23 Março 2012
Divertimento
No intervalo da criação do romance, por vezes volto a me aventurar pelos contos. Tudo o que tenho produzido desde então, são contos muito longos. Algumas pessoas preferem ignorar toda uma tradição inglesa e argentina de contos com mais de dezoito mil caracteres e insistem em classificá-los como novelas. Sigo contrário a tal nomenclatura.
Pois então: um conto inédito, desta nova safra, foi publicado no Musa Rara. Confesso que hesitei em publicá-lo online, dado esta nossa tendência em crer que leituras nesta mídia devem ser curtas (ah, o imediatismo da tolerância dos vídeos de até três minutos e das leituras de 140 caracteres).
Edson Cruz, poeta e editor da Musa Rara, é da opinião que é preciso mudar essa visão da internet e cá está o conto, então: Divertimento.
08 Março 2012
Leitura em curso
Então: A visita cruel do tempo.
Foi a tamanha a curiosidade, que voltei a meu hábito nada aconselhável de intercalar livros. Por um lado, isto me parece a solução perfeita para dar conta de uma quantidade de volumes que, cada vez mais, me assolará, ali da estante, até o fim dos meus dias. E isto descontando os que estão anotados como "comprar".
Por outro, o risco de confundir tramas e personagens, e mais, ser influenciado em demasia quando eu mesmo — no momento — estou no processo de criar tramas e personagens, é bastante alto.
Descontada toda esta afetação, é Ruído Branco (Don DeLillo) durante o dia e A visita... durante a noite.
Sergio Rodrigues escreveu sobre um certo travo gincaneiro. Reconheço. E é fato que, em alguns momentos incomoda. Umas soluções do tipo antecipar o futuro de personagens breves. Depois falo mais sobre isto.
Há algo que me incomoda, mas que respeito, que é a necessidade de mostrar todo seu virtuosismo. Em narrativas que alternam entre terceira, primeira e até segunda pessoa, por exemplo. Incomoda quando soa como exibicionismo gratuito — ou seja, a autora não conseguiu fazer mais do que me mostrar as estruturas da sua construção. Respeito pela ânsia em sair da zona de preguiça e tentar mais. E, nestes tempos de literatura formatada em oficina de escrita criativa, que parece assolar grande parte da literatura em língua inglesa, para mim ganha muitos pontos.
Enfim. O nome do post é "leitura em curso", então tem muita água para rolar e depois escrevo um post mais decente e menos inconsequente.
25 Janeiro 2012
Policial pop brazuca
2 Coelhos é exagerado, deslumbrado, videoclíptico, americanizado e isto não é necessariamente ruim. Desde o trailer, eu já esperava pelo que o filme me entregou. Não, sejamos francos: mesmo incluído todos os "defeitos" possíveis que tentarei relacionar, ele me surpreendeu positivamente.
Primeiro, pela honestidade. É um policial brasileiro sem medo de usar das regras do gênero. O diretor e roteirista Afonso Poyart nunca escondeu (e nem poderia) que bebeu e recheou seu filme de todas as fontes facilmente identificáveis: Tarantino, Guy Ritchie (muito Guy Ritchie), Michel Mann e Zach Snyder estão todos lá. E, dado tudo isto, é muito fácil não gostar do filme. É certo que o primeiro ato contribui muito para isto: o diretor recheou as cenas iniciais com uma quantidade tamanha de grafismos, sobreposições de letterings, tremores de câmera, edição frenética que é preciso uma certa fé para seguir adiante. Mas vamos lá, de coração aberto, disposto a ser cúmplice de uma produção brasileira que quis trazer algo de novo, usando de malandragem (era mais barato fazer uma porrada de cenas com 3D e quetais do que filmar em live action certas passagens, por exemplo, como disse o diretor em entrevista; ilustrações também serviram algumas vezes para explicar subtramas com um certo didatismo, mas com muita graça) para ousar sem medo de parecer pastiche. Parece pastiche? Às vezes sim, mas com qualidade. E isto é impressionante - mesmo que contraditório. Pois, diferente de vergonhas-alheias como Assalto ao Banco Central, só para ficarmos em um só exemplo, 2 Coelhos consegue ser bem sucedido uma bela quantidade de vezes.
