27 janeiro 2015

Road movie gastronômico


Elementos que não podem faltar num road movie (juntos ou separados): 1. Personagem em fuga ou tentando um recomeço; 2. Estrada como metáfora ou meio de descoberta (da resolução dos problemas, do amor verdadeiro, do “eu” do personagem e variantes similares); 3. Aproximação ou distanciamento definitivo de personagens em conflito (que podem estar juntos na viagem ou não).
Com pequenas variantes, os elementos que formam este tão tradicional gênero podem ser notados desde as primeiras produções cinematográficas que o inauguraram — e isto lá em 1902, quando Georges Meliés lançou seu Viagem à Lua. A verdade é que, para alguns, o primeiro filme exibido na história, A chegada do trem à estação de Ciotat, dos irmãos Lumière, em 1895, já trazia a conexão entre cinema e viagem. E não importa que desde então as produções do gênero praticamente nunca tenham esmorecido. Os roads movies costumam trazer aquela familiaridade de identificação imediata: um conflito humano, um carro/moto interessante, lugares exóticos ou paradisíacos no meio do trajeto e temos a receita quase incontornável de sucesso. Adicione personagens carismáticos e corra para o abraço.
Chef, a mais recente empreitada do Jon Favreau não é diferente. Cansado dos blockbusters (o ator/diretor é responsável pelos dois primeiros filmes da franquia Homem de Ferro), Favreu resolveu retornar ao cinema intimista e de baixo orçamento, escrevendo, dirigindo & atuando. Para tornar tudo ainda mais irresistível, conseguiu a façanha de adicionar a amada gastronomia ao seu divertido road movie (e a amada Scarlett Johansson, que não pode nunca ser esquecida).
Utilizando os elementos do gênero: 1. Favreau é Carl Casper, chef apaixonado por seu trabalho. Frustado por ter sua criatividade podada no restaurante onde trabalha, tenta o recomeço com um food truck (o El Jefe) de comida cubana; 2. Casper irá redescobrir a paixão pela gastronomia; 3. A viagem também servirá para reaproximá-lo de seu filho, Percy (Emjay Anthony), de quem é distante desde que separou-se de Inez (Sofia Vergara).
Dito isto, vamos ao que importa: comidas deliciosas (não assista de estômago vazio), trilha sonora imbatível e locações incríveis, onde clássicos points gastrômicos dão o tom — e o sabor. Depois de dar adeus a seu emprego em Los Angeles, a viagem começa com a inspiração. É Miami, na Little Havana onde a família cubana de sua ex-esposa vive, que Casper terá o insight para os sanduíches cubanos que serão o sucesso de seu food truck. Como resistir à combinação de presunto doce, carne de porco assada, queijo suíço, picles e mostarda no pão tostado?

Próxima parada, New Orleans. Lugar onde a comida — beignets cobertas de açúcar no famoso Cafee du Monde — é um programa tão cultural quanto as infindáveis jams musicais na Frenchmen Street. Dali, El Jefe parte para Austin, onde o churrasco texano, assado lentamente do Franklin Barbecue vira recheio para outro sanduíche de sucesso.
É claro que num filme onde a gastronomia manda, a cerveja também tem seu lugar. Se não tanto como deveria — eles aparecem empinando algumas cervejas em momentos de comemoração —, a gente compensa, apresentando uma breve lista dos melhores lugares para se beber, nas cidades visitadas por El Jefe Carl Casper.
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6 bares para apreciar uma boa cerveja, nas cidades de Chef.
MIAMI

The Democratic Republic of Beer(501 NE 1st Avenue)








Mais de 500 cervejas de 60 países, aberto diariamente até as 5h. Ainda sedia um famoso torneio de beer pong.

The Bar
(The Bar, 172 Giralda Ave., Coral Gables)











O número de cervejas é menor: 48. Mas, para compensar, tem uma seleção de jogos de tabuleiros e um menu com uma grande seleção de hambúrgueres.
NEW ORLEANS

Barcadia Bar & Grill(601 Tchoupitoulas Street)










Além de uma grande variedade de cervejas, com foco nas artesanais, tem salas cheias de máquinas de games arcade.

Cooter Brown’s Tavern & Oyster Bar(509 S. Carrollton Ave.)












