Murakami conseguiu construir uma obra que é um mix de cultura e personagens japoneses com temas de apelo universal, como música clássica, jazz, canções dos Beatles e romantismo, tudo temperado com algumas doses de fantasia. Em Caçando Carneiros, um publicitário de nome nunca revelado (assim como o de nenhum dos personagens), recebe a insólita missão de caçar um carneiro (!) “capaz de entrar na alma das pessoas e sugar-lhes todo o espírito de vida, a fim de mostrar seu imensurável poder e assim construir um grandioso império”. Sim, muitos pontos de exclamação.

Isto é só um aperitivo do que é capaz a mente de Murakami, cujo livro mais recente, que finalmente chegou ao Brasil, 1Q84 (Alfaguara, 432 páginas), vendeu cerca de 5 milhões de cópias, 4 milhões apenas no Japão, e atingiu o segundo lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. Na trama, Tengo, um ghost-writer, e Aomame, uma assassina profissional, caem presos numa realidade paralela, em que enfrentam um misterioso culto religioso — enquanto procuram um pelo outro. Com personagens frequentemente jovens, perplexos diante do mundo, Murakami tornou-se um fenômeno épico junto aos adolescentes japoneses, que torciam por sua vitória no Nobel, em 2012, como na final de um campeonato.

No trecho descrito, o personagem inominado aguarda por sua Heineken, marca da cervejaria fundada em 1864 em Amsterdã. Terceira maior do mundo, não é à toa que a cerveja aparece no livro deste autor. Seu apelo pop é escolha perfeita para figurar em uma obra repleta de referências ocidentais de identificação imediata. Se já citou compositores como Debussy, já intitulou um dos seus livros com o nome de uma faixa do álbum Rubber Soul, dos Beatles, parece natural que Murakami — ex-dono de um bar de jazz em Tóquio — ceda uma participação a esta pilsen que tem duzentas garrafas abertas a cada segundo e é criadora das mais fantásticas ações de marketing e de publicidade do mundo cervejeiro. Figurar no livro de um autor acostumado com o fantástico (capaz de criar um mundo paralelo onde há duas luas), também faz todo o sentido para uma cerveja com sua própria dose de misticismo. Sua estrela vermelha é representativa disto: pendurada nos barris pelos cervejeiros medievais para proteger a bebida e garantir sua qualidade, suas pontas representam o poder da terra, fogo, vento, água e um quinto elemento mágico. Definitivamente, descobrir o que há por trás da história de cervejarias pode ser tão fascinante quanto absorver os mundos criados pela literatura. E, em qualquer um dos casos, o consagrado slogan de 2011 da Heineken, serve na medida: “Open your world”.

Publicado originalmente na HNB Mag.

02 março 2013

Sinapses #03: Literatura e levedura


Hunter S. Thompson nasceu em Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos, em 1937. Adolescente problemático, encontrou na escrita o seu abrigo quando começou a escrever para o jornal da base da Força Aérea, onde servia. Profundamente impactado pelo Movimento Beat, emendou uma série de empregos em redações de jornais e revistas, sendo demitido de uma porção deles até passar por publicações como El Sportivo e National Observer, na maior parte das vezes como freelancer. Talvez você ache que não o conhecia até agora, mas é bem provável que lembre de quem me refiro quando souber que seu segundo romance saiu no Brasil com o nome de Rum: Diários de um Jornalista Bêbado, (“The Rum Diary”) lançado pela Conrad, em 2005. Não por acaso, praticamente o mesmo título do filme de 2012, estrelado por Johnny Depp e também não por acaso o segundo filme em que o ator homenageia este jornalista e escritor cujo alto grau de bizarrice e prática profissional pouco ortodoxa foram os responsáveis por sua fama. 



