28 agosto 2014

Viajar para encontrar



A busca da própria identidade através de uma viagem (a ideia, talvez romântica, de buscar o seu "outro", presente no lugar visitado), é território temático bastante explorado. Já presenciamos esta busca na literatura e no cinema. Mas no momento em que compreender a si mesmo implica em descobrir sobre outra figura que se julgava conhecer — ou se deveria —, esta busca ganha contornos que podem ser ainda mais surpreendentes do que achar a si mesmo. 


É usando a viagem como o elemento propulsor de reconstrução de identidade que se constrói a trama de As Mulheres de Meu Pai. Neste romance de 2007 do angolano José Eduardo Agualusa, a identidade buscada pelo protagonista não é a sua, mas a de seu pai. É este homem que, para a protagonista — a cineasta moçambicana Laurentina — é só um pacato burocrata lusitano, que estabelece a necessidade de imersão nesta viagem, na qual ela irá descobrir sua real identidade: a de um músico não só famoso pelo seu talento, mas pelas sete viúvas e dezoito filhos que deixou após sua morte. Desvendar as camadas que este novo "personagem" lhe apresenta, já se mostra tarefa estranha ao ler os anúncios obituários que seus filhos e viúvas lhe renderam no Jornal de Angola:


"'Pecado é não amar. Pecado maior é não amar até o fim do amor. Não me arrependo de nada, Tino, meu seripipi. Repousa em paz.'
No último anúncio, o meu pai posa para a posteridade, no vigor dos seus trinta anos, sentado à mesa de um bar. Diante dele tem uma garrafa de cerveja. Distingue-se o rótulo: Cuca. Enquanto escrevo estas notas também eu bebo uma Cuca. É boa, muito leve e fresca. Releio o texto: 
'Pai querido, abraça a mãe quando a encontrares. Leopoldina esperou tanto por esse abraço. Diz-lhe que os filhos dela, os vossos filhos, sofrem de saudades, (...)'".


Ao buscar este homem, diferente do que conheceu, Laurentina empreende uma viagem pelos países que Faustino Manso, o pai, percorreu: Angola, Namíbia, África do Sul e Moçambique. No projeto de reconstrução da identidade de Faustino, ela conversa com as mais diversas pessoas, desvendando uma teia que, ao mesmo tempo em que remonta a trajetória de seu pai, constrói um corolário de sentimentos, música, gastronomia, raízes, memória histórica — uma dimensão realista e generosa, potencializada pelo mosaico de vozes que compõem o livro. O romance, construído como uma espécie de diário, apresenta diversos personagens dando sua visão dos acontecimentos. Além disso, Agualusa apresenta dois níveis de narrativas interligados: um em que transita Laurentina, enquanto em outro se projeta o próprio autor, em uma viagem para fins de construção de um documentário, a partir do qual a ficção de um músico excepcional e de sua filha perdida – Laurentina – seria criada. É a metalinguística do processo de invenção literária nesta bela obra do premiado escritor. 


Nesta teia desvendada pela protagonista, quando o autor demarca os territórios a partir de sua construção cultural, aparece a famosa cerveja Cuca. A mais conhecida cerveja de Angola nasceu em 1947, e seu nome significa Companhia União Cervejas de Angola. A cerveja, que, em 1976 foi confiscada pelo Governo e nacionalizada, pertence desde 1992 ao grupo francês Castel Cuca BGI, que tem uma forte implantação na África e é proprietária de outras importantes marcas, como a histórica cerveja luandense Nocal (cujas origens remontam a 1958 e é, hoje, a segunda grande marca do grupo), as internacionais Eca, 33 Export, a Castel e a Doppe Munich. 


Seja em termos de notoriedade ou de vendas, a Cuca é a preferida dos angolanos, com seus mais de 48% do mercado. Esta pale lager é conhecida por seu sabor frutado e adocicado, com um amargor suave que só viceja no final. Cerveja de fabricação e distribuição maciça (o grupo também detém a marca Skol para Angola), obviamente a Cuca não se distingue como premium, com sua estratégia de expansão agressiva, com entrada recente em mercados como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Namíbia e Portugal. O certo é que, ao crescer e espalhar-se por outros territórios, a Cuca — assim como Laurentina e Faustino Manso — reconstroi um pouco de sua identidade a partir dos diversos territórios que passa a habitar. Mas (e aí está o segredo de toda marca de valor), não perde suas raízes, valorizando e difundindo seu local de nascimento, pois ali mora seu verdadeiro "eu". Uma estratégia que, não por acaso, fez-se questão de estampar em suas orgulhosas peças publicitárias: "Patrimônio de Angola."

20 junho 2014

Lobo em pele de ovelha negra?

Em janeiro de 20014, a nova revista da Have a Nice Beer estreou. E para o primeiro número da Last Call! for Beer, fui convidado a entrevistar Lobão. Segue abaixo a entrevista, na íntegra.



