24 maio 2002

De peitinhos e outras coisas

Há que se ter toda um misânscene (é assim que se escreve? Eu tinha um professor de português que vivia falando isso mas nunca escreveu. Eu nunca mais ouvi ninguém falar além de diretores gays de teatro.) e um ritual muito dissimulado para se encarar os peitos de uma menina sem que ela perceba e acabe achando que você é um louco tarado, ou se envaideça demasiadamente, e acabe achando que é a rainha da cocada preta, a gostosa da hora e acabe nunca dando para você. Não que necessariamente seja esta a sua intenção quando você encara os peitos da menina – a de comê-la. Mas, se isto vier como conseqüência daquela encarada (por um motivo que eu não faço a mínima idéia qual será... Vai ver ela tem fixação por caras que tem fixação por fixar os olhos em seus peitos...), você não vai achar nem um pouco ruim, vai? Quer dizer, ainda existe a possibilidade de você ser bicha e estar dando aquela encarada de cobiça, tipo “um dia conquistarei um par igual”, ou coisa do gênero. Mas, se nenhuma das questões for a que se refere ao seu caso, e você estiver dando aquela olhada informal, com aquela naturalidade de quem se espreguiça depois de dormir no ônibus, e você já for um dominador da arte de encarar os peitos alheios, fique certo que tudo passará despercebido e ninguém ficará traumatizado. Falar em dar uma olhadela com naturalidade é meio perigoso, por que parece que depois que você adquire o hábito, a coisa acaba ficando meio viciante, e, que eu saiba, nenhum vício é natural. Porém, se dentro deste vício você adquire o manejo da coisa, aquela olhada meio de esgüela, que consegue capturar a intensidade da coisa e até ilustrar mais detalhadamente seus sonhos masturbatórios, novamente insisto que ninguém ficará traumatizado. Mas só se a coisa se manter por aí, porque assim que chegar o ponto em que o troço começar a criar contornos compulsivos, psicóticos, até, eu diria, e você se arriscar a olhadas em momentos totalmente indevidos – tipo quando você está com sua guria, ou a observada em questão estiver com o guri dela - , aí eu aconselho a procurar algum tipo de tratamento. Porque o negócio tá ali: volumoso, bicudinho, saltadinho, levantadinho, com mamilos suplicantes por liberdade ou por uma chupadinha, e, bem... O negócio tá ali, né? Como resistir àquela olhadinha, àquela verificada, àquela comparada com os outros? Complicado? Não, só peitos.

