12 novembro 2002

cão

Não precisa me chutar, caralho. Não basta negar esta merda de carne que tu nem tá comendo mais, tem que utilizar de supremacia humana pra querer impor respeito que nem tu mesmo tem por ti, bêbado de merda. Fosse alguém, não tava sozinho roendo nervo de carne neste boteco fudido, com certeza sem dinheiro pra outra porção. Tava na volta. Não precisa se importar, também não precisa espantar a pontapé. Merda.


Faz um dois dias que me dói esta altura aqui da coxa e tu me chuta bem no mesmo lugar. Não tivesse tão fraco de fome e se tua perna não estivesse tão escurecida e com este cheiro que não sei o que é, teria agido seguindo os meus instintos naturais. Ainda é preciso obedecer a certas regras, uma vez que não basta querer ficar na volta e tentar contar com a generosidade ou mesmo piedade - uma bosta depender disto, mas que se há de fazer, quando não se consegue conquistar mais nada por conta própria, uma vez sendo fraco, asqueroso, e agora coxo - destes diabos que enchem a boca de gordura neste bar.


Vou me picar daqui. Me encostar e tentar dormir lentamente, bem lentamente até quase não sentir mais estas feridas purulentas nas minhas costas e não me incomodar nem com as moscas que insistem em se fixar neste território entre meu focinho e o meio dos meu olhos. Aquele canto parece bom. Nesta hora, todos são.