IMAGINÁRIO COLETIVO. SENSO COMUM. Pense aí o que lhe vem à cabeça — e o que você acha que surge na cabeça da maioria — quando se citam nomes como Silvio Santos, Elis Regina, Cazuza, Mussum, Chacrinha. Personalidades nacionais repletas de adjetivos a gravitar em torno de suas imagens. Mas e quando o nome citado é o de Lobão? E, temos de concordar, um nome que tem sido muito citado já há um bom tempo. Em determinado momento de seu mais recente livro, Manifesto do Nada na Terra do Nunca (Editora Nova Fronteira, 2013, 247 páginas), ele poupa o leitor deste exercício e assume — e é bom que fique claro, para desenvolver sua tese, livre da clássica indagação Afinal de contas, quem é você? — as corriqueiras qualificações que lhe foram impugnadas ao longo de todos estes anos: drogado, desimportante, mal social, criatura de péssima personalidade, arrogante, reacionário, boquirroto, vendido, debochado, pró-ditadura, pró-tortura, invejoso, marqueteiro, incestuoso, epiléptico, matricida, medíocre, e por aí vai. Auto-indulgência? O certo é que adotar todos estes estigmas, ainda que de forma irônica, no mínimo depõem contra o Nada que ele encarna como a metralhadora giratória (outro de seus adjetivos) e autor deste Manifesto. Afinal, gerar tantas imagens na mente de tantas pessoas, há tanto tempo, quando seu nome é citado, não pode ser obra de um nada. Pelo contrário, a fartura é tanta que fica a livre escolha: Lobão apresentador da MTV, Lobão repórter do programa A Liga, Lobão criador da revista Outracoisa, Lobão escritor, Lobão colunista da Veja, Lobão músico? 

Aos 57 anos, João Luiz Woerdenbag Filho não passa incólume à citação do nome com o qual surgiu no cenário nacional, como então baterista da Vímana, banda que reuniu, entre outros, Lulu Santos e Ritchie. À cada aparição, citação, lançamento, um petardo. Para alguns, marketing. Estratégias orquestradas para se manter eternamente na pele de “ovelha negra”. Mas será Lobão realmente uma ovelha negra? Não seria mais um dos rótulos fáceis aplicados a este que foi um dos fundadores da Blitz, hoje uma das poucas personalidades capazes de emitir suas opiniões de forma clara, corajosa e contundente? Um sujeito que não se nega ao debate quando chamado a ele. E de opiniões tão múltiplas quanto suas habilidades de músico. Antes mesmo do lançamento de seu livro, já pipocavam pela imprensa excertos da obra que, descontextualizados, mexeram com os brios de Caetano Veloso a Chico Buarque, de Paula Lavigne a Mano Brown. O que é curioso, ou ardiloso, pois estes excertos cumpriram exatamente a sina que a orelha do livro já prenunciava: “É certo que muita gente vai criticar este livro só de orelhada, a partir de frases tiradas do contexto e de uma visão estereotipada de seu autor.” Mas quem realmente se dá ao trabalho da leitura vê que o bicho não é tão feio quanto se pinta. Ao contrário de “alvos”, como os nomes acima foram constantemente citados, percebe-se que eles somente existem dentro de contextos de argumentos claros. Com o objetivo de “desmascarar os vícios da formação cultural brasileira”, Lobão vai da análise da MPB, desde seus mais imberbes anos, passando pela indústria musical brasileira, o questionamento da Comissão da Verdade, criado pela presidenta Dilma Rousseff, sua desilusão com o PT, até episódios muito pessoais, como o de sua recusa em tocar no Lollapalooza e sua saída do programa A Liga

Você só tem duas e óbvias possibilidades, de concordar ou não com o autor. Eu mesmo discordo de alguns de seus argumentos, como sua posição contrária à política de cotas para negros na cultura e para minorias nas universidades. Mas isto não me impediu de encarar o livro como ele é: pensamentos de um sujeito que, por ser portador de opiniões dissonantes do senso comum é impugnado com os rótulos — senso comum — de polêmico e ovelha negra

Goste ou não dele, Lobão é uma presença fundamental em um cenário que — à revelia da hiperinformação e da conectividade, com as ferramentas a favor da possibilidade de opiniões múltiplas —, dia após dia, parece um celeiro de repetição, likes e shares. Nada mais natural que a Last Call for Beer, em seu primeiro número, entreviste este artista para levar aos leitores o mesmo que a HNB espera toda vez que leva uma cerveja diferente às suas casas: diversidade de opiniões. 

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Lobão: o que é a música brasileira hoje?
Sinceramente, não acredito que haja qualquer possibilidade honesta de alguém, nos dias de hoje, traçar um perfil preciso sobre o que seria a música brasileira.