Adagobaldo Gerenciano


De Cauê a satanismos internéticos

A Internet, todos sabemos, é uma coisa muito interessante, muito útil, mas é lógico que com ela, uma porção de porcaria e más intenções vieram na cola. Entre outras coisas, ela realizou o sonho dos fofoqueiros e boateiros de plantão, disseminando com uma capacidade alucinante uma série de histórias estapafúrdias e desconexas, unindo pessoas tão díspares, e apresentando como fato comprovado em fontes, uma relação de lendas que, a cada dia que passa, ganha proporções maiores e mais criativas. Quem, volta e meia, não recebe um e-mail, muitas vezes enviada por aquele seu amigo chato que vive lhe mandando pornografia e outras fotos extremamente constrangedoras para se abrir no serviço? É só aparecer aquela extensão .jpg no final do arquivo para você já ficar com uma pulga atrás da orelha, não é verdade? Pois junto com estas pragas virtuais e toda sorte de baboseiras que agora são espalhadas como água, com a facilidade de um clique em “Encaminhar”, você recebe aqueles e-mails longos pra danar, com uma lista de endereços maior que o nariz do Marcos Mion, e, realmente, fica cabreiro de abrir, não fica? Mas é aquela coisa, hora do almoço, verificando uns e-mailzinhos, você dá aquela verificada para não ficar com remorso de apagar tudo sem antes dar uma conferida. Tudo bem que você não é mais tonto, já está prevenido e nem abre mais aqueles e-mails cujo título são “Branca de Neve Pornô!! AH!AH!AH”, ou “Britney Spears Nua!”, mas volta e meia recebe algo que, mesmo não sendo um vírus, lhe faz perder um tempo dos diabos, mas você, sem saber direito porque razão, continua baixando a barra de rolamento do seu navegador, na certa só para ver onde aquilo vai dar. E muitas vezes, para sua, para nossa infelicidade, dá naquelas malditas correntes, naqueles pedidos emocionados para ajudar o Cauê, que está com água no cérebro, com mijo na pleura, ou então dá naquilo que eu considero uma das pragas mais recente, e ao qual eu denomino Lenda Urbana. É, pura e simplesmente, o ato de envolver pessoas ilustres (?), bem, ao menos conhecidas, seja culturalmente, artistas, esportistas, apresentadores, cantores, donos de empresas, entre outros, em histórias estapafúrdias, sem pé nem cabeça, mas cheia de referências que lhe fazem pensar: “e se for verdade? Puta merda!”. Dia desses, recebi um e-mail-apelo. Simplesmente dizia que o dono da empresa Practer&Gamble, que fabrica uma porrada de coisas, tais como fraldas, aquelas batatas pringles, absorventes, sabonetes, barbeadores, xampus seda, entre outros, em uma declaração para o programa de (e aí vai o nome de um apresentador americano, que eu não lembro o nome, mas algo na linha de David Letterman e seus adjacentes), disse que toda a rentabilidade de sua empresa era dirigida para manter uma empresa satânica, da qual era fiel seguidor e um dos principais contribuintes. Bem, eu fui lendo aquele troço, desde já com um sorriso na cara, tal era a dramaticidade da carta, e a seriedade do apelo, para não comprarmos mais os produtos do cara, porque – uma das coisas que o cara dizia na entrevista – ele tinha a crença de que nenhum tipo de complô poderia ser feito contra ele porque não existiam cristãos em grande número para embargá-lo ou nenhum tipo de pessoa que poderia ameaçar a existência e manutenção de suas crenças satânicas, e que, portanto, ele continuaria tendo seus produtos comprados e, consequentemente, sustentando seu templo do capeta. Aí, eu terminei de ler aquilo me rindo todo, mas tive a seriedade e o trabalho de mandar um e-mail pra pessoa que me mandou aquilo, perguntando quais eram as fontes, se ela podia me dizer em qual canal, e qual programa, especificamente, em qual data, haviam sido dadas tais declarações. Temos que investigar, eu dizia, tentando encontrar uma falsa seriedade pra essa praga que cresce assustadoramente nestes dias, e da qual a próxima vítima pode ser qualquer pessoa, inclusive você! Mas a Internet é bacana. Se utilizada por alguém esperto, pode suscitar os mais demorados e bem engendrados episódios de enganação em massa. Lançar fatos esdrúxulos como verdades irrefutáveis, dúvidas incoerentes e pulgas atrás da orelha, é um bom brinquedo para os desocupados ou “criativos” de plantão. Eu tenho um amigo que vive querendo lançar uma polêmica e acha que a Internet vai ser um terreno fértil para isto. Sabe, tipo aquela frase que andou um bom tempo colada em adesivos de carros “Quem é John (alguma coisa)?”. Pois é, algo do tipo. Que eu me lembre, aquela frase não levava a lugar nenhum, mas houveram especulações mil, em rádio, em sites... Gente dizendo que o tal John era um desbravador da idade média, ou um mercador feroz do tempo das cruzadas, coisas assim. Mas este meu amigo, quer algo para lucrar facilmente. Deixar as pessoas intrigadas e, tipo depois lançar um produto ou um serviço no mercado, tendo o respaldo do conhecimento e da atitude de intriga das pessoas. Eu dou corda para ele, faço umas sugestões. Isso vai de tempos. Acho que um dia ele terá uma idéia avassaladora. Ou se cansa disso, e vai tratar da vida.




