14 abril 2014

Orgia pop



Gênios precoces da literatura são praticamente um gênero na indústria editorial americana. Quando não conseguem superar o sucesso do primeiro livro, diz-se que sofrem da Síndrome Françoise Sagan (escritora francesa que nunca superou o sucesso de de Bonjour Tristesse, sua estreia aos 18 anos). As obras deste jovens prodígios surgem normalmente cercada de blurbs comparativos em suas capas, com clássicos estabelecidos sendo utilizados para situar o potencial leitor. Quase sempre, estratégias mercadológicas, do tipo: “Um tocante retrato da juventude como não se via desde ‘O Apanhador no Campo de Centeio’.” . Esta é a frase que você encontra na capa de Doze (Geração Editorial, 232 pgs.), romance de estreia do nova-iorquino Nick McDonell, lançado em 2002. Escrito quando o autor tinha somente 17 anos de idade, o livro, exageros de comparação à parte, merece parte dos incensados elogios da crítica. 


Através de capítulos curtos, diálogos ágeis e bastante ação — ainda que muito naquela típica narrativa norte-americana que se aproxima do comercialismo de um Bret Easton Ellis e de roteiros cinematográficos —, o autor consegue trabalhar, com sensibilidade e alguma elegância de estilo notáveis para um jovem de sua idade, temas bastante utilizados: adolescentes ricos do Upper East Side, área nobre de Nova Iorque, com não mais interesses além de drogas, sexo e festas regadas aos dois primeiros. 


Em dias situados entre o Natal e o Ano Novo, conhecemos White Mike, o protagonista: um traficante de 17 anos que gosta de ler Camus e Nitzche, não usa drogas, não bebe e não fuma, mas que largou a escola para vender drogas. A atividade lhe permite circular com desenvoltura na alta e jovem roda de Manhattan, entre adolescentes ricos com pais ausentes, sempre muito ocupados em viagens ao redor do mundo. O grande trunfo de Mike neste mundo é uma nova droga chamada doze. Suas entregas nas casas dos clientes — cujas vidas são brevemente relatadas em capítulos curtos, não lineares — não deixa seu pager parar de vibrar, em pedidos frequentes de mais drogas. Como num episódio de Gossip Girl, não tardamos a perceber os acontecimentos que entrelaçam os personagens, presentes em festas orgiásticas na qual os empregados fingem não ver nada:


“No sexto andar, um grupo de garotos está em volta de outro que está tocando bateria, montada num quarto de hospédes vazio. O ritmo da bateria é sofrível, em função das oito cervejas que o garoto já tomou. Várias cervejas — Corona Lights, Budweisers — estão espalhadas pelo chão em diferentes partes da casa. Seguindo o corredor pelo quarto onde está a bateria, um aparelho de som está tocando ‘Burn One Down’ de Ben Harper alto o bastante para que os garotos que estão no terraço fumando maconha possam ouvir. No quinto andar estão apenas dois garotos, um loiro e o outro de pele negra e cheia de espinhas, ambos pequenos e desmaiados em grandes sofás de couro, onde os amigos deixaram, entrelaçados e babando um no outro. No quarto andar, mais ou menos uns dez garotos estão sentados em frente a uma TV de tela plana assistindo filmes pornográficos. Um garoto, numa grande poltrona de couro, está com uma menina sentada em seu colo. Ambos olham alegremente para a tela, a mão direita do garoto pousada suavemente na metade esquerda do seio da menina.” 


Em uma trama tão repleta de elementos pop, em um cenário estilizado ao registro da futilidade e transitoriedade, não é difícil entender a presença de uma cerveja como a Corona Light. Constante nas muitas listas das 10 cervejas mais vendidas no mundo — mesmo que esta pilsen sofra da mesma rejeição, pelos inciados, que toda bebida popular ao extremo — é uma versão mais leve da tradicional Corona Extra. Foi lançada primeiro nos Estados Unidos, em 1989, e só em 2007 no México, país de onde é originária. Pertencente à Cervecería Modelo — que lançou a tradicional Corona em 1925, hoje a marca mais valiosa do México —, a Corona Light é normalmente definida como uma cerveja refrescante, frisante, de acidez média e toques persistentes de limão. Uma leveza também presente nos seus 3,7% de teor alcoólico. Assim como sua irmã, ela é comumente atrelada ao hábito de ser consumida com um pedaço de limão no gargalo. Razão que teria surgido pelo fato da garrafa ser transparente, com exposição de luz muito maior, afetando, portanto, o sabor da bebida. O limão seria a estratégia para “melhorar” seu sabor.