Hoje o Lobão escritor, articulador (até recentemente, apresentador) e, agora, colunista de Veja, está mais em evidência do que o Lobão músico. Você está feliz com este atual momento da sua carreira ou às vezes sente falta de ser somente o Lobão músico? 
Em primeiro lugar, eu não percebo a minha realidade dessa maneira. Se formos levar em consideração toda a minha trajetória rumo à criação de uma cena independente no Brasil, a numeração de CDs, a revista OutraCoisa [lançada em 2003, sempre com um CD encartado, e que revelou importantes bandas e artistas, como Cachorro Grande, BNegão & Os Seletores de Frequência, Mombojó, Vanguart, entre outros. A revista durou até 2008], o Universo Paralelo [2001: Uma Odisséia no Universo Paralelo, disco independente lançado por Lobão em 2001], vamos verificar que eu nunca tive um público tão numeroso e fiel como tenho atualmente. E se formos prestar mais atenção aos fatos, constataremos que ter dois livros como bestsellers em menos de 3 anos, ser convidado para escrever na Veja, ser cooptado para atuar em diversos programas de TV, só me proporcionaram uma quantidade de público cada vez maior nos meus shows. Esse fim de semana [a entrevista foi realizada em 23 de outubro], toquei pra mais de 5 mil pessoas num evento próximo à Belo Horizonte e pelo menos 3 mil delas carregavam consigo o Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Fora os outro tantos que traziam o 50 Anos a Mil [autobiografia de Lobão lançada em 2010, escrita em parceria com Claudio Tognolli]. Minhas atividades são sinergéticas e aglutinatórias. Nada se perde, tudo se multiplica exponencialmente.

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“O BRASIL POSSUI 
UMA “FROUXISE” 
ENDÊMICA E AMARGA.”
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Em 2003, com a revista Outracoisa, você criou um modelo que elevou a visibilidade e reconhecimento da música independente. Ao mesmo tempo, você dizia que era um cara do mainstream, que “estava independente”. Considerando as mudanças na indústria da música, quais são as possibilidades que lhe parecem mais interessantes para um artista hoje?
Nenhuma. O artista novo nunca esteve tão desamparado e tão à mercê das ideologias em voga atualmente. Se você for mainstream, tem que se virar com o sertanejo, o pagode e o axé universitários. Se for mais alternativo, cairá nas garras do Fora do Eixo e irá trabalhar como escravo pra eles, encarnado como a nova MPB neo tropicalista. Simples assim.


Falando em sertanejo universitário, sobre o qual você já manifestou sua aversão (inclusive com o divertido mergulho gonzo, relatado em seu mais recente livro), para você qual é a estrutura que cria fenômenos musicais como este?
Uma péssima educação + capitalismo selvagem + doutrina esquizofrênico/nacionalista do governo.


Apesar de já se fazer rock no Brasil desde os anos 50, como você relembra no quarto capítulo de seu livro, por que o gênero é — usando um termo seu — “evaporado” a cada década?
O Brasil possui uma “frouxisse” endêmica e amarga, uma constrangedora inveja do seu irmão bem sucedido, a América do Norte. A intelectualidade de esquerda morre de inveja da potência cultural americana e deflagra-se a já clássica e histórica inveja do falo americano através de guitarra elétrica. Por isso, nossa pulsão de morte em relação ao roquenrou.

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“ACHO QUE ELE [BERNARDO VILHENA] 
DEVE ESTAR PASSANDO 
POR ALGUMA FASE DIFÍCIL 
E SEU DISCERNIMENTO, MEMÓRIA E CARÁTER 
FICARAM SEVERAMENTE ABALADOS.”
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Em seu livro você escreve sobre um “filtro de qualidade, em busca da genealogia perfeita”, usado como princípio para a construção do status de artista da MPB na década de 70. Este filtro ainda existe? E, se sim, como ele repercute no momento musical atual?
Sim. Ele nunca foi tão forte. Agora temos clones que beiram a demência emulando o Chico, o Caetano, a Bethânia e outros mais. Tudo gira em torno dessa farsa deprimente.


Suas parcerias, assim como declarações de admiração e amizade com Júlio Barroso e Cazuza são notórias. Bernardo Vilhena [poeta e letrista, parceiro de Lobão em várias canções], em recente entrevista ao site Scream&Yell, no entanto, declarou o seguinte: “Ele prega uma amizade com o Cazuza e o Júlio Barroso que ele não teve”. O que você tem a dizer sobre isto?
Bem, isso é muito simples: leia os créditos das minhas parcerias. Elas respondem por si próprias. Nem é necessário me alongar mais nessa sórdida especulação.


Mas na mesma entrevista, Vilhena declara: “O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitar.” Ele afirma ainda que você agiu “de uma forma desonesta” com ele. Por que ele quer que você deixe de cantar as letras dele e a que se refere quando o chama de desonesto?
Em primeiro lugar, ele terá que provar aonde e porquê eu fui desonesto. Caso contrário, estará praticando um ato de calúnia e difamação. Quanto às minhas parcerias com ele, eu as tenho, sim, e são minhas canções. Não recito poemas de Bernardo Vilhena. Canto minhas canções que, eventualmente — num percentual bastante diminuto —, foram feitas em parceria com ele. E, por sinal, na maioria delas, houve correções e intervenções consideráveis de minha parte em suas… letras. Sem contar com as chamadas parcerias de condomínio como canções do tipo: Essa Noite Não, Corações Psicodélicos, Moonlight Paranóia, feitas com a presença de outros parceiros , além dele, como o Júlio Barroso, o Ivo Meirelles e outros mais. Sugiro que ele as selecione suas letras e que tente fazer um recital declamando-as. Com seu poderoso carisma, pode se tornar um sucesso, né? Mesmo na época em que [eu] compunha com o Bernardo, já fazia canções sozinho como Me Chama, Decadence Avec Elegance, Canos Silenciosos. Todas hits nacionais, e com outros parceiros como o Júlio Barroso (Noite e Dia), Tavinho Paes (Rádio Blá, Presidente Mauricinho, Quem Quer Votar, Sob o Sol de Parador). Com o Cazuza (Mal Nenhum, Baby Lonest, Junkie Bacana, Azul e Amarelo). Aí, sou eu que pergunto: algum problema? Acho que ele deve estar passando por alguma fase difícil e seu discernimento, memória e caráter ficaram severamente abalados. Lamento muito. Nutro carinho pelo Bernardo. Ele tem talento.

