19 novembro 2002

Fernando Bonassi



Você diz que a arte é inútil e o artista um criador de problemas. Que problemas você cria?
Fernando Bonassi - Produzo arte para evitar produzir um mal maior para a humanidade. A experiência da vida é insatisfatória. A gente não pensa, vai trabalhar, conquista coisas, ama. Mas cada um de nós nasce nu e morre só. Cabe aos escritores dizer olha, tua vida é boa? Eu espero, com a minha arte, que as pessoas transem melhor, sejam menos racistas, percebam que se não distribuírem a renda serão assassinadas na esquina segurando seus Rolex.


Fernando Bonassi, em entrevista à revista Época. Primeiro, descobri estarrecido - e ainda não sei se é regra, mas se não for, é, ao mesmo momento, um tanto indignante e outro tanto satisfatório - que a Época On Line, ou seja, a versão da internet, da revista, contém a entrevista, na íntegra, e com uma extensão infinitamente maior a da publicada na revista versão tradicional, on paper. Considero o fato indignante, primeiro porque é sabidamente maior o número de pessoas que têm acesso somente à versão em papel da revista e isto acarreta que grande parte dos leitores desta versão não terá dados fundamentais de informação de uma entrevista tão interessante quanto esta. A descoberta é satisfatória, por fim, e nisto vai um carga absoluta de egoísmo que me distingüe do mais simples animal no seu incondicional senso de solidariedade, porque eu tenho acesso à internet e posso ler a entrevista na sua extensão verdadeira. Mas, e aí? Eu tenho acesso. Crer que isto é realmente satisfatório, é importar-se comigo mesmo, somente, e, antes de qualquer analogia referente à sentimento cristão de comunidade, fico realmente estupidificado que, em uma sociedade [a brasileira] onde somente 1% de investimento, seja em publicidade, quanto em, realmente, produção de renda, pertence à mídia digital, se dê menos espaço à acontecimentos importantes como este na versão mais acessível - a de papel -, e mais espaço na versão ainda, infelizmente, elitizante, de algo que, de alguma maneira, pode contribuir para a elevação, ou, no mínimo, posição de reflexão de uma grande parte da população leitora, ao menos.


Tudo bem, mas, e se neste momento, você estiver se perguntando: mas, quem, afinal de contas, é Fernando Bonassi? Apesar de ser um dos realizados mais produtivos no meio literário brasileiro, e, de uns tempos para cá, com alguns trabalhos que tem sido um certo hype, reconheço que ele não é um cara lá muito conhecido do público em geral. Eu fui conhecê-lo a algumas Feiras do Livro atrás, quando, descobri, em uma daquelas maravilhosas caixas de saldo, um exemplar de Subúrbio, um romance seu, considerado um dos seus mais importantes trabalhos, e, realmente, de uma escrita contundente e de singularidade formal. Deste tempo para cá, e daí foram se estabelecendo alguns longos anos, foram surgindo coisas suas que se tornaram mais vistas do grande público. A saber: Os Matadores (roteiro), Estação Carandiru (roteiro), Um Céu de Estrelas (teatro), Apocalipse 1,11 (teatro), O Trabalho dos Homens (direção), Subúrbio (romance), Declaração Universal do Moleque Invocado (literatura infantil).


A entrevista, que discorreu por muitos tópicos, abrangendo debates diversos desde o conceito da própria utilidade da arte, estabeleceu-se, lógico, na questão da escrita, da literatura, como forma de vida e atividade não prostituível. Com um idealismo que, para os mais incautos, poderia cheirar a proselitismo de quem, na real, já faz parte do mainstream e prefere dizer que se mantém à parte da grande mídia estabelecida, Bonassi é radical, ao menos em declarações, em afirmar que muitas vezes chegou a desistir de projetos com os quais não concordava ideologicamente, para defender pontos de vistas que iam ao encontro do seu ideal de trabalho artístico. Assim sendo, deixou pela metade a participação em filmes que roteirizava, entre outros trabalhos.


Em questão referente aos filmes que compõe a chamada estética da fome, nome atribuído a este roldão de produções surgidas com mais ou menos a mesma temática, e, utilizando como mote, Cidade de Deus, Bonassi é favorável a esta possibilidade da periferia poder ser enxergada em suas angústicas, realidades e anseios, mas é até irônico ao afirmar que, dentro disto, muitas produções, somente interessadas em utilizar da mesma linguagem têm surgido: há uma vasta produção de documentários de baixa qualidade intelectual e artística em nome de abrir uma câmera com uma parede pichada e o sonzinho dos Racionais MC's por cima. Tem muito filme assim, mais do que sou capaz de suportar.


Sobre a dita literatura marginal:Não existe nada marginal, mais. Porque mesmo para ser marginal você tem de ter um suporte tecnológico, na internet, que só a indústria tem. Para fazer um site contra a humanidade você tem que entrar na internet. Há editores gays, satânicos, de livros nazistas na indústria cultural. O quadro político hoje é muito mais complexo, mais caótico do que era.


A arte serve para qualquer um, não é um projeto intelectual. No Brasil, um país com educação concentrada e renda mal distribuída, existe a idéia de que a manifestação artística é de produto e para consumo de um conjunto de pessoas que estariam preparadas pra isso, o que é terrível.