De privadas e privacidades devassadas

Uma vez que a moda da vez definitivamente mostrou-se ser a invasão da privacidade do próximo, talvez tenhamos também chegado a ponto de pensarmos em até que ponto queremos assistir aos hábitos cotidianos daquele ser estranho da casa ao lado, e até que ponto está nos sendo imposto tal comportamento tido, cada vez mais como normal e absolutamente saudável. Bem, mais saudável ainda seria eu refazer a primeira frase deste texto: Uma vez que a moda da vez definitivamente mostrou-se ser a exibição da própria intimidade a todos que estiverem dispostos a assistir – e, em algumas vezes, até a pagar por isto! – chegamos ao ponto crucial em que nos perguntamos o que mais espera-nos à frente. Se, entre tantos modismos, que têm levado à tona o que há de mais instintivo e animal no comportamento humano, têm-se, catalograficamente, enfileirado-os um a um, e feito deles as modas que se intercalam verão a verão, é bom que estejamos preparados para que as mais cruéis devassidões ou coisas tidas como imorais por nós sejam postas à tona. E, mais uma vez, falar-se-á “que saudável é isto”?, assim como se está sendo dito pelos intelectualóides e pseudopsicanalistas de plantão, que, categoricamente, batem palmas e fazem odes ao “saudável” hábito de expor a sua intimidade, que vem tomando conta desde os mais recônditos sites de Internet até a maior de todas as redes de comunicação do país e do mundo. É interessante fazer uma análise do quanto a diversão – que, sabemos – na maioria das vezes é segmentada em classes A, B, C e D, tem-se igualado em todos os meios, populares e elitistas, no que diz respeito à esta nova febre nos reality shows. Lançado nos mais inóspitos meios voyeurs, tal tendência à, digamos assim, estrelização da vida do mais comum ser humano, tomou contornos abissais e, hoje, vemos tomadas até as emissoras de maior poder aquisitivo e, presumivelmente, com mais possibilidade de criação de entretenimentos inéditos e diversificados. No entanto, todos se rendem à magnitude da possibilidade de, tal qual George Orwell prognosticou em 1984, sermos os Big Brothers, senhores onipresentes e todo-poderosos, dotados de poder para acompanharmos e interferirmos na vida de um ser que nem sabe de nossa existência e, se sabe, faz propaganda para que torçamos por ele! (“Ei, olha eu aqui!”). Todos nós – afinal, somos nós que, somados, damos audiência aos meios de comunicação, não é mesmo? -, nos juntamos e aplaudimos a possibilidade de nos sentarmos frente à televisão, ao computador e, quem sabe o futuro não nos revele os reality shows radiofônicos, também, em que, congratularemos com os donos das vozes mais agradáveis e enviaremos ao limbo os roucos, os fanhos, os gagos, os tatibitates e toda a corja de infelizes não dotados de perfeição vocal? Não é assim que funcionam estes “shows da vida real” que os meios nos oferecem? No final das contas, não são os mais fortes, os mais bonitos, os mais “descolados” aqueles que nos conquistam e a nossos votos – numa participação que querem tornar cada vez mais interativa: interatividade também é a palavra do momento! -, numa busca absurda por querermos ao menos vislumbrar (nem que seja televisivamente...), os “melhores”, afinal, não somos rodeados por eles, não é?, mas gostamos deles, não gostamos? Eles não são os melhores, melhor que o nosso chefe gordo, nossa tia doente mental?
Numa busca absurda de um sentido para a vida excessivamente normal e entediante que levamos, nos rendemos às aventuras inóspitas do herói da tela azulada e fazemos dele o aríete com o qual nos espelhamos e fugimos, ao menos por alguns instantes, da normalidade do nosso dia-a-dia. Tudo bem, aprofundei-me de maneira excessiva no comentário, mas, antes que julguemos normal demais tudo o que vem acontecendo, é, sim, um pouco assustador, se nos lembrarmos de todos os comentários contrários que sempre surgiam à qualquer simulação de vida real, desde os tempos do videogame. Por que, no final das contas, o que gera o interesse na vida do outro: ele é diferente, ele faz diferente. Eu quero ver como ele faz, eu quero me sentir como ele fazendo, eu quero estar no seu lugar, o que, no final das contas, acaba acarretando, sim, uma simulação do que eu não posso fazer, então, eu vou simular, como se eu estivesse no lugar dele, levando a vida dele, simulando ser ele. E caímos na simulação.
Se fossemos perseguicionistas e acreditássemos que tudo isto é um grande complô elaborado por uma organização acima de nossa compreensão, acharíamos que tudo isto está profundamente intercalado. Gradativamente, todos os entretenimentos, todas as distrações, estão tendendo para o vislumbre do que não é a minha vida na realidade. Quero devassar a privacidade daquela menininha pelada que se oferece em um site através de uma web cam, quero ver como aquela gorda levanta a tampa da privada, quero que todas as câmeras foquem a vida do Supla na Casa dos Artistas para eu saber como é que é. A minha vida não tem mais graça, logo, busco lá fora uma simulação de vida mais estimulante para me despertar desta modorra. Pode ser através daquele cara divertido que construí através do jogo de simulação, sucesso absoluto The Sims, seja através daquele cara divertido que eu gostaria de ser que participa do programa Big Brother, que, aliás, já vai começar e eu não posso perder...