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“REPARAÇÃO HISTÓRICA JÁ É UM CONCEITO 
DOS MAIS IDIOTAS.
QUEM PENSA ASSIM 
JÁ ESTÁ COMENDO COCÔ.” 
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No Manifesto do Nada na Terra do Nunca, você diz que o rap e o hip-hop “caíram na repetição de clichês ressentidos, emburrados, com uma assustadora ausência de humor”. Estes movimentos/gêneros já foram mais bem humorados?
Pelo que me consta, isso nunca aconteceu. Mas eu sempre torci para que, em algum determinado momento, esse humor redentor eclodisse.


Qual sua opinião sobre novos artistas do gênero, como Emicida e Criolo?
Não sinto muito entusiasmo em ouvir esse tipo de música. Está um tanto aquém da minha benevolência/paciência


Ainda existe ideologia na música brasileira?
Infelizmente, somos vampirizados pela ideologia. Enquanto houver ideologia não vai haver poesia.


E quem são alguns dos artistas da música brasileira que você gosta de ouvir hoje?
Hamilton de Hollanda, Yamandú Costa, Cachorro Grande, Réu & Condenado, Vanguart


Em seu livro você se posiciona contra a política de cotas raciais nas universidades, bem como nos projetos do Ministério da Cultura. Escreve “Será que ninguém enxerga que ao tomar essas medidas não haverá a tal reparação histórica aos negros e índios, pois, na verdade, todos temos sangue negro, índio e europeu.” Haveria, na sua opinião, alguma forma mais bem sucedida de fazer esta “tal reparação histórica”? Aliás, esta reparação é necessária?
Reparação histórica já é um conceito dos mais idiotas. Quem pensa assim já está comendo cocô.


Seu livro provocou críticas de setores de esquerda, de setores ligados ao hip-hop, dos sertanejos universitários, entre outros. Faltou senso de humor aos leitores, como já li em declarações suas, ou falta habilidade em lidar com opiniões contundentes e contrárias?
Haveremos de ressaltar que esses grupos são meus alvos preferidos e, se, por acaso agissem de modo diferente, seria eu maluco. Por um lado, felizmente, eles corresponderam às minhas expectativas. Quem dera estivesse eu errado.


Vivemos na era da hiperinformação, mas, é impressão minha ou está mais difícil hoje se manter um debate intelectual no Brasil?
Não existe debate: existe patrulha e difamação.


Lobão músico, Lobão escritor, Lobão apresentador, Lobão colunista. Em qual destas atividades, a pessoa João Luiz Woerdenbag Filho se sente mais feliz?
Me sinto feliz praticando todas elas, pois eu sou integralmente Eu em todas e todas me representam, com todo meu orgulho e paixão. Como poderia ser diferente?

04 junho 2014

Lá em cima: a montanha de Thomas Mann





Na Alemanha do século XVIII, a intelectualidade ansiava pela criação de uma literatura nacionalista, que pudesse expressar em forma de arte o que chamavam de “espírito alemão”. Esta literatura encontrou sua representação na criação de um tipo de romance protagonizado por um personagem jovem e de origem burguesa, em uma jornada de aperfeiçoamento pessoal e superação dos seus conflitos. Uma literatura, vale ressaltar, que assumia também a função didática de contribuir para a educação e formação do leitor — grande preocupação da época. O livro que inaugurou este estilo foi Os Anos de Aprendizados de Wilhelm Meister, romance de Goethe de 1795. O termo cunhado para defini-lo é obra do filólogo Karl Morgenstern: Bildungsroman. Cento e vinte e nove anos depois, o já consagrado autor de Os Buddenbrooks e Morte em Veneza escreve o romance que não somente iria inserir-se nesta que se tornou uma das maiores tradições literárias, mas que seria considerado um dos livros mais importante da literatura mundial, A Montanha Mágica. 


