17 outubro 2002

Eram umas três ou quatro as putinhas que ficavam rindo. Rindo com as latinhas de energéticos na mão como se estivessem por cima da carne seca. Olhavam a gente com visível ar de superioridade, menosprezando-nos como se nós fôssemos uns nerds otários que não freqüentassem estas porras de lugarzinhos da moda, de vez em quando, atrás destas patis de merda que ficam rindo da gente. Rindo com as latinhas de energéticos na mão como se estivessem por cima da carne seca. Seja lá a que bosta de carne seca nós estejamos nos referindo. Era risadinhas sardônicas, depositadas naquele ínfimio limite que separa a tentativa de charme da classe que se sente privilegiada por natureza, do sarcasmo absoluto que antecipa expressões ainda mais violentas de desprezo. Pouco caso não é possível dizer que fizessem, pois então nem mesmo nos beneficiariam com a esmola das risadas. No último dos casos, na nossa posição de não afetados pelo preconceito que elas tentavam nos impôr, continuávamos achando que, insistindo um pouco mais, nós comíamos.


Principalmente aquela com os óculos de modelo de clipe do Lenny Kravitz. Como sempre, tentando aparentar uma naturalidade enfiada nas roupinhas que ostentavam a boa situação financeira vigente dos seus progenitores [não podíamos crer que se tratassem de garotas de programa, tal qual temos observado se frutificar com abundância nos meios considerados "point" de universitários, portanto, em consenso, insistimos na idéia de que eram filhas de pais que as deixavam na porta da danceteria com suas Cherokees e suas recomendações de bom comportamento] e alimentação nitidamente regida por doses cavalares de leite de toda espécie e cereais. Lógico, e batatas, muitas batatas. A de óculos deixava claro seus lanches matinais à base de granola quando ostentava a barriga endurecida e as batatas da perna muito, muito firmes. Embora, naturalmente, as tetas enrigecidas com volumosos mililitros de silicone denunciassem um presente de aniversário muito pedido e atendido com deslevo. As tetas enrigecidas, sendo clichê naquela roda, não era, portanto, o que mais atraía nossa atenção, ainda que se sacudissem clemenciosas nos decotes sustentados por alças de silicone. A questão eram as bundas, bem menos difíceis de parecerem naturais após operação plástica. Podia ser que estivéssemos enganados e nossa pouca noção de correção estética estivesse totalmente defasada e, sim, aquela eleita como a bunda mais protuberantemente natural e carnuda, pudesse ser fruto de um cirurgião mãos de ouro.


Por vezes eu me perguntava que raio de gente se importa realmente com isto.