Com seus 30% a menos de calorias que a versão original, talvez seja mesmo a escolha ideal para figurar no cenário de festas deste livro, onde as aparências dos esbeltos semi-deuses milionários de Manhattan — mesmo que diluindo-se em cafungadas e quase-overdoses — é algo sempre tão importante a se manter.

Publicado originalmente na HNB Mag.

28 março 2014

Um conto inédito

O ar cheira a ligustros, granitina e excitação pós-púbere.
A tateante aranha de dedos de Madison permite-se ficar tempo muito mais do que necessário exercendo pressão úmida sobre a mão de Ignacio. É como uma luta livre de maciez coroada pelo ir-e-vir do mindinho, elucidando a intenção daquilo o que já não deixa a menor dúvida. Na rua, o frio é congelante e a chuvinha fina é só uma irritação a mais, tamborilando na janela do anfiteatro da universidade. Ela se inclinou para mais perto dele, não perto demais mas, sim, perto demais, e é esta proximidade calculada em milimetrismo que permite o tom baixo, ritmo cadenciado pelo ainda ir-e-vir do mindinho em sua mão, reduzindo a voz ao que é quase-sussurro — “mais uma vez, seu argumento foi perfeito”. Ele ainda consegue externar-se ao que vai além da pequena bolha que lhes envolve — na plateia à meia-luz se vê o brilho dos smartphones refletindo na tez lustrosa dos estudantes que restam, ocupados em redigirem espirituosas máximas de cento e quarenta caracteres enquanto aguardam o carro de alguém que os levará a lugar quente e distante. Retira sua mão com a desenvoltura de quem só vai apoiar a alça da pasta de maneira mais firme no ombro e diz o que todo professor precisa dizer diante do que é óbvio, o que diz toda vez que, ao fim de um de suas palestras, uma aluna se detém a segurar sua mão, alisando o próprio cabelo em quantidade muito superior ao comum, suavidade do toque e da voz muito mais intensa do que o comum. “Fico feliz que você tenha gostado, Madison”, Ignacio diz. O toque dele em seu ombro, quando decide ir em frente, sempre que decide ir em frente, é apropriado, ainda que permaneça tempo muito mais do que necessário. É e sempre interrompido pelo gesto de segurar o cartão com o número de telefone que elas lhe alcançam, antes de subirem a escadaria em direção à porta dupla sobre a qual se lê Saída de Emergência, só um pouco mais apressadas do que o comum.

***

Salobro, conto inédito meu, disponível na íntegra para leitura na Flaubert. Clica e vai.

18 março 2014

Michael Chabon: Pittsburgh de wonder boys e da Iron City


Um estudante que sabe a lista de todos os astros de Hollywood que se suicidaram. Um cachorro baleado com uma arma que deveria ser de espoleta. Um casaco curto de cetim preto, com gola de arminho, que pertencera a Marilyn Monroe (e que é roubado de uma festa na casa do chefe de departamento de uma universidade). Um escritor com excesso de criatividade que tem um caso com a esposa do chefe de departamento da universidade. Um livro de um escritor com excesso de criatividade, que já alcança as duas mil, seiscentas e onze páginas datilografadas, e ainda sem previsão de chegar ao final.

Isto está muito longe de ser o resumo de Garotos Incríveis (Record, 2000, 333 páginas). Mas perder algumas horas mesmo somente folheando este, que é o segundo romance na carreira do norte-americano Michael Chabon (que ganharia o Pulitzer pelo seu romance seguinte, As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay), garante exatamente isto: que se ache trechos ao acaso tão completamente inacreditáveis e deliciosamente engraçados, capazes de obliterar mesmo a sinopse oficial. E ela — a sinopse oficial — nos dirá que Gady Tripp, o escritor de meia-idade protagonista deste romance, vive da fama conquistada na juventude, quando seus primeiros livros o consagraram. No período do romance, ele está há mais de sete anos preso no emaranhado de prédios belos e miseráveis para construir, crianças inocentes para matar com febre reunática, ruas às quais dar nome e tantos outros detalhes que fazem de Wonder Boys (o seu romance) aquele mamute inacabável. E é este livro que Tripp tenta esconder de Terry Crabtree, seu editor em visita à cidade, ansioso por colocar as mãos no próximo e esperado novo origial de seu autor prodígio. Não tardará, porém, para Crabtree preferir colocar as mãos no jovem James Leer — aquele estudante fascinado com os suicídios de Hollywood. Junte estes três aos personagens apontados lá em cima, mais Hannah, a estudante apaixonada por Tripp, um travesti pouco convincente e um fim de semana repleto de maconha e você terá uma noção bastante aproximada do que é este romance.