O ano era 1912 quando Thomas Mann iniciou a escrita deste livro, em um processo que iria perdurar até 1924, interrompido entre 1915 e 1919 pela Primeira Guerra Mundial. Se fosse tomado pela sinopse singela — o jovem Hans Castorp chega a um sanatório para visitar seu primo, durante três semanas, e ali permanece sete anos, até ao início da Primeira Guerra —, seria praticamente impossível fazer crer que se trata de um catatau de 1000 páginas, em seu original, e 840 na edição portuguesa da D. Quixote (e 957 na brasileira, da Nova Fronteira). Mas o prodígio de Mann neste livro é o que o torna o clássico merecido que é. A permanência de Hans Castorp no sanatório, por mostrar sinais de padecer de tuberculose pulmonar, é o mote para Mann nos apresentar um microcosmo do pensamento do pré-guerra da Europa. Os numerosos personagens do livro representam os pensamentos e tendências que predominavam aquele momento, e são aqueles que impulsionam o afastamento cada vez maior de Castorp das noções de tempo, família e carreira, encantado pela “Montanha Mágica” — o sanatório em Davos, o lugar “lá em cima”, no alto dos Alpes Suíços. Política, arte, cultura, filosofia, religião, liberalismo, conservadorismo e hedonismo vão compondo o amadurecimento e a formação do jovem Castorp em um ambiente montanhoso monótono, de neve eterna e repouso infinito. A sala de refeições, onde passam a maior parte do tempo, consumindo as cinco fartas refeições diárias “é um lugar onde não há tempo nem vida”, um espaço febril cuja monotonia precisa ser aplacada, ainda que minimamente:

“A sala estava mergulhada numa cintilação branca, de tanto leite que se via: em cada lugar aguardava um grande copo de leite, de meio livro talvez.

— Não — disse Hans Castorp, quando se voltou a sentar no seu lugar à ponta da mesa, entre a modista e a inglesa, desdobrando resignadamente o seu guardanapo, não obstante sentir-se ainda bastante cheio do primeiro pequeno-almoço. — Não — repetiu — Deus me ajude e me proteja, leite é que não bebo e muito menos a esta hora. Será que não têm porter? — E dirigiu a pergunta à anã, cheio de mesuras e delicadeza.

Infelizmente não havia. Mas a anã comprometeu-se a trazer-lhe cerveja Kulmbacher e cumpriu o prometido. Era uma cerveja preta espessa, de espuma acastanhada, o perfeito substituto da porter. Hans Carp bebeu com avidez um copo alto de meio litro.” 

Em sua dimensão colossal, A Montanha Mágica parece querer criar um compêndio enciclopédico que abarca o caldo científico e cultural que dominava a Europa, como se Mann quisesse que o leitor deixasse o mundo real do lado de fora, já que no livro há tudo o que se precisa. Neste caldo cultural, portanto, natural que surja uma representante da Kulmbacher Brewery Corporation, empresa fundada em 1895 no leste da Baviera. Com um grande portfolio de produtos, a cerveja a que provavelmente Mann se refere em seu livro é a Kulmbacher Eisbock, feita através do congelamento de uma doppelbock e remoção da sua água congelada, concentrando o sabor e quantidade de álcool, que varia entre 9% e 13%. 

As crônicas que relatam sua criação creditam o acaso como mestre cervejeiro: em torno de 1900, um aprendiz esqueceu dois barris de cerveja bock em meio ao frio avassalador — fato que só foi descoberto na primavera seguinte. Cobertos de gelo e neve, os barris tinham explodido, mas por abaixo de uma manta espessa de gelo, o sabor forte — que remete a frutas escuras maduras, especialmente passas e ameixas, caramelo e toffee — e alto teor alcoólico estavam acentuados. Hoje a Eisbock é produzida em um processo moderno de fabricação da cerveja e de congelamento, mas o sabor continua perfeito para a degustação no mais inclemente inverno. Mesmo que seja “lá em cima”, degustada num lugar de tempo específico, que nada tem a ver com o mundo “aqui embaixo”. 

Publicado originalmente na Last Call For Beer!.

14 abril 2014

Orgia pop



Gênios precoces da literatura são praticamente um gênero na indústria editorial americana. Quando não conseguem superar o sucesso do primeiro livro, diz-se que sofrem da Síndrome Françoise Sagan (escritora francesa que nunca superou o sucesso de de Bonjour Tristesse, sua estreia aos 18 anos). As obras deste jovens prodígios surgem normalmente cercada de blurbs comparativos em suas capas, com clássicos estabelecidos sendo utilizados para situar o potencial leitor. Quase sempre, estratégias mercadológicas, do tipo: “Um tocante retrato da juventude como não se via desde ‘O Apanhador no Campo de Centeio’.” . Esta é a frase que você encontra na capa de Doze (Geração Editorial, 232 pgs.), romance de estreia do nova-iorquino Nick McDonell, lançado em 2002. Escrito quando o autor tinha somente 17 anos de idade, o livro, exageros de comparação à parte, merece parte dos incensados elogios da crítica. 


Através de capítulos curtos, diálogos ágeis e bastante ação — ainda que muito naquela típica narrativa norte-americana que se aproxima do comercialismo de um Bret Easton Ellis e de roteiros cinematográficos —, o autor consegue trabalhar, com sensibilidade e alguma elegância de estilo notáveis para um jovem de sua idade, temas bastante utilizados: adolescentes ricos do Upper East Side, área nobre de Nova Iorque, com não mais interesses além de drogas, sexo e festas regadas aos dois primeiros. 


