28 novembro 2002

quase ego



Breve, em algum site perto de você, a história completa. Provavelmente será no ExpressOpinião:


Era notória a quietude naquele lado da Cidade Baixa. Fora os poucos bebuns que junto conosco compunham o burburinho em cada pequeno bar que podia se ver dali, magrões não desfilavam pela rua e tudo lembrava uma cidade fantasma um pouco entregue à sorte dos ébrios. Foi essa quietude que contribuiu para nos assustar quando apareceu aquele oriental com uma bata muito colorida, sorrindo, às altas horas da madrugada, oferecendo incenso e um livrinho de poesia xerocado. Chegou perto da nossa mesa e Cabriolé fez um sinal para ele sair fora, mas ele continou ali, insistindo e nos empurrando o livrinho. Cabriolé disse “sai fora, japa, a gente não quer porra nenhuma de livrinho” e o japa falava num sotaque muito ruim “um real, um real ou um vale, ficha”. “Não, não rola. Segue teu rumo”, Cabriolé falou, muito duramente com o pobre do japa, que, afinal, só queria vender seu livrinho e seus incensos (e, bem no final das contas, ser feliz, o que todo o mundo quer em última instância). Tá certo que o horário e o local não parecia ser dos mais indicados e o público alvo daquele japa provavelmente não seria um quarteto de bêbados com pensamentos um pouco mais devassos do que acender um incenso e ficar a recitar poemas budistas ou seja lá qual era a ordem religiosa ou filosófica a que ele pertencia.


O certo é que Cabriolé estava alisando a mina havia muito tempo, e ela meio que correspondia, mas meio fazida, dava uns trancassos de vez em quando, e Cabriolé meio que tinha que trovar a guria como se eles estivessem em uma merda de reunião dançante nos anos oitenta e ela tivesse treze anos de idade. Uma puta de merda. Devia ser mais rodada do que a nega véia que exibia suas meias arrastãos e deixava o negãozinho com o bigode do Danny Glover com aquela cara de corno torto. Cabriolé começava a me enojar com aquelas investidas. Eu não estava mais agüentando aquilo. Que fôssemos para algum lugar de uma vez, trepar com aquelas putas, para sair fora daquela porra de bar, cercado por aquele monte de gente de merda.


Não agüentava mais ter que fazer o tipinho romântico – a muito tempo não me sentia mais no clima para investidas deste tipo, e tudo que queria, quando não estava enchendo o cu de vinho ou tentando não assistir a algum programa podre na televisão, era conseguir me concentrar por mais de uma hora nas notícias de página policial e de cultura inútil que tinha que redigir para aquele site da Internet para onde trabalhava. Trabalhar em casa, ao invés de me possibilitar alguma dose de conforto que me possibilitasse escrever sossegadamente, e só me preocupar em mandar por e-mail aqueles artigos, ao invés disso me afundou no comodismo e ainda mais na bebida, já sendo inúmeras as vezes que deixara de entregar as matérias pedidas pelo meu editor por que estava tendo crises tossindo sobre o próprio vômito sem ter tido tempo de chegar ao banheiro.