Tudo fica mais claro se você já assistiu à Medo e Delírio em Las Vegas (“Fear and Loathing in Las Vegas”), uma produção de 98, adaptada do livro que compila uma série de artigos de Thompson escritos para a Rolling Stone. No filme, Johnny Depp interpreta Raoul Duke, alter ego com que Thompson assinava alguns de seus artigos, escritos sempre em primeira pessoa e repletos de doses cavalares de (álcool) parcialidade, falta de objetividade, (álcool) e a crença genuína de ser preciso indistinguir autor e sujeito da narrativa em situações frequentemente extremas ou transgressivas. Eis o “estilo” que ficou cunhado como Jornalismo Gonzo, decorrente de uma gíria irlandesa para designar o último homem em pé após uma maratona de bebedeira.

Corta para alguns anos à frente, quando dois sujeitos chamados George Stranahan e Richard McIntyre enfrentavam uma viagem desastrada pelo Himalaia - sem qualquer preparo físico e levando apenas um burro, uma mala repleta de contrabando e cerveja - e foram parar em um hotel decrépito no interior do Paquistão, no qual, após encherem a cara, deram de frente com uma pintura feita por um artista local na parede do lugar: um grande cachorro voador. Foi a inspiração para cervejaria que viriam a fundar em 1990, em Frederick, Maryland, a Flying Dog. E quem estes dois sujeitos têm como amigo? Hunter S. Thompson, simplesmente o cara responsável por apresentá-los ao desenhista Ralph Steadman, internacionalmente conhecido por seus cartuns e charges políticas e parceiro frequente em seus artigos. Ele tornou-se o ilustrador do rótulo de todas as 23 cervejas da marca, um projeto gráfico que traz o mesmo espírito insano que inundou os textos de Hunter Thompson. O ciclo se fecha ainda mais com o fato de uma das cervejas ser a mais genuína homenagem à Thompson, a Gonzo Imperial Porter, uma Baltic Porter com teor alcoólico de 7,8%, forte, encorpada, de creme denso, com aroma potente de café e amargor intenso. Força e intensidade: nada mais justo para homenagear um escritor que dizia: “Eu odeio advogar à respeito de álcool, drogas, insanidade e violência, mas elas sempre funcionaram para mim”.

Publicado originalmente na HNB Mag.

22 janeiro 2013

Sinapses #02: Literatura e levedura

A imagem do escritor buscando inspiração acompanhado de seu drink favorito é tão conhecida quanto verdadeira. Não foram poucos os grandes nomes da literatura que ficaram associados às mais diversas bebidas, tais como Ernest Hemingway, Oscar Wilde e Scott Fitzgerald, entre outros. O livro Guia de Drinks de Grandes Escritores Americanos, de Edward Hemingway e Mark Bailey (Editora Zahar, 104 págs.), dá conta de uma bela porção deles, reunindo receitas de drinks e trechos de obras literárias que mostram o fascínio de romancistas, contistas, poetas, jornalistas e críticos pelo mundo da bebida.
Mas, se Hemingway tinha predileção pelo mojito, Oscar Wilde pelo absinto e Dylan Thomas pelo uísque puro, quem declamava seu amor pela cerveja? Charles Bukowski é a resposta.




Nascido em Anderson, na Alemanha, em 1920, Bukowski mudou-se para a América com dois anos e tornou-se um dos poetas e ficcionistas mais conhecidos dos Estados Unidos. Mas isto muito depois de amargar uma vida passada em quartos de hotéis baratos, subempregos e um histórico familiar que virou motivador da escrita alucinada que marcou sua produção. Bebedor desbragado, tal qual seu alter ego, Henry Chinaski, Bukowski criou uma imagem mítica ao seu redor, ficando conhecido como “Velho Safado”, com sua poesia e prosa que, como não escondia, eram quase sempre autobiográficas. Uma obra cujos temas mais recorrentes são ódio, amor, paixão e melancolia, entremeados de muitas aventuras ébrias, que podem ser conhecidas nos mais de 50 livros que escreveu. 

Aqui, três ótimas portas de entrada para a obra deste autor, fã de boilermaker, drink de bourbon e cerveja tipo lager e que tem, inclusive, um poema intitulado “Cerveja”, que pode ser encontrado no livro O amor é um cão dos diabos (L&PM, 304 págs.).