O fato de não ter se esquecido do roteiro em detrimento da punheta visual merece ser muito festejado. Não-linear, repleto de ganchos que o obrigam a ir e vir para explicar o que parecem ser arestas soltas, constrói uma história espertíssima, ainda que com um excesso de maneirismos que, às vezes, pesa a mão. Tem ótima atuação de Fernando Alves Pinto, como o protagonista Edgar, além da sempre delícia Alessandra Negrini (Julia), Caco Ciocler (Walter), Marat Descartes (Maicon) e todos os asseclas marginais com seus diálogos engraçados à la Tarantino. Todos devidamente envolvidos em cenas de tiroteio em câmera lenta, perseguição automobilística, trilha com Radiohead e uma batelada de referências pop desavergonhadas, incluindo aí uma espada ninja. Tudo o que se convencionou chamar pós-moderno vem entregue de bandeja. Mas é claro que numa embalagem que abrasileira de maneira coerente a coisa: corrupção política e marginais pés-de-chinelo incluídos. Há que se elogiar ainda uma cena de sexo repleta de efeitos, coreografada e captada com uma estética primorosa. Um verdadeiro presente para os olhos para quem, como eu, se atreveu a arriscar uma sessão de Bruna Surfistinha esperando algo mais que um revival da pornochanchada setentista.
De vez em quando é preciso que alguém se proponha a virar o jogo. Não que 2 Coelhos seja um divisor de águas. Mas sua existência mostra que fugir à uma certa preguiça que parece imperar neste terreno de filmes nacionais pop - onde um humor tosco ou tramas novelescas que, por enquanto, estão ditando as regras do jogo - é possível.
24 Janeiro 2012
Fragmentos (#2)
Já estávamos a meio caminho de casa quando o choro parou. Parou de repente, sem qualquer mudança no tom e na intensidade. Bebette não disse nada; eu não despreguei os olhos da pista. Wilder estava sentado entre nós, olhando para o rádio. Eu esperava que Bebette trocasse um olhar comigo por detrás do menino, por cima de sua cabeça, para manifestar alívio, felicidade, expectativa esperançosa. Eu não sabia como estava me sentindo, e queria uma pista. Porém ela olhava fixamente para a frente, como se temesse que qualquer alteração na delicada textura de sons, movimentos e expressões pudesse ter o efeito de fazer com que a choradeira recomeçasse.
Quando chegamos em casa, ninguém disse nada. Todos andavam silenciosamente, com olhares disfarçados de um cômoda a outro, observando o menino a distância, com olhares disfarçados e respeitosos. Quando ele pediu leite, Denise correu silenciosamente até a cozinha, descalça, de pijama, percebendo que a economia de movimentos e a leveza de passos evitariam quebrar a atmosfera grave e dramática que o menino impusera à casa. Ele bebeu o leite com um único gole poderoso, ainda vestido, a luva presa na manga da camisa.
Todos o observavam com uma espécie de temor respeitoso. Quase sete horas chorando a sério, sem parar. Era como se ele tivesse acabado de chegar de uma peregrinação a um lugar remoto e sagrado, um deserto vazio ou uma cordilheira coberta de neve
— um lugar onde dizem-se palavras, vêem-se coisas, atingem-se certas distâncias que nós, em nosso cotidiano prosaico, temos que encarar com a mistura de reverência e deslumbramento que reservamos para as dimensões mais sublimes e mais difíceis.
(Don DeLillo, "Ruído Branco". Companhia das Letras, 1987. Pg. 81)
12 Dezembro 2011
Prêmio Fundação Biblioteca Nacional
A sordidez das pequenas coisas levou segundo lugar no Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, na categoria Contos (Prêmio Clarice Lispector).