Uma seleção de 400 cervejas, com 40 nas torneiras. Perfeito para os fãs de esporte, com suas mais de 20 TVs à disposição.
AUSTIN
The Chicago House
(607 Trinity Street)











Qualquer cerveja, a $5 (exceto durante o happy hour, quando tudo é por $4!). Vinte torneiras e duas cervejas de barril.
Craft Pride(61 Rainey Street)












Mais de 50 torneiras dedicadas exclusivamente às cervejas produzidas no Texas.

Publicado originalmente na revista da Have a Nice Beer.

30 dezembro 2014

Beer in Blue


Uma San Francisco que não é a de Instinto Selvagem ou Uma Babá Quase Perfeita. Aqui, não se vêem os monumentos, lugares da moda, pontos turísticos. Não há takes da Fisherman's Wharf ou da Coit Tower. Longe destes, na 305 South Van Ness Avenue, os dias são monótonos e nublados, bem como quase todos os locais por onde Jasmine — a protagonista de Blue Jasmine, penúltimo filme de Woody Allen — perambula. O fato de a San Francisco deste filme não retratar os encantos que normalmente o diretor dedica às suas cidades-locações, vai ao encontro do mergulho desorientado de sua personagem.


Outrora uma moradora de Nova Iorque, com sua casa à beira-mar em Long Island, flanando entre joalherias no East Side de Manhattan e lojas de grife na 5th Avenue, Jasmine (Cate Blanchett ) vê sua vida dourada desabar, após a prisão do marido, o empresário duvidoso Hal (Alec Baldwin). Fora de sua zona de conforto, deixa o vôo alto de socialite para abrigar-se na bondade da irmã Ginger (Sally Hawkins), caixa de uma pequena mercearia, que lhe cede espaço na sua rotina simples da Costa Leste.


A esnobe Jasmine não tarda a mostrar-se uma agregada incoveniente, não medindo palavras para criticar a modesta vida da irmã, aí incluindo seu novo namorado, Chilli (Bobby Cannavale). Seu hábito de beber martínis de vodca com gengibre soa como corpo estranho no restaurante onde vai com a irmã, o cunhado e seu amigo Eddie. E é ao nos apresentar a este restaurante (mesmo em contraponto aos glamurosos locais por onde passeamos em filmes como Para Roma, Com Amor, Match Point ou Vicky Cristina Barcelona), que começamos a conhecer um pouco da genuína San Francisco.


The Ramp


Localizado no número 855 da Terry Francois Street, em Mission Bay, o The Ramp é uma instituição na cidade, localizado exatamente na área de San Francisco que alimentou a chama do movimento de cerveja artesanal da América, pelo menos desde a década de 70. Existente desde 1950, com sua vista para a baía, o The Ramp tem como pratos principais os frutos do mar. Daí um menu repleto de variedades de caranguejos e mexilhões. Todos opções perfeitas para serem acompanhados por uma cerveja como a Blue Moon, esta Witbier refrescante e cremosa que, devidamente servida com uma rodela de laranja, harmoniza divinamente com uma porção de camarão grelhado.


Ainda que em Blue Jasmine a cidade não seja protagonista, basta uma cena mostrando uma caminhada pela Ocean Beach — e o vislumbre da ilha rochosa Seal Rocks ao fundo —, para vir a vontade de desbravar os locais onde se pode degustar uma cerveja ao ar livre em San Francisco. Opções não faltam, como atestam os diversos guias, fáceis de encontrar. Uma escolha muito mais solar e que faz mais justiça à cidade do que os porres de vodca que se repetem nos dias de Jasmine.


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Outros 5 locais em San Francisco
para apreciar uma cerveja ao ar livre:



Public House
24 Willie Mays Plaza

















Hi Dive
Pier 28, Embarcadero at Bryant


















Waterbar
399 Embarcadero South
















Pier 23 Restaurant & Bar
Pier 23 on the Embarcadero


















Zeitgeist 199 
Valencia St (at Duboce Ave)


















Publicado originalmente na revista da Have a Nice Beer.