De telefonemas e agonias

Se fosse tudo uma questão de se manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo, talvez eu não ficasse tão atucanado cada vez que ela demorasse um dia inteiro para me ligar. Ainda que houvesse mil pedidos de desculpas, mil motivos extremamente justificáveis para o seu telefonema ter demorado a vir, eu já havia sofrido por antemão. E é como diz o velho ditado: a flecha lançada, a palavra falada e o leite derramado são irreversíveis: o estrago já estava feito. Muito embora, eu também pudesse me dar conta, conscientemente, desta minha característica extremamente insegura e ciumenta, e já me mantivesse mais ou menos calmo, sem me desesperar ou aparentar aquele nervosismo pulsante que, então, me caracteriza cada vez que ocorre esta demora. Mas o que fazer? Dizem que só se vive verdadeiramente quando nos apaixonamos de verdade, e, se apaixonar-se é doar-se totalmente, doar-se é não ter medo de ter ciúme, ou vergonha disto, nem ter vergonha de achar que seu dia não foi suficientemente feliz por que o telefone dela não veio. Tudo bem, sei que nossa felicidade não deve estar nas mãos de uma pessoa, e que não devemos achar que somente esta pessoa poderá nos fazer feliz, mas a verdade também é que é inegável que sempre há alguma pessoa que dá uma grande contribuição para a nossa felicidade. Esta pessoa (ou estas, no caso dos insaciáveis ou adeptos do ménage à troá, à quatre, à cinq...) normalmente se diversifica de acordo com nossa idade, afinal, com algumas variáveis, durante toda a infância, e começo de nossa adolescência, nossos pais são perfeitos e nos bastam, e nada mais do que seu amor é preciso para nos fazer feliz. Vide aqueles que não são filhos únicos, a disputa constante do carinho e atenção de nossos progenitores sempre ocupou grande parte de nossas manhãs, tardes e noites, em um espaço entre o lanche com toddy (porque você o serviu primeiro?) e o jogo de videogame. E o beijo da mãe que não vinha, ou presente do pai para o irmão ocuparam nossas imberbes noites de tristeza, na certeza de que não éramos mais amados ou que éramos menos que o nosso irmão. No decorrer da vida, essa necessidade do amor de outrem continua se mantendo e só muda de personagem, quase sempre acabando por se depositar naquele ente que – no momento, ou eternamente – escolhemos para apossar-se de nosso coração. E quem escolhe? Eu nunca escolhi. A coisa sempre fluiu ao natural, de uma maneira ou outra, e, quando vimos, já nos tornamos escravos sentimentais daquela guria – ou daquele guri – com quem trocamos beijos, abraços e outras intimidades, conforme o tempo passa, e conforme mais desta pessoa nos sentimos. E, se julgamos esta pessoa fiel depositária de nossos sentimentos, também nos julgamos no direito de sentirmo-nos protegidos, assegurados e seguros, e, se para sentir isto, é o seu telefonema que nos completará, nada mais justo do que esperar ansiosos por ele. Mas ele não vem. E quem foi que disse que viver é fácil?