17 Novembro 2011
A literatura corrosiva de Chuck Palahniuk
[Empolgado pela leitura de Mais estranho que a ficção (Rocco, 2011), do qual já publiquei um excerto no post abaixo, revivo aqui um artigo sobre o autor que escrevi em 2006 (Deus meu!), publicado anteriormente no Duplipensar, Portal Literal, entre outros não-lugares da web]
Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk necessária e primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de "Clube da Luta". Seu primeiro livro, que foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher, (reunindo os astros Brad Pitt e Eduardo Norton), se transformou em uma obra de culto de tamanhas proporções que várias das idéias do autor contidas no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais a serem seguidos. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no cinema durante uma sessão do filme e atirou contra várias pessoas e, segundo ele, motivado pelos ideais do filme. Uma rápida "googleada" e se percebe que, mais do que debater os valores literários da obra, existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência nos "mandamentos" de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler Durden, o personagem anti-capitalista que no cinema foi representado por Brad Pitt.
Certo é que não se pode reduzir esta obra de Palahniuk, tão somente, a um livro de idéias violentas. Não obstante sua trama - Jack, um investigador em uma companhia de seguros que, não agüentando mais sua rotina comezinha sem significados e emoções e conhecendo Tyler, um maluco que gosta de resolver tudo na base da porrada, fundam o tal Clube da Luta, um local onde homens brigam entre si para extravasar toda a fúria que suas vidas rotineiras lhes causam. Mas a coisa começa a sair do controle, e o que era pra ser apenas uma seção de "psicanálise dolorida" passa a se transformar numa organização terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo – existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder e ostentação. "Clube da Luta" é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente.
Chuck Palahniuk teve, assim como as tramas de seus livros, uma vida insólita. Jornalista de profissão, Palahniuk já foi artista de rap, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. O acusado está no corredor da morte. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. O autor adora conversar sobre sua quase obsessão em fazer humor com episódios trágicos, sobre as referências anticonsumo presentes em suas histórias, sobre sua escrita enxuta e direta, e suas narrativas repletas de escatologia. Um exemplo notório disto é um conto do autor chamado "Guts"(vísceras), presente no livro "Haunted", de 2005 e que foi publicado em março de 2004 na revista Playboy americana. No conto, com sua peculiar descrição direta e irônica, o autor narra episódios – verídicos, segundo ele – de obsessão masturbatória de três adolescentes dispostos a ir cada vez mais fundo para ampliar o seu espectro de prazer nesta prática. De inserção de cenouras no ânus até filetes de cera endurecida no orifício peniano, as taras realmente caminham para o extremo, passando por masturbação com asfixia e culminando para o jovem que se masturba dentro da piscina, sentado sobre o duto de sucção a lhe aspirar o ânus. Sem calcular o potencial de que é capaz tal duto, ficamos finalmente sabendo o porquê do "guts" do título. Em 2003, durante sua turnê para promover o romance "Diary", o autor leu o conto para diversas platéias nos Estados Unidos. Mais de 75 desmaiaram ao ouvir a leitura. Confesso que quando o li não cheguei a tanto, mas é totalmente compreensível o motivo de tal fato. Quem quiser tirar a prova, pode conferir a tradução do conto Guts.
Depois de "Clube da Luta", que é de 1996, o autor lançou "Survivor", em 1999, que aqui no Brasil recebeu o nome de "Sobrevivente", lançado pela editora Nova Alexandria. "Sobrevivente" compartilha com "Clube da Luta" o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa, começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas apenas para serem "funcionários perfeitos". O personagem conta em prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade para trabalhar em casas de família - nas horas vagas aliciando moças e dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado. O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o indivíduo pode ser moldado - seja pela igreja através da culpa e êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios; pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo protagonista seqüestra um avião.