Em dias situados entre o Natal e o Ano Novo, conhecemos White Mike, o protagonista: um traficante de 17 anos que gosta de ler Camus e Nitzche, não usa drogas, não bebe e não fuma, mas que largou a escola para vender drogas. A atividade lhe permite circular com desenvoltura na alta e jovem roda de Manhattan, entre adolescentes ricos com pais ausentes, sempre muito ocupados em viagens ao redor do mundo. O grande trunfo de Mike neste mundo é uma nova droga chamada doze. Suas entregas nas casas dos clientes — cujas vidas são brevemente relatadas em capítulos curtos, não lineares — não deixa seu pager parar de vibrar, em pedidos frequentes de mais drogas. Como num episódio de Gossip Girl, não tardamos a perceber os acontecimentos que entrelaçam os personagens, presentes em festas orgiásticas na qual os empregados fingem não ver nada:


“No sexto andar, um grupo de garotos está em volta de outro que está tocando bateria, montada num quarto de hospédes vazio. O ritmo da bateria é sofrível, em função das oito cervejas que o garoto já tomou. Várias cervejas — Corona Lights, Budweisers — estão espalhadas pelo chão em diferentes partes da casa. Seguindo o corredor pelo quarto onde está a bateria, um aparelho de som está tocando ‘Burn One Down’ de Ben Harper alto o bastante para que os garotos que estão no terraço fumando maconha possam ouvir. No quinto andar estão apenas dois garotos, um loiro e o outro de pele negra e cheia de espinhas, ambos pequenos e desmaiados em grandes sofás de couro, onde os amigos deixaram, entrelaçados e babando um no outro. No quarto andar, mais ou menos uns dez garotos estão sentados em frente a uma TV de tela plana assistindo filmes pornográficos. Um garoto, numa grande poltrona de couro, está com uma menina sentada em seu colo. Ambos olham alegremente para a tela, a mão direita do garoto pousada suavemente na metade esquerda do seio da menina.” 


Em uma trama tão repleta de elementos pop, em um cenário estilizado ao registro da futilidade e transitoriedade, não é difícil entender a presença de uma cerveja como a Corona Light. Constante nas muitas listas das 10 cervejas mais vendidas no mundo — mesmo que esta pilsen sofra da mesma rejeição, pelos inciados, que toda bebida popular ao extremo — é uma versão mais leve da tradicional Corona Extra. Foi lançada primeiro nos Estados Unidos, em 1989, e só em 2007 no México, país de onde é originária. Pertencente à Cervecería Modelo — que lançou a tradicional Corona em 1925, hoje a marca mais valiosa do México —, a Corona Light é normalmente definida como uma cerveja refrescante, frisante, de acidez média e toques persistentes de limão. Uma leveza também presente nos seus 3,7% de teor alcoólico. Assim como sua irmã, ela é comumente atrelada ao hábito de ser consumida com um pedaço de limão no gargalo. Razão que teria surgido pelo fato da garrafa ser transparente, com exposição de luz muito maior, afetando, portanto, o sabor da bebida. O limão seria a estratégia para “melhorar” seu sabor.


Com seus 30% a menos de calorias que a versão original, talvez seja mesmo a escolha ideal para figurar no cenário de festas deste livro, onde as aparências dos esbeltos semi-deuses milionários de Manhattan — mesmo que diluindo-se em cafungadas e quase-overdoses — é algo sempre tão importante a se manter.

Publicado originalmente na HNB Mag.

28 março 2014

Um conto inédito

O ar cheira a ligustros, granitina e excitação pós-púbere.
A tateante aranha de dedos de Madison permite-se ficar tempo muito mais do que necessário exercendo pressão úmida sobre a mão de Ignacio. É como uma luta livre de maciez coroada pelo ir-e-vir do mindinho, elucidando a intenção daquilo o que já não deixa a menor dúvida. Na rua, o frio é congelante e a chuvinha fina é só uma irritação a mais, tamborilando na janela do anfiteatro da universidade. Ela se inclinou para mais perto dele, não perto demais mas, sim, perto demais, e é esta proximidade calculada em milimetrismo que permite o tom baixo, ritmo cadenciado pelo ainda ir-e-vir do mindinho em sua mão, reduzindo a voz ao que é quase-sussurro — “mais uma vez, seu argumento foi perfeito”. Ele ainda consegue externar-se ao que vai além da pequena bolha que lhes envolve — na plateia à meia-luz se vê o brilho dos smartphones refletindo na tez lustrosa dos estudantes que restam, ocupados em redigirem espirituosas máximas de cento e quarenta caracteres enquanto aguardam o carro de alguém que os levará a lugar quente e distante. Retira sua mão com a desenvoltura de quem só vai apoiar a alça da pasta de maneira mais firme no ombro e diz o que todo professor precisa dizer diante do que é óbvio, o que diz toda vez que, ao fim de um de suas palestras, uma aluna se detém a segurar sua mão, alisando o próprio cabelo em quantidade muito superior ao comum, suavidade do toque e da voz muito mais intensa do que o comum. “Fico feliz que você tenha gostado, Madison”, Ignacio diz. O toque dele em seu ombro, quando decide ir em frente, sempre que decide ir em frente, é apropriado, ainda que permaneça tempo muito mais do que necessário. É e sempre interrompido pelo gesto de segurar o cartão com o número de telefone que elas lhe alcançam, antes de subirem a escadaria em direção à porta dupla sobre a qual se lê Saída de Emergência, só um pouco mais apressadas do que o comum.

