09 outubro 2002

Coletivo

A mulher dormia ao meu lado e já começava a me incomodar a grossa baba que escorria pelo canto de sua boca. Traçando itinerário por sobre a pele enrugada, descia pelo pescoço até encontrar morredouro na correntinha de plaquê de Santa Edwiges que pendia em seu pescoço. Eu me dividia entre olhar com o famoso canto do olho à cena que me remetia aos princípios de escrotidão que eu tantas vezes exaltara, e entre encarar compadecido o chiclete mastigado de muitos carnavais passados grudado no assento do banco da frente.

Naquelas penosas viagens de ônibus a que era submetido freqüentemente na rotina suburbana, pêgo de calças curtas sem um livro ou distração que me acrescentasse algum valor cultural àquele demorado itinerário que eu fazia diariamente de coletivo, ou que ao menos me ocupasse momentaneamente, me via naquela quase inconsciente sessão de passadas de olhos por sobre os tipos que julgava mais estranhos que eu e que compõem esta interessante fauna que formam os passageiros de ônibus.

Gradativamente, a mulher começou a inclinar-se num ângulo que tendia para o meu lado a cada vez que o ônibus fazia uma curva. Isto aconteceu umas três vezes. De uma maneira não brusca, eu fazia-a voltar para seu lugar, mas, ainda assim, em um empurrão um pouco mais vigoroso, ela abriu os olhos embaçados, e, entre dentes solitários perdidos em uma boca um tanto grande para tão poucos, regurgitou uma mistura de queijo e mortadela com cachaça, e perguntou-me, solenemente “porque você não vai à puta que te pariu?”. Neste momento, acontecendo o que eu mais temia – ser o centro das atenções – todos os olhares se voltaram em nossa direção e, em meio à risos abafados e murmúrios de “...aquela velha bêbada...”, eu ainda balbuciei “mas a senhora está caindo por cima de mim...”. Sem pestanejar, naquela certeza típica dos ébrios (“te considero...”) ela volveu uma contra-argumentação: “E daí, teu corpinho é de ouro? Não pode tocar, não?”. Na falta de possibilidades de rebate, reduzi-me à minha insignificância sóbria. Não voltando a apresentar justificativas para aquele ato tão violento que eu tive ao empurrá-la de volta para seu lugar, e que lhe despertara tamanha animosidade, voltei os olhos à minha volta à procura de um lugar alternativo onde me sentar. Mas, eis que, como que senhora dos meus pensamentos, voltei a ser obrigado a ouvir a magia da constatação da amiga dos destilados: “Quer sair daqui? Tou te incomodando?”. Naquele quase estado de catarse que os poucos segundos encarando seus olhos baços me proporcionaram, consegui indagar-me de como era possível os olhos de uma pessoa chegar a um estado tal de vermelhidão e falta total de brilho. Nestes poucos instantes que pude contemplá-la na imensidão de seus olhos embaçados, procurei, por um átimo de tempo, alguma resposta às questões mais profundas formuladas pelo universo. Mas quem parecia querer uma resposta, e rapidamente, era ela, que não cansava de inquirir-me, não aceitando a indiferença e o silêncio como resposta, àquela questão que, talvez, viesse mudar sua vida, ou livrá-la de algum possível complexo de inferioridade: “Hein?! Tou te incomodando? Porque se eu tiver, tu me avisa e eu saio daqui...”. Cheia de cinismo e daquela malandragem típica de quem está acostumada a viver no meio de celebridades da vida marginal, ainda me era possível tentar aceitar em silêncio a hipocrisia de sua dita predisposição em retirar-se dali caso eu a fizesse crer que me estava incomodando. Era ainda aceitável tal falsidade. No entanto, quando, ao final da frase, ela emitiu a mais bizarra, a mais nojenta, a mais grotesca e a mais escrota de todas as gargalhadas, naquele gorgolejar entremeado do farfalhar gosmento do catarro a sacudir-se em suas cordas vocais, eu não consegui me segurar e, agarrando-me àquela maçaroca que formava seu cabelo, bati com sua cabeça de encontro ao vidro da janela, uma, duas, três, quatro vezes. Todos os fiéis espectadores daquele embate psicológico que até então se formara, e que continuavam a encarar-nos, querendo, obviamente, algum tipo de reação da minha parte, arregalaram os olhos diante daquela reação, a meu ver, por eles pouco esperada. De todos os que se levantaram para conter meu ímpeto assassino, que continuava me motivando a bater com violência sua cabeça repetidas vezes de encontro ao vidro, molhando de vermelho aquela maçaroca acinzentada à qual eu prendia meu dedos, creio que cinco foram suficientes para, por fim, agarrar-me e, deixando o corpo da velha sem vida por sobre o banco de fibra, arrastar-me até o chão do ônibus e encher a minha cara de porrada até que eu perdesse totalmente a consciência.