Com uma saga destas, não espanta que já conte com sua adaptação cinematográfica, dirigido por Curtis Hanson e estrelado por Michael Douglas, Tobey Maguire e Robert Downey Jr. Com trilha sonora de Bob Dylan, o filme é tão imperdível quanto o livro, nesta odisséia por ruas, bares e casas de Pittsburgh. E é uma nativa de Pittsburgh, a Iron City Beer, que dá as caras neste exato momento:

“Acenei para Hannah, que sorriu para mim, e quando olhei em volta e dei de ombros exageradamente, ela apontou para uma mesa no canto mais distante, longe dos dançarinos, do palco e de todos os outros clientes. Na mesa estavam sentados Crabtree e James Leer, atrás de um horizonte louco e comprido de garrafas de Iron City. James estava caído na cadeira, a cabeça inclinada contra a parede, olhos fechados. Parecia quase como se estivesse dormindo. Já Crabtree olhava para as pessoas que dançavam, ou para além delas, com uma expressão de concentração feliz. Seu braço estava estendido para baixo e para longe do corpo, num ângulo delicado, como se estivesse para escolher um bombom numa bandeja. Mas a mão estava em evidência, desaparecera sob a mesa, nas vizinhanças do colo de James Leer.”

Nascida em 1861, a Iron City foi a primeira cerveja da Pittsburgh Brewing Company (ou Iron City Brewing Company). Obra de um alemão imigrante chamado Edward Frauenheim, que fez a cerveja tornar-se reconhecida logo nos seus primeiros cinco anos. Mesmo a proibição, em 1920, que fechou muitas destilarias e cervejarias, não foi suficiente para por fim ao sucesso da Iron City. Sua produção foi retomada — ainda que tenha sido fundida à outra cervejaria, a Bond Brewing Holdings Ltda., e também passado por um processo de falência —  e o nome original da fábrica, Iron City Brewing Company, restaurado, produzindo uma série de outros rótulos. Sua maior marca é a garrafa de alumínio, com três vezes mais material que as latas comuns, garantindo uma cerveja gelada por mais tempo, além de ser mais leve que o vidro.

Tão lendária quanto a cidade onde tem origem, a Iron City é reconhecida como uma das melhores cervejas lager fabricadas nos Estados Unidos. É difícil imaginar um jogo de futebol, baseball ou hóquei onde ela não esteja presente. E como boa nativa, é claro que ela também habita o bar jazz Hi-Hat, que com seu Steinway de cauda, bar luminoso com refletores cor-de-rosa — pronta para tornar o fim de semana de Grady Tripp e sua trupe ainda ébrio e caótico.


Publicado originalmente na HNB Mag.

15 março 2014

Flaubert #01

Está no ar o primeiro número da Flaubert, revista de contos da qual sou um dos editores e participo com conto inédito. 

 Flaubert #01


13 fevereiro 2014

Um livro por dia

Sinapses #11: Literatura e levedura





349 anos atrás. Um tempo tão cinerário que, naquele quase inimaginável 1664, a França ainda era um Estado pertencente ao então Sacro Império Romano-Germânico, espécie de joint venture que abarcava grande parte dos territórios de uma Europa Central recém saída das fraldas do feudalismo. E foi na cidade de Strasbourg — em uma Idade “Moderna” de elmos, armaduras e lanças — que nasceu a Kronenbourg Brewery e sua primeira cerveja. Obra do recém-certificado Mestre Cervejeiro Jérôme Hatt, a Kronenbourg 1664, desde sempre simbolizou superioridade e requinte, fatores determinados principalmente pela presença do Strisselspalt em sua composição. Espécie de caviar dos lúpulos, seu baixo amargor e profundas qualidades aromáticas contribuiram para a criação de uma pale lager de gosto frutado persistente e extremamente suave. Características que a tornaram — e mantiveram, desde então — como a cerveja mais popular da França. Presente hoje em mais de 70 países, detentora de uma infinidade de prêmios, sua garrafa verde é um espetáculo de design à parte. Hoje a marca pertence ao Grupo Carlsberg e continua sendo personagem peculiar da França. Motivo pela qual a encontrei em um livro tão repleto de outros elementos francófonos:

“Passava os dias bebendo cerveja forte na frente do parque ao lado da Shakespeare and Company, algumas vezes na companhia de outros homens e sempre com um cão preto descarnado. Era possível avaliar seu estado de espírito a partir da cerveja que bebia. As lojas de Paris vendiam uma seleção padrão de seis tipos de latas de meio litro de cerveja. Havia a Heineken verde para o bebedor abastado; uma Kronenbourg com 4,5% de álcool para bebedores moderados; uma cerveja com 5,9% de álcool chamada 1664, que era a que nós da livraria preferíamos; e então, três níveis de cervejas muito fortes: uma lata vermelha com 8% de álcool, uma lata preta com 10% e uma lata especial verde-escura com 12%. Naquele dia, Richard estava bebendo uma lata vermelha, o que significava que estava com uma disposição razoável para com o mundo.” 



Obra de não-ficção, como tudo, aliás, escrito pelo canadense radicado na França, Jeremy Mercer, a obra Um livro por dia - Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company (Casa da Palavra, 2007, 320 páginas) narra aquela que é a utopia dos bibliófilos e amantes do odor acolhedor que só se encontra em volumes de páginas prensadas em velhas estantes: morar em uma livraria, repousando em meio a caracteres infinitos de Prousts, Fitzgeralds e Machados. Porque foi isto o que fez este autor, fugido no ano 2000 de seu país e indo refugiar-se com malas e quase sem dinheiro na lendária livraria de Paris, a Shakespeare and Company. Definida por seu então proprietário, George Whitmann, como “uma utopia socialista em forma de livraria”, a Shakespeare and Company oferecia mais do que um chá e recomendação de livros a seus frequentadores: era um teto para escritores em decadência criativa ou sem lugar para ficar em Paris. Turistas curiosos, interessados nos mitos franceses também eram bem-vindos para dividir espaço com volumes e mais volumes de livros, sob a sentença (outra de Whitmann): “Não seja um mau anfitrião para os estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados”. Em troca, os hóspedes só precisavam ajudar nas tarefas diárias e cumprir uma inusitada missão: escrever ali uma obra e — sabe-se lá como — ler um livro por dia. 


Com requinte jornalístico, Mercer relata os quatro meses passados na livraria, famosa na primeira metade do século XX, quando ainda era de propriedade de Sylvia Bach, fechada em 1941 e reaberta por Whitmann dez anos depois. Território de viajantes do mundo inteiro, uns tantos atraídos por lendas como a de que Shakespeare teria morado ali e outros interessados na aura de reais ilustres frequentadores do passado, como Henry Miller, Anaïs Nin, Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

No trecho em questão, Mercer lamenta a instabilidade da vida da livraria. Demorando para entender o estilo de pensamento livre de Whitmann, ele sai da Shakespeare and Company enraivecido pelo sumiço de duas camisas suas e acaba envolvido pela postura filosófica de um sem-teto bebedor de cervejas que o para na rua para perguntar “se ele estava bem”.

Escritores em crises com seus livros, poetas alcóolatras e viciados em haxixe, artistas plásticos excêntricos. Todo tipo de gente passa pela vida de Mercer neste período em que ele não leu um livro por dia, como sugere o título brasileiro, mas viveu diferentes histórias diárias que teve a generosidade de dividir. Histórias encravadas numa livraria de tradições seculares. E boas histórias, assim como boas cervejas, nem séculos conseguem fazer desaparecer.

Publicado originalmente na HNB Mag.

22 janeiro 2014

Antes da noite chegar


Passadas as dezenove horas e o papel preso à máquina ainda é uma pergunta em branco que insiste em perturbá-lo, a lembrá-lo de sua necessidade de preenchimento.