HOLLYWOOD

[L&PM, 248 págs.]
Escrito a partir da experiência de Bukowski como autor do argumento para o filme Barfly (com Mickey Rourke e Faye Dunaway), o livro narra a história de um escritor que ganha um bom dinheiro para escrever um roteiro para o cinema. Narrado em primeira pessoa, contém a carga de pessoalidade que nos comove com a trajetória do escritor tentando vencer na vida apenas com a máquina de escrever.




FACTÓTUM

[L&PM, 184 págs.]
Bebidas, andanças por antros marginais, tentativas de ser publicado: aqui está Henry Chinaski, o alter ego de Bukowski, querendo se tornar um escritor. Nesta versão mundana do artista quando jovem, o herói é um sujeito sem emprego nem perspectiva, considerado “inepto para o serviço militar”, que cruza o país fazendo de tudo um pouco para se manter e poder fazer a única coisa que ama: escrever.




A MULHER MAIS LINDA DA CIDADE

[L&PM, 64 págs.]
Coletânea de contos de leitura rápida e fluida, como conversar com um ancião cheio de histórias no seu pub preferido. É o universo etílico do velho Buk na sua melhor forma, com seus quartos imundos de hotéis baratos, mulheres por qualquer merreca, apostadores com sonhos reduzidos a trapos e as manhãs enevoadas de Los Angeles. O conto que dá título ao livro originou o filme Crônica de um amor louco, de 1981, do italiano Marco Ferreri.





Publicado originalmente na HNB Mag.

09 janeiro 2013

Sinapses #01


MAINSTREAM
Frédéric Martel
[Civilização Brasileira, 490 pgs.]

Por que os cinemas multiplex de shoppings centers tornaram-se o símbolo da excelência cinematográfica? Por que os filmes indies são, hoje, somente uma categoria estética? Como as novelas da Rede Globo conquistaram o mundo? Bollywood ameaçará a hegemonia do cinema americano? Qual a fórmula do sucesso das franquias da Disney, que estendem-se para espetáculos na Broadway, parques de atrações, show em cruzeiros e milhares de produtos? Fruto de uma pesquisa de cinco anos, que incluiu viagens a 30 países dos cinco continentes e mais de 1.200 entrevistas, o doutor em sociologia, pesquisador, jornalista, professor e apresentador Frédéric Martel investiga a batalha de conteúdo no mundo, não deixando de fora os mercados da música e do livro, uma indústria colossal eternamente preocupada em lançar o próximo blockbuster.



O PERSEGUIDOR
Julio Cortázar (ilustrações de José Muñoz)
[Cosac Naify, 96 pgs.]

O perseguidor” é, provavelmente, o conto mais importante deste que é um dos maiores contistas da história da literatura. Publicado originalmente em 1959, no livro As armas secretas (publicado no Brasil pela José Olympio Editora),  a história descreve os últimos dias de Johnny Carter, virtuoso saxofonista cuja decadência conhecemos entremeada por sua obsessão com o tempo. Homenagem ao genial Charlie Parker, o conto foi considerado pelo próprio Julio Cortázar como um divisor de águas em sua carreira, quando o personagem deixa de ser um “joguete a serviço do fantástico e passa a ser o centro da narrativa”. Esta linda edição da Cosac Naify chega ilustrada pelo desenhista argentino José Muñoz. Ótima porta de entrada para quem não conhece a obra do autor mais conhecido por O Jogo da Amarelinha, e indispensável para os fãs.

04 janeiro 2013

Agendamento

Quando eu saí da minha pequena bolha de abstração um não-espaço construído à custa da observação ininterrupta de uma nódoa situada a cerca de três metros do chão (como é que aquela nódoa se depositou ali?) eu estava novamente mirando a senhora da cadeira de rodas. Encarando ostensivamente. E encarando a menina com pele oleosa e cabelos presos em um tic-tac de ursinho, que foi quem trouxe a senhora da cadeira de rodas até aquele lugar que deveria ser de atendimento especial. 