20 dezembro 2014

Um presente de Natal Top 3 na Amazon

(...)
só um segundo de pausa, Santiago volta a acomodar o joelho contra o banco, o gelado do couro atravessa a microfibra pouco espessa de sua calça. A penetração — dele nela — surge como um compasso do qual precisa voltar a fazer parte novamente. Como era aguardar a hora certa para ressoar a nota certa do xilofone, quando na banda. O arranhar — dela nele — acontece como resposta a uma hesitação que ele não deveria estar tendo. Mas é o tilintar de seu cinto balançando que o desconcentra novamente. Não que ele se desconcentre fácil, nunca com Melina, mas talvez o pensamento tomasse forma mesmo se concentrado — e então seria pior, a imagem da sua mulher e da sua filha, naquele momento, fundindo-se à sensação de aparar um dos seios de Melina com a mão em concha, ao mesmo tempo em que tenta retornar ao compasso — e a sensação de sentir o seio na mão em concha, mas não da maneira como deveria sentir o seio e sim de forma hiperconsciente, racionalizando sobre o fato de sentir o seio da cunhada na sua mão em concha enquanto sua esposa Martina e a pequena Natália esperam que cheguem com as compras.
(...)


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Este é um trecho de O grito, conto que escrevi especialmente para a coletânea de Natal, organizada pela editora e-galáxia e por minha agência, a MTS. O e-book está disponível para download, grátis e tem ainda tem contos de André de Leones, Cecília Giannetti, Claudia Lage, Estevão Azevedo, Luis Carmelo, Victor Heringer, Luisa Geisler, Maria Clara Mattos e Toni Marques. 

Nos últimos dias, ficou como Top 3 em Literatura, na Amazon, e Top 6, nas demais (Apple, Google Play e kobo). Os links estão aí. Aproveitem.

Meus dois tostões sobre Cortázar


(...) 
Como a própria declaração do autor, no livro Conversas com Cortázar, de Ernesto González Bermejo, definir o fantástico encobre uma gama demasiada de possibilidades e, no momento em que escrituras como as de Cortázar surgem, apresentando situações em que, sobre o sólito irrompe o inesperado e temais quetais, ligados ao metafísico, como estruturas espaço-temporais (temas que são focos de tensão dominante em seus contos), a primeira intenção é de tachar-lhe tal denominação: fantástico. No entanto, embora seja inevitável que eu tente aqui relacionar algumas significações sobre o fantástico, melhor definição, se assim posso dizer, à obra de Julio Cortázar, provavelmente esteja como narrativas de estranhamento. Eis o que o próprio autor diz sobre o fantástico.
Escrevi um ensaio sobre Cortázar e publiquei no Medium. Dá para ler por aqui

04 dezembro 2014

Por onde ando

O blog está bem abandonado, é fato. Mas não significa que estou parado. Pelo contrário: em tempos de modernidade líquida, ando espalhando minha produção por diversos lugares. Como estes:

Aqui, um papo rápido sobre 7 coisas que aprendi.

Resenho meu conto predileto neste site.

Edito, vitoriosamente, uma das mais longevas revistas de contos.

Escrevo sobre Cortázar, no Medium Brasil.

Participo desta coletânea.

28 agosto 2014

Viajar para encontrar



A busca da própria identidade através de uma viagem (a ideia, talvez romântica, de buscar o seu "outro", presente no lugar visitado), é território temático bastante explorado. Já presenciamos esta busca na literatura e no cinema. Mas no momento em que compreender a si mesmo implica em descobrir sobre outra figura que se julgava conhecer — ou se deveria —, esta busca ganha contornos que podem ser ainda mais surpreendentes do que achar a si mesmo. 


É usando a viagem como o elemento propulsor de reconstrução de identidade que se constrói a trama de As Mulheres de Meu Pai. Neste romance de 2007 do angolano José Eduardo Agualusa, a identidade buscada pelo protagonista não é a sua, mas a de seu pai. É este homem que, para a protagonista — a cineasta moçambicana Laurentina — é só um pacato burocrata lusitano, que estabelece a necessidade de imersão nesta viagem, na qual ela irá descobrir sua real identidade: a de um músico não só famoso pelo seu talento, mas pelas sete viúvas e dezoito filhos que deixou após sua morte. Desvendar as camadas que este novo "personagem" lhe apresenta, já se mostra tarefa estranha ao ler os anúncios obituários que seus filhos e viúvas lhe renderam no Jornal de Angola:


"'Pecado é não amar. Pecado maior é não amar até o fim do amor. Não me arrependo de nada, Tino, meu seripipi. Repousa em paz.'
No último anúncio, o meu pai posa para a posteridade, no vigor dos seus trinta anos, sentado à mesa de um bar. Diante dele tem uma garrafa de cerveja. Distingue-se o rótulo: Cuca. Enquanto escrevo estas notas também eu bebo uma Cuca. É boa, muito leve e fresca. Releio o texto: 
'Pai querido, abraça a mãe quando a encontrares. Leopoldina esperou tanto por esse abraço. Diz-lhe que os filhos dela, os vossos filhos, sofrem de saudades, (...)'".