O escritor faz uso de suas memórias mais recentes, recorre aos livros que estão ao alcance de suas mãos logo ali, na estante, e sabe que percorrer suas páginas é mais que um convite à inspiração – inevitavelmente fará sua alguma trama que lhe entrará à memória, mesmo que travestida de novo argumento, como se vivenciada em nova situação. Para o escritor, as dezenove horas passadas são mais que horas de desespero: entrando as vinte horas, sabe que a inexistência de palavras marcadas nas folhas de papel ofício serão mais do que a certeza de sua ineficiência momentânea, de sua falta parcial do que escrever; será, no seu desespero absurdo, a concretização de sua incompetência, a prova de seu erro em querer aventurar-se pelas letras para dar algum sentido que insiste ser mais do que mera vaidade, que faz questão de justificar como a sua expressão artística. 

Ao final do dia, não preenchida a página, ao escritor não restará senão a amargura de mais uma noite pronta e mais um dia inutilizado. Se cada dia é a possibilidade para se preencher de maneira fundamental o papel, seu inapelável instrumento de trabalho, o dia perdido à contemplação do tema, à procura da criação da história, à fundamentação de suas memórias é como um tapa seco e indiscutível, o veredito que não precisa ser-lhe informado por outrem – é o próprio escritor quem percebe que findado um dia inteiro a observar o papel preso à Facit, a procurar pequenas ocupações que lhe sirvam como alívio de pensamento: o cigarro que não fuma, o café que não bebe porque está quente demais e o quarto por demais abafado e ainda sem ventilador, terá a resposta que nem tem coragem de perguntar em voz alta a si mesmo por temer a confirmação. Uma página em branco no fim do dia do escritor é o fim do dia do escritor.

Não obstante, o telefonema que não flui como na maioria das vezes, já foi a resposta à incapacidade do escritor em fazer-se ao menos eficiente nas coisas do relacionamento. Nem nisso o é. O monólogo que lhe chega pelo fone, os argumentos imbatíveis que a outra lhe apresenta, o choro que não tem palavras para controlar, as ofensas que lhe são jogadas sem que tenha justificativas para amenizar, empurrariam o escritor no fosso mais profundo de tristeza, não tivesse o escritor pretensão de transformar mesmo as mais doídas experiências de vida em material para seus escritos. Mas nem isso o escritor consegue. Ao fim do telefonema que não tem forças para retornar, ditas as barbaridades que não tem razão para contestar, machucado o seu coração que não tem maneiras de curar, o escritor nem isso consegue transformar em ficção. O medo que lhe toma é de quedar-se na confissão banal e abominável. Para o escritor, cento e cinquenta laudas não preenchidas a uma página que seja de confissão gratuita e adocicada de sentimentos magoados.

Prestes a findar o dia a contemplar paredes brancas, a folhear livros cujas frases já lhe são memória e a acariciar com os dedos dos pés os cachorros que insistem em rodeá-lo, o ofício do escritor é nulo como a parede que o pedreiro não levantou. A página em branco a fitar o escritor, pedindo-lhe providências é um som de alarme tão exasperante que o escritor nem tem coragem de abandonar o local do incêndio: sente pena de si mesmo quando a água de emergência molha seu terno amarfanhado, embaça seus óculos grossos demais e não lhe é fria o suficiente para fazê-lo mover-se um triz sequer da cadeira em que continua prostrado para continuar fitando (ensandecido seria, se não fosse triste, pela constatação) o papel que, em empáfia, lhe inquire sobre o porquê de seus dedos tão crispados, seus argumentos tão pobres e sua mente tão embotada.

A página em branco à frente do escritor é o seu desafio de todos os dias. O som do tipo a preenchê-la com palavras que se vão concatenando é a realização de sua vida. A história que se vai revelando através da tinta invisível que se mostra conforme as teclas são pressionadas pelo escritor é o pagamento pelo dia inteiro de sofrimento mental, não pelo branco, mas pela confusão que se lhe forma em mente e o impede de discernir o que é necessário, o que é propriedade de outrem e o que é inadmissível que lhe ronde os pensamentos.

As teclas compondo sinfonia aos seus escritos é mais do que toda a música que o escritor desejou ouvir em um só dia. Passado todo um dia em que a mediocridade do escritor foi tamanha, que se tornou um diletante do ofício à mercê de sentimentos românticos de inspiração e seus métodos foram ineficazes para conseguir fazer de um dia, um dia de trabalho, ainda assim ter certeza de que a história que começa a compor é uma história que, antes de a noite chegar, terá valido todo o dia de inexatidão, já lhe é a recompensa mais do que merecida, o alívio que o faz sentir-se merecedor realmente deste título tão inebriante quanto vaidoso, mas tão simples quanto necessário. O escritor se reconhece em seu ofício e sabe que a noite pode vir, definitivamente.