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Salobro, conto inédito meu, disponível na íntegra para leitura na Flaubert. Clica e vai.

18 março 2014

Michael Chabon: Pittsburgh de wonder boys e da Iron City


Um estudante que sabe a lista de todos os astros de Hollywood que se suicidaram. Um cachorro baleado com uma arma que deveria ser de espoleta. Um casaco curto de cetim preto, com gola de arminho, que pertencera a Marilyn Monroe (e que é roubado de uma festa na casa do chefe de departamento de uma universidade). Um escritor com excesso de criatividade que tem um caso com a esposa do chefe de departamento da universidade. Um livro de um escritor com excesso de criatividade, que já alcança as duas mil, seiscentas e onze páginas datilografadas, e ainda sem previsão de chegar ao final.

Isto está muito longe de ser o resumo de Garotos Incríveis (Record, 2000, 333 páginas). Mas perder algumas horas mesmo somente folheando este, que é o segundo romance na carreira do norte-americano Michael Chabon (que ganharia o Pulitzer pelo seu romance seguinte, As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay), garante exatamente isto: que se ache trechos ao acaso tão completamente inacreditáveis e deliciosamente engraçados, capazes de obliterar mesmo a sinopse oficial. E ela — a sinopse oficial — nos dirá que Gady Tripp, o escritor de meia-idade protagonista deste romance, vive da fama conquistada na juventude, quando seus primeiros livros o consagraram. No período do romance, ele está há mais de sete anos preso no emaranhado de prédios belos e miseráveis para construir, crianças inocentes para matar com febre reunática, ruas às quais dar nome e tantos outros detalhes que fazem de Wonder Boys (o seu romance) aquele mamute inacabável. E é este livro que Tripp tenta esconder de Terry Crabtree, seu editor em visita à cidade, ansioso por colocar as mãos no próximo e esperado novo origial de seu autor prodígio. Não tardará, porém, para Crabtree preferir colocar as mãos no jovem James Leer — aquele estudante fascinado com os suicídios de Hollywood. Junte estes três aos personagens apontados lá em cima, mais Hannah, a estudante apaixonada por Tripp, um travesti pouco convincente e um fim de semana repleto de maconha e você terá uma noção bastante aproximada do que é este romance.

Com uma saga destas, não espanta que já conte com sua adaptação cinematográfica, dirigido por Curtis Hanson e estrelado por Michael Douglas, Tobey Maguire e Robert Downey Jr. Com trilha sonora de Bob Dylan, o filme é tão imperdível quanto o livro, nesta odisséia por ruas, bares e casas de Pittsburgh. E é uma nativa de Pittsburgh, a Iron City Beer, que dá as caras neste exato momento:

“Acenei para Hannah, que sorriu para mim, e quando olhei em volta e dei de ombros exageradamente, ela apontou para uma mesa no canto mais distante, longe dos dançarinos, do palco e de todos os outros clientes. Na mesa estavam sentados Crabtree e James Leer, atrás de um horizonte louco e comprido de garrafas de Iron City. James estava caído na cadeira, a cabeça inclinada contra a parede, olhos fechados. Parecia quase como se estivesse dormindo. Já Crabtree olhava para as pessoas que dançavam, ou para além delas, com uma expressão de concentração feliz. Seu braço estava estendido para baixo e para longe do corpo, num ângulo delicado, como se estivesse para escolher um bombom numa bandeja. Mas a mão estava em evidência, desaparecera sob a mesa, nas vizinhanças do colo de James Leer.”

Nascida em 1861, a Iron City foi a primeira cerveja da Pittsburgh Brewing Company (ou Iron City Brewing Company). Obra de um alemão imigrante chamado Edward Frauenheim, que fez a cerveja tornar-se reconhecida logo nos seus primeiros cinco anos. Mesmo a proibição, em 1920, que fechou muitas destilarias e cervejarias, não foi suficiente para por fim ao sucesso da Iron City. Sua produção foi retomada — ainda que tenha sido fundida à outra cervejaria, a Bond Brewing Holdings Ltda., e também passado por um processo de falência —  e o nome original da fábrica, Iron City Brewing Company, restaurado, produzindo uma série de outros rótulos. Sua maior marca é a garrafa de alumínio, com três vezes mais material que as latas comuns, garantindo uma cerveja gelada por mais tempo, além de ser mais leve que o vidro.

Tão lendária quanto a cidade onde tem origem, a Iron City é reconhecida como uma das melhores cervejas lager fabricadas nos Estados Unidos. É difícil imaginar um jogo de futebol, baseball ou hóquei onde ela não esteja presente. E como boa nativa, é claro que ela também habita o bar jazz Hi-Hat, que com seu Steinway de cauda, bar luminoso com refletores cor-de-rosa — pronta para tornar o fim de semana de Grady Tripp e sua trupe ainda ébrio e caótico.