De imoralidades e pornografias

Quando um colega meu me disse que achava meus contos meio indecentes, ou algo depravados, a princípio eu meio que me ofendi, mas em seguida até que relevei – é verdade que existe a agravante dele ser evangélico (e nenhum preconceito a isto, é lógico), e eu mesmo sou católico, até pouco tempo participante de grupos de jovens, e isto acabou fazendo com que eu acabasse não dando extrema importância aos seus comentários, sabendo daquela busca eterna pela extrema moral que os caracteriza. Mas, dito isto, devo me considerar imoral e consciente desta realidade? Não. A verdade, é que, realmente, muitas vezes me debato, até, a respeito disto. Se meus contos são imorais, propagadores de uma promiscuidade literária barata, incentivador de orgias mil e descrevem surubas intermináveis. No entanto, fazendo-se uma análise da “minha obra”, e observando os meandros e características da mesma, a sexualidade que ali aparece para mim é extremamente natural, e não fruto de uma procura por ela. Os momentos, as intenções, os pensamentos, não propagam aquele erotismo de boteco, aquela descrição acintosamente vulgar e feita para excitar. Se muitas vezes excitam, fazem parte de um processo conseqüente que rege os desejos e fantasias de cada leitor, ou o personagem, como espelho destes. Sim, espelho. Porque a procura é por uma literatura, na maioria das vezes, honesta, representativa das minhas vivências, dos meus pensamentos, e dos pensamentos dos que me cercam. Embora, nem sempre seja assim. Lógico que há a ficção pela ficção, o fato inusitado, o nada comigo, senão não seria literatura. Se há imoralidade no ser humano ser sexual, ter desejos e devaneios, fantasias e elucubrações íntimas, então sim, há imoralidade nos meus contos. Se não, até que se prove o contrário, sou um mero coadjuvante neste circo de cinismo que nos envolve, onde vemos nações como os Estados Unidos, por exemplo, que, com certeza, é o maior exportador de pornografia do mundo, ter atitudes extremamente hipócritas como aquele julgamento de Larry Flint, dono da mundialmente famosa revista “Hustler”, e que pudemos ver no filme “O Povo Contra Larry Flint”. É lógico que a nudez de açougue, a baixaria de borracharia, isto é chocante, se caracteriza como pornografia, e deve estar relegado ao seu nível, que, reconheçamos todos, é abaixo do aceitável para convivência social. Agora, nos depararmos com nossos anseios, com nossos desejos, com nossas vivências, e, de forma não propagandeada, mas naturalmente discutida, utilizar desta como forma de arte e expressão do que somos e do que queremos, acho que isto está longe de ser imoral.