Ao buscar este homem, diferente do que conheceu, Laurentina empreende uma viagem pelos países que Faustino Manso, o pai, percorreu: Angola, Namíbia, África do Sul e Moçambique. No projeto de reconstrução da identidade de Faustino, ela conversa com as mais diversas pessoas, desvendando uma teia que, ao mesmo tempo em que remonta a trajetória de seu pai, constrói um corolário de sentimentos, música, gastronomia, raízes, memória histórica — uma dimensão realista e generosa, potencializada pelo mosaico de vozes que compõem o livro. O romance, construído como uma espécie de diário, apresenta diversos personagens dando sua visão dos acontecimentos. Além disso, Agualusa apresenta dois níveis de narrativas interligados: um em que transita Laurentina, enquanto em outro se projeta o próprio autor, em uma viagem para fins de construção de um documentário, a partir do qual a ficção de um músico excepcional e de sua filha perdida – Laurentina – seria criada. É a metalinguística do processo de invenção literária nesta bela obra do premiado escritor. 


Nesta teia desvendada pela protagonista, quando o autor demarca os territórios a partir de sua construção cultural, aparece a famosa cerveja Cuca. A mais conhecida cerveja de Angola nasceu em 1947, e seu nome significa Companhia União Cervejas de Angola. A cerveja, que, em 1976 foi confiscada pelo Governo e nacionalizada, pertence desde 1992 ao grupo francês Castel Cuca BGI, que tem uma forte implantação na África e é proprietária de outras importantes marcas, como a histórica cerveja luandense Nocal (cujas origens remontam a 1958 e é, hoje, a segunda grande marca do grupo), as internacionais Eca, 33 Export, a Castel e a Doppe Munich. 


Seja em termos de notoriedade ou de vendas, a Cuca é a preferida dos angolanos, com seus mais de 48% do mercado. Esta pale lager é conhecida por seu sabor frutado e adocicado, com um amargor suave que só viceja no final. Cerveja de fabricação e distribuição maciça (o grupo também detém a marca Skol para Angola), obviamente a Cuca não se distingue como premium, com sua estratégia de expansão agressiva, com entrada recente em mercados como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Namíbia e Portugal. O certo é que, ao crescer e espalhar-se por outros territórios, a Cuca — assim como Laurentina e Faustino Manso — reconstroi um pouco de sua identidade a partir dos diversos territórios que passa a habitar. Mas (e aí está o segredo de toda marca de valor), não perde suas raízes, valorizando e difundindo seu local de nascimento, pois ali mora seu verdadeiro "eu". Uma estratégia que, não por acaso, fez-se questão de estampar em suas orgulhosas peças publicitárias: "Patrimônio de Angola."

20 junho 2014

Lobo em pele de ovelha negra?

Em janeiro de 20014, a nova revista da Have a Nice Beer estreou. E para o primeiro número da Last Call! for Beer, fui convidado a entrevistar Lobão. Segue abaixo a entrevista, na íntegra.



IMAGINÁRIO COLETIVO. SENSO COMUM. Pense aí o que lhe vem à cabeça — e o que você acha que surge na cabeça da maioria — quando se citam nomes como Silvio Santos, Elis Regina, Cazuza, Mussum, Chacrinha. Personalidades nacionais repletas de adjetivos a gravitar em torno de suas imagens. Mas e quando o nome citado é o de Lobão? E, temos de concordar, um nome que tem sido muito citado já há um bom tempo. Em determinado momento de seu mais recente livro, Manifesto do Nada na Terra do Nunca (Editora Nova Fronteira, 2013, 247 páginas), ele poupa o leitor deste exercício e assume — e é bom que fique claro, para desenvolver sua tese, livre da clássica indagação Afinal de contas, quem é você? — as corriqueiras qualificações que lhe foram impugnadas ao longo de todos estes anos: drogado, desimportante, mal social, criatura de péssima personalidade, arrogante, reacionário, boquirroto, vendido, debochado, pró-ditadura, pró-tortura, invejoso, marqueteiro, incestuoso, epiléptico, matricida, medíocre, e por aí vai. Auto-indulgência? O certo é que adotar todos estes estigmas, ainda que de forma irônica, no mínimo depõem contra o Nada que ele encarna como a metralhadora giratória (outro de seus adjetivos) e autor deste Manifesto. Afinal, gerar tantas imagens na mente de tantas pessoas, há tanto tempo, quando seu nome é citado, não pode ser obra de um nada. Pelo contrário, a fartura é tanta que fica a livre escolha: Lobão apresentador da MTV, Lobão repórter do programa A Liga, Lobão criador da revista Outracoisa, Lobão escritor, Lobão colunista da Veja, Lobão músico? 

