09 outubro 2002

descoberta tardia nº 02


Tim Maia Racional. Não, não me julgem apressadamente. Não foi simplesmente um belo dia a garimpar vinis antigos em alguma recôndita loja de discos na Borges de Medeiros que me dei conta deste clássico absoluto. Até porque, se eu tivesse a sorte de encontrar essas preciosidades, no simples passar de dedos entre os sebos vinílicos do centro de Porto Alegre, eu seria o sujeito mais bem-aventurado do mundo, afinal, é simplesmente impossível encontrar tais obras, a não ser através de colecionadores das antigas, que, com certeza, perdem o braço, mas não vendem os discos.


Para quem não sabe o que vem a ser Tim Maia Racional, o lance é mais ou menos o seguinte: é sabido que o velho Tim sempre levou uma vida de excessos, em que sexo, drogas, brigas e curtição eram rotina. Fez tudo que deu na telha, viveu do jeito que quis, e morreu em conseqüência das inúmeras baladas que participou [e de muitas carreiras que cheirou]. Uma vida inconstante, marcada por culpas e desculpas, namoros firmes com as paradas de sucesso e momentos de puro esquecimento artístico. Suas lendárias reclamações ao microfone [retorno, porra!] e uma agenda não cumprida religiosamente eram apenas os sintomas superficiais de sua vida no limite. Mas por um momento em sua carreira, ele tentou se redimir. De verdade.


"Já rodei o mundo quase mudo / No entanto num segundo este livro veio à mão", canta em Bom Senso, a primeira faixa do mitológico Tim Maia Racional a citar nominalmente sua conversão. "Já senti saudade/ Já fiz muita coisa errada/ Já dormi na rua/ Já pedi ajuda/ Mas lendo atingi o bom senso: a Imunização Racional". Ele conta sua própria história sobre um funk progressivo pesado, aquele caldo grosso que os americanos chamam de deep funk. Com sua voz conduzindo uma orquestra soul perfeita (metais, cordas, guitarras, baixão, bateraço, backing vocals perfeitos, tecladaços), ele explica sua nova fase.


Os discos, que são dois, Tim Maia Racional Volume 1 e Volume 2, lançados em 1974, marcava o início da relação de Tim Maia com a Cultura Racional. Como o próprio Tim explica no decorrer dos dois volumes de Tim Maia Racional, a Cultura Racional não é uma seita ou uma religião ou uma doutrina ou qualquer coisa do tipo. Ela diz-se "a verdadeira verdade, a luz da humanidade", a explicação para todas as perguntas da existência nos apresentados por uma força sobrenatural chamada de Racional Superior através de uma coleção de livros chamada Universo em Desencanto. Aos poucos, você fica sabendo de toda explicação para tudo, segundo a Cultura.


O disco marca o contato de Tim com ele mesmo. Ele deixa os modismos e rádio de lado e entra em contato com o fundo de sua alma, buscando, sem máscaras, a essência da black music. Lançado de forma independente, o disco saiu pela primeira gravadora de Maia, a Seroma (as primeiras sílabas de seu nome, Sebastião Rodrigues Maia), e nunca mais foi relançado após Tim se afastar da Cultura Racional. Por seu tão direto, um disco pastor, pregador, ele não foi assimilado em sua época, sendo resgatado nos últimos anos e tendo, finalmente, sua importância reconhecida. Lançado em duas partes, o disco pode ser pensado como um álbum duplo, devido a todo o conceito musical e imaginário que compõe o material. Suas capas e contracapas são reproduções de gráficos contidos no livro Universo em Desencanto, explicando as diversas fases da humanidade, todas indo no rumo da fase racional.


Ele abre o disco Vol. 1com Imunização Racional, em que ele canta a "beleza que é sentir a natureza/ ter certeza pra onde vai e de onde vem/ (...) que beleza é saber seu nome/ sua origem, seu passado e seu futuro", que também foi sucesso na voz de Gal Costa. Quase um reggae, é pontuado por um sinuoso baixo funky, entrecortado por uma guitarra wah-wah tímida, flautas e excelentes backing vocals, puxados pelo próprio Tim.


Bom, não dá para descrever cada música, afinal são 09 em cada disco, mas são considerados, por admiradores de Tim, e pessoas extremamente entendidas do assunto, como, se não o seu melhor trabalho, como um dos melhores, com certeza, pelo resgate absoluto que Tim Maia empreendeu de bases de raiz da black music, sendo claro e conciso em suas levadas funk e groove, bem como influências africanas e bases reggae de uma qualidade impecável. Independente de suas preocupações proselitistas e, poderíamos dizer evangélicas [afinal, o Universo em Desencanto, o livro, deveria ser, para eles, uma boa nova], é sabido hoje que, são discos de extrema virtuosidade e tornaram-se lenda até por esta fase tão insólita na vida de Tim Maia. Afinal, logo que ele se desencantou com a seita, retirou todos os discos do mercado, por isso a dificuldade em encontrá-los.

esta não é a capa do disco

esta também não é

mas são duas capas bacanas.





é. eu não consegui a imagem de nenhum dos dois discos. escusas.