Em "Invisible Monsters", de 1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas. Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado "doentio" em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor depois que Palahniuk estreou na literatura com "Clube da Luta".
2001 é o ano de "Choke", publicado pela Rocco no Brasil como "No Sufoco", onde um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro.
O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra, entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora. Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela Humanidade.
Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem.
Quando em 2002, o autor lançou "Lullaby, a novel" (aqui no Brasil lançado pela editora Rocco com o nome "Cantiga de Ninar"), Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em "Cantiga de Ninar" Carl Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de realizar uma série de artigos sobre o que chamam de "Síndrome da Morte Infantil Súbita". Durante a investigação ele descobre uma ligação sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças, de antologia "Pomas e rimas ao redor do mundo", aberto na página 27 onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo. Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra, namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a raça humana.
O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros "musicômanos", que se entretém com modelos prontos e alienantes de diversão ("Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo. Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.").
Em "Cantiga de Ninar" o autor diminui um tanto, por exemplo, sua descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita.
Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado. Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o bastante tal qual os que se motivam por "ideais" como os propagados em "Clube da Luta" e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento – pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento (como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs espalhados pelo mundo.
Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que necessário saber até que nível esta "fobia consumista" do autor não encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal, não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela mais nova "modernidade literária"), também gera seus subprodutos e dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos adiantado de produção: "Sufoco", "Survivor", "Diary", "Invisible Monsters" e "Lullaby". Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.
27 Outubro 2011
Palahniuk e a explosão de contar histórias
Pela primeira vez na história, cinco fatores se alinharam para promover essa explosão de contar histórias. Sem ordem nenhuma, os fatores são:
Tempo livre.
Tecnologia.
Material.
Educação.
E aversão.
O primeiro parece bem simples. Mais gente tem mais tempo livre. As pessoas estão se aposentando e vivendo mais. Nosso padrão de vida e segurança social permitem que as pessoas trabalhem menos horas. Além disso, mais gente reconhece o valor de quem sabe contar histórias... mas estritamente como material de livro de de filme... Mais gente considera escrever, ler e pesquisar algo mais que apenas uma recreação elitista. Escrever não é só um pequeno hobby agradável. Está se tornando um empreendimento financeiro de boa-fé, que vale seu tempo e sua energia. Dizer a alguém que você escreve logo suscita a pergunta? "O que você já publicou?" Nossa expectativa é: escrever é igual a dinheiro. Ou escrever bem deveria. Mesmo assim, seria praticamente impossível conseguir expor sua obra, se não fosse o segundo fator.
Tecnologia. Com um pequeno investimento, você pode ser publicado na internet, acessível a milhões de pessoas no mundo inteiro. Impressoras e pequenas gráficas podem oferecer qualquer quantidade de livros de capa dura, sob encomenda, a qualquer um que tenha dinheiro para pagar a própria publicação. Ou publicar com subsídios. Ou publicar por vaidade. Seja lá como você queira chamar. Qualquer um que saiba usar uma copiadora e um grampeador pode publicar um livro. Nunca foi tão fácil. Nunca, na história, tantos livros foram lançados no mercado a cada ano. Todos eles cheios do terceiro fator.
Material. Com mais gente envelhecendo, com a experiência de uma vida inteira para lembrar, mais eles se preocupam em perder tudo isso. Todas aquelas lembranças. Suas melhores fórmulas, histórias, técnicas para fazer os comensais em uma mesa explodirem em gargalhadas. Seu legado. Suas vidas. Com um simples toque do mal de Alzheimer, tudo isso poderia desaparecer. Além do mais, todas as nossas melhores aventuras parecem estar sempre lá atrás. Então, é gostoso revivê-las, compartilhá-las no papel. Organizar e fazer com que todos aqueles destroços tenham sentido. Embalar com muito capricho e botar um belo laço de fita em cima. O primeiro volume da caixa com três volumes que será sua vida. A fita com os "melhores momentos" da Liga Nacional de Futebol da sua vida. Tudo num lugar só, seus motivos para fazer o que fez. Sua explicação do porquê, caso alguém queira saber. E graças a Deus que existe o fator número quatro.