Aos 57 anos, João Luiz Woerdenbag Filho não passa incólume à citação do nome com o qual surgiu no cenário nacional, como então baterista da Vímana, banda que reuniu, entre outros, Lulu Santos e Ritchie. À cada aparição, citação, lançamento, um petardo. Para alguns, marketing. Estratégias orquestradas para se manter eternamente na pele de “ovelha negra”. Mas será Lobão realmente uma ovelha negra? Não seria mais um dos rótulos fáceis aplicados a este que foi um dos fundadores da Blitz, hoje uma das poucas personalidades capazes de emitir suas opiniões de forma clara, corajosa e contundente? Um sujeito que não se nega ao debate quando chamado a ele. E de opiniões tão múltiplas quanto suas habilidades de músico. Antes mesmo do lançamento de seu livro, já pipocavam pela imprensa excertos da obra que, descontextualizados, mexeram com os brios de Caetano Veloso a Chico Buarque, de Paula Lavigne a Mano Brown. O que é curioso, ou ardiloso, pois estes excertos cumpriram exatamente a sina que a orelha do livro já prenunciava: “É certo que muita gente vai criticar este livro só de orelhada, a partir de frases tiradas do contexto e de uma visão estereotipada de seu autor.” Mas quem realmente se dá ao trabalho da leitura vê que o bicho não é tão feio quanto se pinta. Ao contrário de “alvos”, como os nomes acima foram constantemente citados, percebe-se que eles somente existem dentro de contextos de argumentos claros. Com o objetivo de “desmascarar os vícios da formação cultural brasileira”, Lobão vai da análise da MPB, desde seus mais imberbes anos, passando pela indústria musical brasileira, o questionamento da Comissão da Verdade, criado pela presidenta Dilma Rousseff, sua desilusão com o PT, até episódios muito pessoais, como o de sua recusa em tocar no Lollapalooza e sua saída do programa A Liga

Você só tem duas e óbvias possibilidades, de concordar ou não com o autor. Eu mesmo discordo de alguns de seus argumentos, como sua posição contrária à política de cotas para negros na cultura e para minorias nas universidades. Mas isto não me impediu de encarar o livro como ele é: pensamentos de um sujeito que, por ser portador de opiniões dissonantes do senso comum é impugnado com os rótulos — senso comum — de polêmico e ovelha negra

Goste ou não dele, Lobão é uma presença fundamental em um cenário que — à revelia da hiperinformação e da conectividade, com as ferramentas a favor da possibilidade de opiniões múltiplas —, dia após dia, parece um celeiro de repetição, likes e shares. Nada mais natural que a Last Call for Beer, em seu primeiro número, entreviste este artista para levar aos leitores o mesmo que a HNB espera toda vez que leva uma cerveja diferente às suas casas: diversidade de opiniões. 

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Lobão: o que é a música brasileira hoje?
Sinceramente, não acredito que haja qualquer possibilidade honesta de alguém, nos dias de hoje, traçar um perfil preciso sobre o que seria a música brasileira.