21 janeiro 2014

Toni Morrison à espreita



Toni Morrison lembra minha mãe. Foi o que pensei quando vi sua foto na contracapa de O olho mais azul, primeiro livro seu que caiu em minhas mãos. Isto foi há bastante tempo, quando então a prosa desta norte-americana me conquistou e, desde então, levou-me a mergulhar em outras obras. Algum tempo depois, deparei-me com uma frase sua -- provavelmente em um destes sites de conselhos literários: Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo.

A frase -- ou conselho -- estabelece uma premissa que desestabiliza a noção mítica que comumente se emprega ao fazer literário: se você quer fazer (escrever um livro), vá e faça. A frase, ainda que não objetivamente, não considera o pré-requisito de estar falando com um escritor. É bem provável que ela esteja fora de seu contexto original e neste contexto ela estivesse, sim, referindo-se aos escritores. No entanto -- e talvez isto negue esta hipótese --, ela carrega em si uma equivalência extremamente prática no grande abismo que, sabemos, existe entre ler um livro e escrever um livro. Ignorando isto, a frase, em sua simplicidade e desconsiderando-se qualquer outra contextualização, estabelece que se você não encontrou aquilo o que gostaria de ler, vá e escreva. Simples assim.

Mesmo que não fosse esta sua intenção, esta desmitificação da escrita me remete à maneira como Julio Cortázar também costumava encará-la. Quem cai de pára-quedas em um de seus livros e se vê imerso na certa complexidade de apreensão de alguns de seus contos, pode ter dificuldade para crer na leveza com que o autor encarava seu ofício. Ele costumava relacionar o prazer possibilitado pela escrita com o divertimento de uma criança entretida com seus jogos. 

Não à toa a noção de jogo sempre foi algo tão caro ao argentino, explorando formas que remetem à brincadeiras infantis -- de maneira amplamente conhecida em O Jogo da Amarelinha -- ou em contos cuja trama gira em torno de espécies de jogos a que adultos se submetem. Um exemplo claro disto é "Manuscrito encontrado num bolso", em que duas das obsessões do autor são colocadas lado a lado: o jogo e os trens subterrâneos, os metrôs. Neste conto, o protagonista cria uma série de rígidos requisitos para abordar mulheres pelas quais se interessa nas suas viagens de metrô. Entre os mais simples está a troca de olhares através do reflexo das janelas, tornando-se mais complexo à medida em que envolve a necessidade de que a mulher faça as conexões entre as linhas do metrô pré-determinadas por ele, ou desça na estação que ele gostaria que ela descesse para que o jogo se complete. A impossibilidade de suas combinações serem todas contempladas o envolve em uma angústia constante que se amarra de maneira perfeita ao título do conto (e compreender o título do conto é ter em mãos a frase final não-dita).

Escrever é um processo sempre cheio de incertezas e inseguranças. Você está constantemente sendo traído por sua herança de leituras e por um ser invisível lhe sussurrando que o mundo não precisa de mais um livro. Que você não precisa escrever mais um livro -- olhe quantos livros há na sua estante que você ainda nem leu. E quantos livros há no mundo! São processos normais da criação literária, mas que potencializam sua ação principalmente durante a escrita de um romance. É uma jornada longa, repleta de idas e vindas, do quase sempre irrefreável hábito de se voltar à primeira frase para verificar se é impactante o suficiente, se é fluida o suficiente, se é sedutora o suficiente. 

Para encarar seriamente a escrita de ficção é preciso ser tomado por uma crença inabalável da necessidade de que seu livro exista. Nem que seja para você mesmo. E quando esta crença se fortalece, tudo parece até bastante óbvio: é claro que seu livro é necessário, ninguém escreve como você pelo simples fato de que ninguém tem a sua voz literária. Então, seguindo o simples e direto conselho de Neil Gaiman, termine o que você está escrevendo. Faça o que for preciso para terminar. Porque para ler a história que você ainda não leu -- e sabe que não foi escrita, pois ela é sua -- é preciso escrevê-la.