Educação. Porque, pelo menos, todos nós sabemos usar um teclado. Sabemos onde pôr as vírgulas... mais ou menos. Bastante bem. Temos revisão ortográfica automática. Não temos medo de sentar e experimentar esse negócio de escrever um livro. Stephen King faz tudo parecer tão fácil. Todos aqueles livros. E Irvine Welsh, ele faz parecer divertido, o último recanto onde você pode consumir drogas, cometer crimes e não ir preso, nem ficar gordo ou adoecer. Além de tudo, lemos livros a nossa vida inteira. Assistimos a milhões de filmes. Na verdade, isso é parte de nossa motivação, o quinto fator.
Aversão. Com exceção de talvez uns seis filmes na videolocadora, o resto é porcaria. E com a maior parte dos livros acontece a mesma coisa. Lixo. Podíamos fazer melhor. conhecemos todos os enredos básicos. Já foi tudo desvendado por Joseph Campbell. Por John Gardener. Por E. B. White. Em vez de desperdiçar tempo e dinheiro em mais um livro ou filme porcaria, que tal fazer o serviço direito? Ora, por que não?
E aí, com licença, mas seus sete minutos terminaram*. Tudo bem, tudo bem, então pode ser que estejamos enveredando por um caminho que leva a vidas insensatas e egocêntricas, em que cada acontecimento é reduzido a palavras e a ângulos de câmera. Cada momento é imaginado através das lentes de uma câmera de cinema. Todas as falas engraçadas ou tristes rabiscadas e postas à venda na primeira oportunidade.
Um mundo que Sócrates não podia imaginar, em que as pessoas examinariam suas vidas, mas só em termos de potencial para cinema e brochuras. Em que uma história não surge mais como resultado de uma experiência. Agora a experiência acontece para gerar uma história. Mais ou menos como quando você sugere: "Vamos apenas dizer que fizemos." A história — o produto que você pode vender — se torna mais importante que o acontecimento propriamente dito.
Um dos perigos é que podemos passar correndo pela vida, encarando acontecimentos após acontecimento para montar nossa lista de experiências. Nosso acervo de histórias. E nossa sede de histórias é capaz de reduzir nossa consciência da experiência real. Assim como apagamos depois de assistir a muitos filmes de ação e aventura. A química do nosso corpo não tolera mais tanto estímulo. Ou nos defendemos inconscientemente, fingindo não estar presentes, agindo como uma "testemunha" isenta ou um repórter da nossa própria vida. E fazendo isso, jamais sentimos uma emoção ou participamos de fato. Estamos sempre avaliando quanto a história vai valer em moeda fria.
Outro perigo é que essa correria pelos acontecimentos pode nos dar uma falsa ideia da nossa capacidade. Se os acontecimentos ocorrem como um desafio, para nos testar, e os vivenciamos apenas como uma história a ser registrada e vendida, então será que vivemos? Será que amadurecemos? Ou será que vamos morrer nos sentindo vagamente enrolados e enganados por nossa vocação de contadores de histórias?
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Este é um trecho de "Você está aqui", ensaio presente na coletânea de textos de não-ficção Mais estranho que a ficção (Rocco, 2011), do autor de Clube da Luta, Monstros Invisíveis, Cantiga de Ninar, entre outros, Chuck Palahniuk. Neste texto, ele parte de sua experiência na Conferência de Escritores do Meio-Oeste, evento que reúne, além de aulas de escrita, palestras sobre técnica e marketing e, por uma quantia que varia entre vinte e cinquenta dólares, a possibilidade de defender sua ideia de livro ou roteiro para um agente, durante *sete minutos. A coisa acontece em um cúbiculo com espaço suficiente para a mesa e duas cadeiras e uma multidão aguarda por sua vez.