De pelados e apelações

Sim, o debate da hora. “Casa dos Artistas”, “No Limite”, “Big Brother” e toda esta panelada de programas que espionam a vida alheia e que resolveram se intercalar, um após os outros, e outro sucedendo o um em nossos canais abertos de televisão. Daí, chamam-se sociólogos, filósofos, estudantes do comportamento humano e da vida em sociedade, e se caem em debates eternos sobre o porquê deste sentimento voyeur que insiste em nos perseguir. Elucubrações as mais disparatadas são colocadas em discussão, psicólogos tecem importantes estudos – e sérios! – acerca do assunto, e chega-se à mesma conclusão: a curiosidade pelo outro é o que nos move a dar numerosos pontos no ibope à programas como este. Ou a curiosidade pelo novo – no caso, o programa em questão – que acaba divergindo, e tornando menos maçante o já tedioso costume do povo pelas eternas telenovelas. Foge à nossa discussão se um apresenta o formato copiado do programa americano, que já tinha tido seus direitos comprados pela emissora concorrente. Isto não interessa. Ou, se interessa, é mais a longo prazo, e importa mais àqueles financeiramente envolvidos, do que à pobre massa que só quer se divertir. Mas, divertir-se à que custa? À custa de se ver Nana Gouveia de fio dental tomando banho e dançando a dança da bundinha? À custa de conferir os adjetivos extremamente diversificados com que nos brinda Alexandre Frota para definir seus companheiros de competição? Tudo isto é obra de ignorantes, divertimento deste tipo é para iletrados, pessoas de parca formação e poucos recursos, que não tem acesso à uma Net, ou Sky da vida? Bom, mais uma vez, acho que entramos em outro terreno, muito mais pantanoso do que o anterior. A seleção do que o vemos e até que ponto isto é considerado baixaria, entretenimento ou incentivo cultural. Claro que devemos, e podemos discutir sobre isto, mas aí nos aprofundaremos tremendamente e entraremos em registros históricos, para comprovar se estes programas são uma sadia observação do comportamento humano em situações enclausurantes na vida em grupo, ou se tudo o que vemos não passam de são orgias e dancinhas eróticas para animar nossos instintos libidinosos. Vale a pena comparar esta busca insana da observação de outrem com clássicos passados, em que se mostra que sempre interessou à sociedade acompanhar uma ou outra forma de competição não ortodoxa da busca de pessoas comuns por prêmios através das mais insanas provações. Nos lembremos das provas que foram moda nos Estados Unidos, na década de 50, após o crack da bolsa de valores, em que pessoas dispunham-se a passar dias seguidos dançando sem parar em troca de prêmios parcos, e que ensandeciam platéias em um país dito de primeiro mundo. O assunto foi motivador do ótimo filme “A Noite dos Desesperados”, e serve intensamente como elemento comparativo para o que vemos hoje. Poderíamos nos estender indefinidamente sobre o quanto, cada vez mais, a televisão – não só a brasileira, é bom que se deixe claro, afim de não nos transformarmos em párias selvagens terceiro-mundistas – vem apresentando programas que são passíveis de discussão quanto à qualidade que apresentam, mas, daí a nos darmos conta do quanto o mundo está virado num “que isso?”, seria um passo. Por tanto, por enquanto é melhor não mexer com as cobras, e, sorrateiramente, observar se o que vem por aí é ainda pior – sempre existirá a TV Cultura e seus programas de altíssima qualidade. E se vier, é acreditar no meu tio Adagobaldo, que disse que o mundo já acabou e nós nem percebemos. Ainda.


D - O quê?