Hoje o Lobão escritor, articulador (até recentemente, apresentador) e, agora, colunista de Veja, está mais em evidência do que o Lobão músico. Você está feliz com este atual momento da sua carreira ou às vezes sente falta de ser somente o Lobão músico? 
Em primeiro lugar, eu não percebo a minha realidade dessa maneira. Se formos levar em consideração toda a minha trajetória rumo à criação de uma cena independente no Brasil, a numeração de CDs, a revista OutraCoisa [lançada em 2003, sempre com um CD encartado, e que revelou importantes bandas e artistas, como Cachorro Grande, BNegão & Os Seletores de Frequência, Mombojó, Vanguart, entre outros. A revista durou até 2008], o Universo Paralelo [2001: Uma Odisséia no Universo Paralelo, disco independente lançado por Lobão em 2001], vamos verificar que eu nunca tive um público tão numeroso e fiel como tenho atualmente. E se formos prestar mais atenção aos fatos, constataremos que ter dois livros como bestsellers em menos de 3 anos, ser convidado para escrever na Veja, ser cooptado para atuar em diversos programas de TV, só me proporcionaram uma quantidade de público cada vez maior nos meus shows. Esse fim de semana [a entrevista foi realizada em 23 de outubro], toquei pra mais de 5 mil pessoas num evento próximo à Belo Horizonte e pelo menos 3 mil delas carregavam consigo o Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Fora os outro tantos que traziam o 50 Anos a Mil [autobiografia de Lobão lançada em 2010, escrita em parceria com Claudio Tognolli]. Minhas atividades são sinergéticas e aglutinatórias. Nada se perde, tudo se multiplica exponencialmente.

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“O BRASIL POSSUI 
UMA “FROUXISE” 
ENDÊMICA E AMARGA.”
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Em 2003, com a revista Outracoisa, você criou um modelo que elevou a visibilidade e reconhecimento da música independente. Ao mesmo tempo, você dizia que era um cara do mainstream, que “estava independente”. Considerando as mudanças na indústria da música, quais são as possibilidades que lhe parecem mais interessantes para um artista hoje?
Nenhuma. O artista novo nunca esteve tão desamparado e tão à mercê das ideologias em voga atualmente. Se você for mainstream, tem que se virar com o sertanejo, o pagode e o axé universitários. Se for mais alternativo, cairá nas garras do Fora do Eixo e irá trabalhar como escravo pra eles, encarnado como a nova MPB neo tropicalista. Simples assim.


Falando em sertanejo universitário, sobre o qual você já manifestou sua aversão (inclusive com o divertido mergulho gonzo, relatado em seu mais recente livro), para você qual é a estrutura que cria fenômenos musicais como este?
Uma péssima educação + capitalismo selvagem + doutrina esquizofrênico/nacionalista do governo.


Apesar de já se fazer rock no Brasil desde os anos 50, como você relembra no quarto capítulo de seu livro, por que o gênero é — usando um termo seu — “evaporado” a cada década?
O Brasil possui uma “frouxisse” endêmica e amarga, uma constrangedora inveja do seu irmão bem sucedido, a América do Norte. A intelectualidade de esquerda morre de inveja da potência cultural americana e deflagra-se a já clássica e histórica inveja do falo americano através de guitarra elétrica. Por isso, nossa pulsão de morte em relação ao roquenrou.

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“ACHO QUE ELE [BERNARDO VILHENA] 
DEVE ESTAR PASSANDO 
POR ALGUMA FASE DIFÍCIL 
E SEU DISCERNIMENTO, MEMÓRIA E CARÁTER 
FICARAM SEVERAMENTE ABALADOS.”
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Em seu livro você escreve sobre um “filtro de qualidade, em busca da genealogia perfeita”, usado como princípio para a construção do status de artista da MPB na década de 70. Este filtro ainda existe? E, se sim, como ele repercute no momento musical atual?
Sim. Ele nunca foi tão forte. Agora temos clones que beiram a demência emulando o Chico, o Caetano, a Bethânia e outros mais. Tudo gira em torno dessa farsa deprimente.


Suas parcerias, assim como declarações de admiração e amizade com Júlio Barroso e Cazuza são notórias. Bernardo Vilhena [poeta e letrista, parceiro de Lobão em várias canções], em recente entrevista ao site Scream&Yell, no entanto, declarou o seguinte: “Ele prega uma amizade com o Cazuza e o Júlio Barroso que ele não teve”. O que você tem a dizer sobre isto?
Bem, isso é muito simples: leia os créditos das minhas parcerias. Elas respondem por si próprias. Nem é necessário me alongar mais nessa sórdida especulação.