A senhora da cadeira de rodas deveria ser atendida prontamente. Mas, a despeito do fato de ela ter sido posicionada à frente de todos na fila e ninguém ter manifestado qualquer negativa quanto a isto, ela espera tanto quanto todos ali. E todos têm em suas mãos uma ficha de papel com um número. A senhora da cadeira de rodas não têm, eu vi, pois deveria ter sido atendida prontamente, mesmo sem ter uma. Mas isto não acontece e ela também parece procurar a sua própria nódoa em algum canto do posto de saúde para construir sua bolha particular.

O posto de saúde oficialmente chama-se Posto de Saúde Modelo, embora ninguém ali pareça minimamente interessado em zelar pela suposta qualidade que a nomenclatura pressupõe. Tudo parece um convite ao desejo quase insuportável de transformar a experiência em ficção. Não transformei. Cá estou eu transformando-a em relato e nada além disso.

No guichê onde se lê "Informações" está um sujeito com um uniforme onde se lê "Porteiro". Quando solicito a primeira, ele me indica o rapaz no guichê exatamente ao lado do dele, no qual não há nada escrito. Mas é ele quem há de me providenciar A Informação, este produto tão raro a ponto de ser necessário um ritual para obtê-lo.

O Posto de Saúde Modelo é bege e as pessoas são apáticas. A burocracia e o serviço público tem cor e tem sentimento.

Findados os trâmites inevitáveis para se constatar que eu já sou portador do Cartão de Registro que garante o merecimento dos benefícios ali disponíveis, me indicam, com o queixo, o guichê para agendamento, onde não está escrito Guichê para Agendamento. Ali não está escrito nada. 

Retiro minha ficha de papel e sento, aguardando. Quando sou atendido, descubro que não é o Cartão de Registro que querem. É o Cartão de Agendamento. 

O Posto de Saúde Modelo é o lugar onde se pede artifícios em forma de papel para garantir que eu mereço estar ali. Todos parecem interessados em evitar que eu me divirta em uma festa não tão divertida assim. 

No guichê para agendamento, onde não está escrito Guichê para Agendamento, digo que não, que não tenho o Cartão de Agendamento. O rapaz de cabelo espetado, do outro lado do vidro embaçado por uma superposição de impressões digitais, me diz que tudo bem. Ele puxa de uma grande pilha de Cartões de Agendamento um Cartão de Agendamento em branco, pronto para fazer o meu. Quando nota meu endereço, impresso no Comprovante de Residência que eu lhe alcanço, hesita um tanto, caneta bic em suspenso sobre o papel, e consulta seu oráculo em forma de tela bege. Pede para que eu faça meu Cartão de Agendamento em outro lugar, naquele mesmo Posto de Saúde. É um lugar que tanto pode ser PSF quanto ESF quanto SF. Sua dicção ruim não está interessada em me prestar bom serviço.

O Posto de Saúde Modelo é feito de seres construídos à base de balbúcios e direções apontadas com o queixo e leve menear de cabeça. Bem leve.

Penso que seja lá que nome for, uma placa há de me apontar. Qualquer departamento terminado em F, é tudo o que preciso. Percorrido o labirinto de corredores e portas beges e nódoas a três metros do solo e pessoas por todos os cantos, chego à sala onde se lê PSF - Programa de Saúde da Família. Esta identificação vem logo acima da recomendação "Bata e aguarde". É isto o que faço, sendo magicamente abordado não por quem abre a porta, mas por quem surge atrás de mim. Ela tem jaleco branco. Ela me pergunta o que preciso. Eu respondo que preciso fazer o Cartão de Agendamento no PSF. Ela me diz que devo me dirigir a uma porta alguns metros adiante, é lá que devo ir. Eu aponto, perguntando "Lá?", ela diz "Aham". É um outro PSF. Desisto de entender, vou lá.