Stallone desperta um certo sentimento de “este cara persiste!” – se é que este sentimento, assim especificado, realmente existe. A verdade é que, talvez ciente do fato de que - ao menos para ele, porque sempre haverá os eternos heróis de ocasião! - a fórmula do filme porrada-e-pouco-cérebro vem se esgotando, Silvester Stallone vem, filme após filme, tentando se estabelecer naquele meio-termo que costuma tomar os antigos atores de filme “de ação”. Descontando Schwarzenegger, que não toma vergonha na cara, e, mesmo com cem anos de idade, continuará a achar que pode salvar os Estados Unidos inteiro dando porrada, as evidências estão claríssimas, para mostrar nomes como Bruce Willis que resolveu finalmente admitir a calvície, e, entre uma peruquinha e outra, parece ter desistido de seus “Die Hard” e sapeca seu público, que continua bastante fiel, com filmes meia-boca como “Vida Bandida”. Atores como Kurt Russel, ex-herói de filmes de relativo sucesso como “Aventureiros do Bairro Proibido” e “Tango & Cash – Os Vingadores”, com o Sly a quem estamos nos referindo, hoje pode ser visto fazendo papel para pagar a mensalidade do colégio das crianças, como sua atuação em “Vanilla Sky”. A lista pode se alongar, se nos dermos conta de que, os outrora salvadores do mundo, hoje, ou descambaram para o ostracismo completo ou se renderam a outros tipos de personagem, deixando, de certa forma, acabado o filão de filmes de ação tão amados pelos senhores barrigudos de meia idade.
E neste time de fortões, por onde transitaram nomes tão surreais como Chuck Norris, Dolph Lundgren e Michael Dudikoff (quem não se lembra de “American Ninja” e outras pérolas do porte?), com aquela brecha amiga para o Charles Bronson: o homem que não morre, Silvester Stallone sempre fez parte do primeiro escalão, a ponto de identificarmos esta nata dos filmes arrasa-quarteirão, como sendo composta pelos donos da rede de restaurantes Planet Hollywood, que, junto com Stallone, são Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger e Demi Moore de brinde. Pois Stallone parece ter feito tudo o que podia, extravasado ao máximo o gênero, e assim como seus colegas brincado com fracassos nas tentativas insanas de comédia (“Oscar – Minha Filha quer Casar!” e “Pare! Senão Mamãe Atira”), até encontrar um posto mais ou menos seguro neste gênero de filme meio inclassificável, mas quase sempre tendo como personagem central um ex-tira ou um ex-detetive ou um ex-fuzilheiro naval, com grande sede de vingança. Encarnou até mesmo um ex-piloto de corridas, em “Alta Velocidade”, e agora, depois do incomentável “O Implacável”, esmagado pela crítica a não mais poder, e ostentando em seu currículo de ator nove honrosos prêmios Framboesas de Ouro de Pior Ator, ao longo de vinte e duas indicações, eis que nos surge novamente, Silvester Stallone disposto a reencontrar seu lugar ao sol no seu mais novo filme “D-Tox”, em cartaz em um cinema perto de você.
Não sei se o que me moveu a assistir o filme, primeiramente, foi aquele copioso sentimento de “este cara persiste!”, a que me referi no primeiro páragrafo, ou se foi a profunda inquietação que me causou o título deste filme, que me remete a algo tipo “T-Rex”. Mas não se assustem: o filme não traz nada parecido com dinossauros (a não ser o próprio Stallone, é claro, com a cara pedindo uma massa corrida de tantas veias e olheiras que disputam lugar com seus olhos e boca), pelo contrário, pois, um tanto querendo se livrar do estereótipo de herói que não pensa, Silvester Stallone faz o possível para interpretar com inteligência neste filme (tudo bem se a única referência literária que seu personagem faz o filme inteiro é sobre “Cosmopolitan”, a “Nova” dos gringos, mas o rapaz é esforçado!) e no começo faz até o tipo romântico, apaixonado por sua namorada, e vivendo o dilema do policial que vê seus colegas serem mortos por um assassino de tiras à solta. Quando o serial killer resolve pôr fim à namorada de Stallone, também, vemos o máximo de esforço deste, chorando desesperadamente aos pés de sua amada que jaz pendurada no teto. Pena que, daí por diante, presumimos no que Stallone se tornará: um ex-homem feliz com grande sede de vingança! E é por aí que embarcamos. Não de maneira frugal, no entanto, pois Stallone exigiu complexidade no roteiro, e o que temos é um homem atormentado, com olhos de quem não dorme há séculos e mais mergulhado na bebida do que butiá em cachaça de bar. Atendendo ao pedido de um amigo, resolve internar-se em uma clínica nada ortodoxa do meio do nada, cercada de neve, especializada na desintoxicação de policiais alcoólatras. Parecendo um daqueles lugares típicos de filme de terror, onde os personagens parecem pedir para serem trucidados pela serra elétrica de um assassino insano, é um tanto quanto óbvio que alguma coisa muito desagradável irá acontecer naquele lugar tão ermo, gelado e cheio de tipos esquisitos. Robert Patrick dá o ar de sua graça como um agente da Swat maluco de pedra, e Tom “Invasão de Privacidade” Berenger é a mesma coisa de sempre, interpretando um sinistro funcionário da clínica. No meio do nada, as mortes dos policiais internados, travestidas de suicídios, recomeçam, e fica claro que, naquele lugar esquisito, um velho amigo de Sly resolveu aparecer e, no meio daquele bando de tiras sórdidos, fica o mistério de descobrir o matador de policiais infiltrado como lobo em pele de cordeiro. Stallone é um cara que persiste! Se você não espera intrincados dilemas psicológicos interpretações dignas do Oscar e outras mumunhas mais, desce fácil, fácil com pipoca e refrigerante. Eu recomendo. Vale ao menos para tentar descobrir o porquê do título.