Tal qual uma série de outros textos da coletânea, aqui também Palahniuk desfila as entranhas de universos inusitados. Seu gosto por culturas peculiares vai ao encontro dos temas de seus livros. Não é por acaso que lutas clandestinas, travestis e prostitutas e um universo de sexo sórdido permeia seus escritos.
Palahniuk criou métodos de pesquisa, passeando por lugares onde pudesse explorar a fundo estes assuntos. Desde festivais de sexo a derbys de destruição de tratores, passando por ligações a telessexo a procura da "história mais depravada" que pudesse ouvir. O autor demonstra um encanto natural por este universo. Neste texto não é diferente, uma vez que sempre norteia seu olhar desencantado para o que pode haver de mais decadente no universo da escrita, revelando salões de festas de hotéis decrépitos, com suas conferências de escrita caça-níqueis, repletas de velhos agarrados a manuscritos sebosos, bradando "Aqui! Leia minha história de incesto!".
Há humor negro ao mesmo tempo que um olhar solidário em muitas da histórias. Aqui, ele identifica a multidão de escritores querendo ter seus originais avaliados como "o fedor da catarse. Do melodrama e das memórias." Um amigo seu escritor se refere àquela "escola" como a literatura de "o sol brilha, os pássaros cantam e meu pai está montado em mim de novo". Cada um daqueles escritores, para ele, carregam suas histórias como os frequentadores de antiquários, oferecendo-se para ver o quanto sua "cicatriz de um incêndia na casa" é avaliada pelo mercado.
Muito distante do cenário brasileiro, é claro, é interessante ver nesta história os bastidores de um mercado sempre à procura de mais e mais material, afim de capitalizar constantemente sobre a geração de conteúdo. Cada um daqueles pretensos escritores está ali porque enxerga uma possibilidade de faturar em cima de sua história, tê-la adaptada para o cinema, transformá-la em algo que se possa "pôr numa embalagem, divulgar e vender".
Palahniuk vê aquilo tudo como um confessionário, também. Pessoas em busca de redenção: "Não é mais Deus que os aguarda para o julgamento. É o mercado. Talvez o contrato de um livro seja um novo halo. (...) Em vez do céu, recebemos dinheiro e a atenção da mídia. Quem sabe um filme estrelado por Julia Roberts (...)" E, tal qual nos anos 60 e 70, os programas de culinária na televisão estimulavam uma categoria de gente a gastar seu tempo vago e dinheiro com comida e vinhos, a partir dos anos 80, com a liberdade dos vídeos e CDs players, o entretenimento passou a ser a nova obsessão. Mas, como não se pode fazer um filme em casa, se pode escrever um livro. Ou um roteiro de cinema.
Tal qual ele escreve também "ninguém em Los Angeles jamais fica a mais de quinze metros de um roteiro de cinema. São guardados na mala dos carros. Nas gavetas das mesas de trabalho. Em computadores portáteis. Sempre prontos para serem mexidos. Um bilhete de loteria à procura do seu pote de ouro. Um cheque que não foi descontado."
19 Outubro 2011
Fragmentos (#1)
O curso de verão está terminando. A nadadora da primeira fila, Misty
Friday, quer conversar sobre a prova a fazer em casa. O top de malha que ela
usa é brilhante, seus ombros são sardentos, o cabelo está amarrado com elástico
dourado. A sala de aula esvazia. Herb se senta em uma cadeira ao lado da de
Misty, ela se inclina em sua direção e ambos unem as cabeças sobre um parágrafo
que ela escreveu sobre eucariontes. Um cortador de grama ronca lá fora. Moscas
zumbem pelas janelas. Misty cheira a hidratante e cloro. Herb está olhando para
a escrita perfeita, as curvas redondas, sentindo que está a ponto de desabar
para a frente, na página, quando a chama — sem querer — de querida.