Mas na mesma entrevista, Vilhena declara: “O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitar.” Ele afirma ainda que você agiu “de uma forma desonesta” com ele. Por que ele quer que você deixe de cantar as letras dele e a que se refere quando o chama de desonesto?
Em primeiro lugar, ele terá que provar aonde e porquê eu fui desonesto. Caso contrário, estará praticando um ato de calúnia e difamação. Quanto às minhas parcerias com ele, eu as tenho, sim, e são minhas canções. Não recito poemas de Bernardo Vilhena. Canto minhas canções que, eventualmente — num percentual bastante diminuto —, foram feitas em parceria com ele. E, por sinal, na maioria delas, houve correções e intervenções consideráveis de minha parte em suas… letras. Sem contar com as chamadas parcerias de condomínio como canções do tipo: Essa Noite Não, Corações Psicodélicos, Moonlight Paranóia, feitas com a presença de outros parceiros , além dele, como o Júlio Barroso, o Ivo Meirelles e outros mais. Sugiro que ele as selecione suas letras e que tente fazer um recital declamando-as. Com seu poderoso carisma, pode se tornar um sucesso, né? Mesmo na época em que [eu] compunha com o Bernardo, já fazia canções sozinho como Me Chama, Decadence Avec Elegance, Canos Silenciosos. Todas hits nacionais, e com outros parceiros como o Júlio Barroso (Noite e Dia), Tavinho Paes (Rádio Blá, Presidente Mauricinho, Quem Quer Votar, Sob o Sol de Parador). Com o Cazuza (Mal Nenhum, Baby Lonest, Junkie Bacana, Azul e Amarelo). Aí, sou eu que pergunto: algum problema? Acho que ele deve estar passando por alguma fase difícil e seu discernimento, memória e caráter ficaram severamente abalados. Lamento muito. Nutro carinho pelo Bernardo. Ele tem talento.

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“REPARAÇÃO HISTÓRICA JÁ É UM CONCEITO 
DOS MAIS IDIOTAS.
QUEM PENSA ASSIM 
JÁ ESTÁ COMENDO COCÔ.” 
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No Manifesto do Nada na Terra do Nunca, você diz que o rap e o hip-hop “caíram na repetição de clichês ressentidos, emburrados, com uma assustadora ausência de humor”. Estes movimentos/gêneros já foram mais bem humorados?
Pelo que me consta, isso nunca aconteceu. Mas eu sempre torci para que, em algum determinado momento, esse humor redentor eclodisse.


Qual sua opinião sobre novos artistas do gênero, como Emicida e Criolo?
Não sinto muito entusiasmo em ouvir esse tipo de música. Está um tanto aquém da minha benevolência/paciência


Ainda existe ideologia na música brasileira?
Infelizmente, somos vampirizados pela ideologia. Enquanto houver ideologia não vai haver poesia.


E quem são alguns dos artistas da música brasileira que você gosta de ouvir hoje?
Hamilton de Hollanda, Yamandú Costa, Cachorro Grande, Réu & Condenado, Vanguart


Em seu livro você se posiciona contra a política de cotas raciais nas universidades, bem como nos projetos do Ministério da Cultura. Escreve “Será que ninguém enxerga que ao tomar essas medidas não haverá a tal reparação histórica aos negros e índios, pois, na verdade, todos temos sangue negro, índio e europeu.” Haveria, na sua opinião, alguma forma mais bem sucedida de fazer esta “tal reparação histórica”? Aliás, esta reparação é necessária?
Reparação histórica já é um conceito dos mais idiotas. Quem pensa assim já está comendo cocô.


Seu livro provocou críticas de setores de esquerda, de setores ligados ao hip-hop, dos sertanejos universitários, entre outros. Faltou senso de humor aos leitores, como já li em declarações suas, ou falta habilidade em lidar com opiniões contundentes e contrárias?
Haveremos de ressaltar que esses grupos são meus alvos preferidos e, se, por acaso agissem de modo diferente, seria eu maluco. Por um lado, felizmente, eles corresponderam às minhas expectativas. Quem dera estivesse eu errado.


Vivemos na era da hiperinformação, mas, é impressão minha ou está mais difícil hoje se manter um debate intelectual no Brasil?
Não existe debate: existe patrulha e difamação.


Lobão músico, Lobão escritor, Lobão apresentador, Lobão colunista. Em qual destas atividades, a pessoa João Luiz Woerdenbag Filho se sente mais feliz?
Me sinto feliz praticando todas elas, pois eu sou integralmente Eu em todas e todas me representam, com todo meu orgulho e paixão. Como poderia ser diferente?