11 dezembro 2002

de cultura e outros quinhentos

Conversando, há pouco, com um amigo sobre as diferenciações dos tipos de arte produzidas até pouco tempo atrás e sua perseguição de ideais simplórios de dualidades e binariedades, acabamos por cair neste conceito da arte que consegue perseguir os seus objetivos - causar algum tipo de reação no alvo, revolver questões em discussões, levantar questões e propostas para debate, ser agente criador de fomentação e polêmica, entre outros - e aquela [que, por definição, não considero arte], que, simplesmente estagnada, coloca-se como aditivo para a maior idiotização de grande parcela de uma sociedade: o entretenimento puro e simples, desprovido de qualquer análise crítica ou de qualquer elemento que possa servir para adicionar qualquer sentimento que for no seu espectador. Que fique claro que este entretenimento que falo difere-se da diversão, exercício verdadeiro que deve e pode promover sensações de graça, riso, ou mesmo contrárias a estas: raiva, ódio, indignação, enfim, mas que observa no seu âmago esta preocupação: provocar. Caimos nesta diferenciação porque acabamos discutindo o verdadeiro papel de certas obras ditas artísticas, mas que, de maneira nenhuma, atinge alguma parcela de pessoas. Obras estagnadas, peças estáticas - que parecem existir pelo simples prazer da realização da estetização do belo ou da repetição de clichês e modos já utlizados, que não repercutem de maneira nenhuma, nos dias atuais. Pior que isto, somente a criação - proposital - de objetos-fetiches com tentativas de parecer mudernos e que acabam por cair no vazio do não-dito.

Neste período complicado em que as transformações tecnológicas possibilitam o acesso a muita coisa auto-definida como arte, e muita coisa se produz com as facilidades que esta tecnologia traz, fica ainda mais complexo definir-se neste quadro confuso de criações aceleradas e que vagam no não-lugar. São facilidades que deveriam trazer maiores propostas insólitas, que desafiassem o mainstream, mas que se comportam como fruto deste, acomodados e comedidos. Não falo de loucuras incomunicáveis, obras criadas somente para satisfazer o ego intelectualóide ou narcisista do seu criador, na sede de ser e ser visto, mas de proposições que discutissem o vigente e pudessem, mesmo, servir de elo de ligação entre a elite - que realmente, tem acesso às facilidades e alternativas desta tecnologia separatista - e a população periférica, marginal [no sentido de se encontrar - e se encontra, realmente - à margem da massa tecnológica a que poucos têm acesso], que, pelas beiradas, é obrigada a absorver os restos deixados pelos donos da situação, para quem está muito bom assim.

São tentativas pequenas, lógico, frente ao intrincado e grandioso complexo exclusório que acaba sendo a falta de acesso às artes e ao incentivo ao pensar diferentemente do que é imposto pela grande mídia, no entanto, mesmo assim, e, por isso, aplaudo iniciativas como as de descentralização da cultura, que procuram fazer com que os agentes produtores de cultura possam ser, sim, aqueles que, até então, eram obrigadas a recebê-la pronta, e embrulhada com o logotipo da rede globo.

Esse olhar diferenciado sobre os agentes da cultura tiveram início no momento em que os Estudos Culturais se preocuparam com o que designou-se, então, chamar-se de cultura pobre. Com isso, estabeleceu-se que a noção de cultura não era mais somente aquela conhecida e apreciada por uma elite, mas sim realizada por diferentes grupos inseridos em vários níveis de realidade. Considerando que tudo é cultura, os Estudos Culturais passaram a se preocupar com os agentes fazedores desta cultura, e a constatação de como se comportavam, como viviam e como produziam esta cultura. Stuart Hall foi um dos que se preocuparam com esta identidade deste agente diferente, que passou a produzir a cultura em detrimento da elite impositora de até então.

Princípios que acabaram sendo predecessores do que se entende hoje como projetos de incentivo à cultura, leis de amparo à cultura para comunidades carentes e outras iniciativas do gênero.