O Posto de Saúde Modelo tem portas com as mesmas inscrições porque é sempre bom se perder para se encontrar.

E lá, no outro PSF, uma baixinha com cabelos da cor do feno parece muito interessada em resolver meu problema. Solicita o meu Comprovante de Residência. E olha para ele com interesse. Ela se concentra em sua numeração e se certifica, graças a uma tabela que me convida a também contemplar, que não é ali que devo fazer meu Cartão de Agendamento. Não é mesmo. Não é, e ela já falou "para as gurias lá de baixo". Entendo que se refere às gurias do guichê de agendamento, onde não está escrito Guichê de Agendamento. Embora eu não tenha sido atendido por uma guria, sei que é lá o lugar ao qual ela se refere. E lá é o lugar ao qual ela me pede que eu volte. Antes disto, põe um papelote em minha mão. Ali, ela anotou a lista de números residenciais que são de atribuição das "gurias" do guichê de agendamento, onde não está escrito Guichê de Agendamento.

É a prova de que devo (e, porque não, mereço?) ter meu Cartão de Agendamento feito no guichê de agendamento, um lugar onde não se deram o trabalho de escrever Guichê de Agendamento.

A planta baixa do prédio é em forma de O, com um grande pátio no meio onde pessoas esperam. Fechando a letra O estou, novamente, onde tudo começou.

Retiro minha ficha de papel e sento, aguardando. 

O Posto de Saúde Modelo é feito de cadeiras estofadas que o peso de quem exerce a arte da espera conseguiu afundar.

A três metros do chão, a nódoa me observa. Ininterruptamente.

01 janeiro 2013

Entertainment

Divertimento, um conto meu que, originalmente tinha sido publicado somente na Musa Rara, agora ganhou tradução em inglês pela equipe da Rafa Lombardino. Entrou no ar hoje, no Contemporany Brazilian Short Stories (CBSS), projeto muito bacana criado com o objetivo de promover autores de língua portuguesa entre leitores de inglês.

Além do trabalho no site, o CBSS organiza antologias anuais com os autores traduzidos, e meu Entertainment deve fazer parte do número dois da antologia, que será lançado no fim de 2013. 

14 dezembro 2012

Sinapses

Cervejas, literatura. Cervejas, cinema. Cervejas, música. 


É tendo em vista estas possíveis relações que passei a assinar, desde novembro, a coluna Sinapses, na HNB Mag. A revista, um quitute oferecido aos assinantes do sensacional clube de cervejas Have a Nice Beer, vem dentro do mesmo pacote que envolve dois rótulos internacionais (duas garrafas de cada), frequentemente de cervejas nunca dantes aqui degustadas, todo santo mês.

A edição de novembro da HNB Mag já está online e pode ser lida na faixa. Nesta edição, um apanhadinho dos livros lançados em 2012 que você não pode deixar de ler.

28 outubro 2012

Novidades

Em um ano em que achei que ficaria dedicado somente ao trabalho com o romance, surgiram alguns convites para coletâneas que me fizeram retornar ao conto. Até o fim do ano, dois contos inéditos, em duas coletâneas:

Em novembro, durante a Balada Literária, em São Paulo, a Editora Terracota lança a coletânea Assim você me mata, na qual, junto com João Anzanello Carrascoza, André de Leones, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Xico Sá, entre outros, estarei presente com o conto inédito Hotel São Jorge.

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Em dezembro, no Rio de Janeiro, a Editora Oito e Meio lança a coletânea É Assim que o Mundo Acaba,  com o conto Depois do que aconteceu.


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(Update: 30/11/2012)
CORREÇÕES & COMPLEMENTAÇÕES:

O lançamento de Assim você me mata é no dia 02.12.2012, às 14h, no Centro Cultura B_arco (Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, 426 - Pinheiros, SP), durante a Balada Literária.

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O lançamento de  É Assim que o Mundo Acaba é no dia 17.12.2012, às 19h, no Centro Cultural Oito e Meio (Travessa dos Tamoios, 32, Loja C, Flamengo, RJ).