14 novembro 2002

Cortázar, novamente.

Imagine que você entra num ônibus, discretamente trajado. Nada que chame a atenção está entre suas mãos. Em sua cabeça, nem um chapéu ou boné, ou mesmo arranjo de flor que seja. Muito menos o seu cabelo é justificável motivo de galhofa. Então, absolutamente normal e discreto, naquele sentido mais ocidentalizado e comercial da palavra. Pense num sujeito normal e não tente pensar em um senhor de terno de lã xadrez com um bigodinho inofensivo. Não. Somente pense em uma pessoa discreta que ninguém nota [é foda. quanto mais tento tornar corriqueira a palavra normal ou descrevê-la adequadamente para deixar claro o que eu quero dizer, mais esbarro na dificuldade que é, hoje, classificar a normalidade.] Bem, conseguiste?



Tudo bem. Agora, imagine que você entra no ônibus, e se senta em um banco vazio, junto à janela, localizado mais ou menos no meio do veículo: nem muito à frente, nem muito atrás. Meio, pois. Você senta, olha pela janela, tenta concentrar-se nos movimentos da rua, enquanto o ônibus imprime movimento. Você dá aquela olhadela de esgüela, perscrutando o interior do ônibus - aquela verificada básica com a curiosidade que nós, seres mortais, temos pelos outros - e olha, muito discretamente quem são os outros passageiros, e até para se dar conta se o coletivo está muito cheio aquela hora da tarde. Sim, é de tarde. Escusas, se eu esqueci de falar.



Você, então, olha à sua volta. E constata, assustadoramente, que TODOS, eu disse TODOS os passageiros do ônibus estão com os olhares FIXOS em você. Pensou? Todos os passageiros olham, encaram você com estranheza e um velho, inclusive um velho sentado à sua frente, com colarinho duro, chega a se voltar para olhar para você demoradamente.



Detalhe: todos trazem algum tipo de flor nas mãos.



Surreal, não é? Este é o mote principal do enredo de Ônibus, um dos contos componentes do ótimo Bestiário, de Julio Cortázar. Indispensável para se iniciar nos meandros da literatura surrealista.