Ela pisca duas vezes os olhos. Passa a língua nos lábios, talvez. Difícil dizer.
Ele pergunta, hesitante:
— Todas as células têm o quê, Misty? Membrana, citoplasma e material genético, certo? Na cevada, nos camundongos, nas pessoas, não importa...
Misty sorri, bate com a ponta da caneta na tampa da carteira, olha para o fundo do corredor entre as carteiras.
(Anthony Doerr, "Procriar, gerar", Granta 1 - Os melhores jovens escritores norte-aericanos. Alfaguara, 2007. )
Ela pisca duas vezes os olhos. Passa a língua nos lábios, talvez. Difícil dizer.
Ele pergunta, hesitante:
— Todas as células têm o quê, Misty? Membrana, citoplasma e material genético, certo? Na cevada, nos camundongos, nas pessoas, não importa...
Misty sorri, bate com a ponta da caneta na tampa da carteira, olha para o fundo do corredor entre as carteiras.
(Anthony Doerr, "Procriar, gerar", Granta 1 - Os melhores jovens escritores norte-aericanos. Alfaguara, 2007. )
27 Setembro 2011
Dando uma letra
“Don't look back until you've written an entire draft, just begin each day from the last sentence you wrote the preceeding day. This prevents those cringing feelings, and means that you have a substantial body of work before you get down to the real work which is all in... The edit.”Will Self e uma cambada de gente em "25 Insights on Becoming a Better Writer".
24 Setembro 2011
Do que eu falo quando falo de Jabuti
Fora o susto, a surpresa total quando vi o tuíte do Xerxenesky anunciando isto, a primeira sensação que tive, de forma muito intensa, foi de reconhecimento. A segunda, uma certificação de que poderia continuar apostando no que escolhi fazer na literatura. É claro que, independente desta indicação, eu iria continuar fazendo o que estou fazendo quando escrevo ficção.
Em um debate muito recente no evento Encontros de Interrogação, do Itaú Cultural, Carola Saavedra resumiu muito coerentemente o que talvez possa ser também chamado como "voz literária": a gente escreve do jeito que sabe. E, sem querer soar "inovador", "transgressor" ou qualquer termo do tipo, não foram poucos os que esboçaram um certo estranhamento em relação a estes meus contos de estreia. Como escreveu Luiz Paulo Faccioli, na gentil orelha para o meu livro, "a dificuldade da forma breve é convencer com pouco, e só por isso o conto se prende a tantos cânones que, ao longo dos anos, seguem sinalizando o que funciona e o que deve ser evitado". Não creio ter transgredido nenhum cânone, mas é certo que houve a intenção de experimentar. Afinal, se fosse para ficar fazendo exatamente o mesmo, melhor seria me contentar com o que os mestres já fizeram tão bem.
Mas este post não é para tentar buscar justificativas para a indicação. Na verdade é mais para tornar factível, a mim mesmo, isto. Sim, porque foram muitos instantes de incredulidade, ainda que lendo o meu nome e do meu livro estampado na página dos finalistas. Não por não acreditar no que faço — se fosse assim, não escreveria. Se fosse assim, não teria, pessoalmente, ido levar os livros na CBL. Mas pelo reconhecimento. De uma instituição e de um prêmio tão respeitados, corroborando o que algumas ótimas resenhas disseram a respeito deste tão acalentado livro. E mais do que pelo reconhecimento, por este green card, que me afirma, sem titubeio: é por aí. Esta certificação que me faz sentar e enfrentar mais caudalosas páginas do romance que estou escrevendo agora e pensar: é por aí. Algo mais ou menos semelhante ao que tive, após tantos anos escrevendo, ao encontrar minha voz literária. E, a partir daquele momento, ficar extremamente feliz cada vez que escrevo do único jeito que sei.
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(*O título do post é uma emulação ao título do livro de Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.)
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(*O título do post é uma emulação ao título do livro de Haruki Murakami, Do que eu falo quando falo de corrida.)
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