Publicado originalmente na HNB Mag.

15 março 2014

Flaubert #01

Está no ar o primeiro número da Flaubert, revista de contos da qual sou um dos editores e participo com conto inédito. 

 Flaubert #01


13 fevereiro 2014

Um livro por dia

Sinapses #11: Literatura e levedura





349 anos atrás. Um tempo tão cinerário que, naquele quase inimaginável 1664, a França ainda era um Estado pertencente ao então Sacro Império Romano-Germânico, espécie de joint venture que abarcava grande parte dos territórios de uma Europa Central recém saída das fraldas do feudalismo. E foi na cidade de Strasbourg — em uma Idade “Moderna” de elmos, armaduras e lanças — que nasceu a Kronenbourg Brewery e sua primeira cerveja. Obra do recém-certificado Mestre Cervejeiro Jérôme Hatt, a Kronenbourg 1664, desde sempre simbolizou superioridade e requinte, fatores determinados principalmente pela presença do Strisselspalt em sua composição. Espécie de caviar dos lúpulos, seu baixo amargor e profundas qualidades aromáticas contribuiram para a criação de uma pale lager de gosto frutado persistente e extremamente suave. Características que a tornaram — e mantiveram, desde então — como a cerveja mais popular da França. Presente hoje em mais de 70 países, detentora de uma infinidade de prêmios, sua garrafa verde é um espetáculo de design à parte. Hoje a marca pertence ao Grupo Carlsberg e continua sendo personagem peculiar da França. Motivo pela qual a encontrei em um livro tão repleto de outros elementos francófonos:

“Passava os dias bebendo cerveja forte na frente do parque ao lado da Shakespeare and Company, algumas vezes na companhia de outros homens e sempre com um cão preto descarnado. Era possível avaliar seu estado de espírito a partir da cerveja que bebia. As lojas de Paris vendiam uma seleção padrão de seis tipos de latas de meio litro de cerveja. Havia a Heineken verde para o bebedor abastado; uma Kronenbourg com 4,5% de álcool para bebedores moderados; uma cerveja com 5,9% de álcool chamada 1664, que era a que nós da livraria preferíamos; e então, três níveis de cervejas muito fortes: uma lata vermelha com 8% de álcool, uma lata preta com 10% e uma lata especial verde-escura com 12%. Naquele dia, Richard estava bebendo uma lata vermelha, o que significava que estava com uma disposição razoável para com o mundo.” 



Obra de não-ficção, como tudo, aliás, escrito pelo canadense radicado na França, Jeremy Mercer, a obra Um livro por dia - Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company (Casa da Palavra, 2007, 320 páginas) narra aquela que é a utopia dos bibliófilos e amantes do odor acolhedor que só se encontra em volumes de páginas prensadas em velhas estantes: morar em uma livraria, repousando em meio a caracteres infinitos de Prousts, Fitzgeralds e Machados. Porque foi isto o que fez este autor, fugido no ano 2000 de seu país e indo refugiar-se com malas e quase sem dinheiro na lendária livraria de Paris, a Shakespeare and Company. Definida por seu então proprietário, George Whitmann, como “uma utopia socialista em forma de livraria”, a Shakespeare and Company oferecia mais do que um chá e recomendação de livros a seus frequentadores: era um teto para escritores em decadência criativa ou sem lugar para ficar em Paris. Turistas curiosos, interessados nos mitos franceses também eram bem-vindos para dividir espaço com volumes e mais volumes de livros, sob a sentença (outra de Whitmann): “Não seja um mau anfitrião para os estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados”. Em troca, os hóspedes só precisavam ajudar nas tarefas diárias e cumprir uma inusitada missão: escrever ali uma obra e — sabe-se lá como — ler um livro por dia. 


Com requinte jornalístico, Mercer relata os quatro meses passados na livraria, famosa na primeira metade do século XX, quando ainda era de propriedade de Sylvia Bach, fechada em 1941 e reaberta por Whitmann dez anos depois. Território de viajantes do mundo inteiro, uns tantos atraídos por lendas como a de que Shakespeare teria morado ali e outros interessados na aura de reais ilustres frequentadores do passado, como Henry Miller, Anaïs Nin, Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

No trecho em questão, Mercer lamenta a instabilidade da vida da livraria. Demorando para entender o estilo de pensamento livre de Whitmann, ele sai da Shakespeare and Company enraivecido pelo sumiço de duas camisas suas e acaba envolvido pela postura filosófica de um sem-teto bebedor de cervejas que o para na rua para perguntar “se ele estava bem”.

Escritores em crises com seus livros, poetas alcóolatras e viciados em haxixe, artistas plásticos excêntricos. Todo tipo de gente passa pela vida de Mercer neste período em que ele não leu um livro por dia, como sugere o título brasileiro, mas viveu diferentes histórias diárias que teve a generosidade de dividir. Histórias encravadas numa livraria de tradições seculares. E boas histórias, assim como boas cervejas, nem séculos conseguem fazer desaparecer.

Publicado originalmente na HNB Mag.