06 dezembro 2002

essas coisas que acontecem


Saída do show dos Papas da Língua, penando na parada de ônibus, esperando o banzo para voltar pra casa [depois de conversar com uma guria que esperava, de madrugada, sozinha, o lotação na mesma parada, há cerca de uma hora e estava cortando o meu coração. Como é fácil se começar um assunto com alguém que você nunca viu antes e que somente compartilha da mesma situação que você: a espera. A cumplicidade gera alguma espécie de elo que aproxima quase que inconscientemente. Deve ser isso a que se chama solidariedade.], surge uma senhora perguntando por um ônibus. Respondo evasiavamente as perguntas que me faz e ela faz alguns outros comentários sobre o horário do ônibus, etc. Senta-se no meio fio e, como eu já estou bastante cansado, acabo copiando o seu gesto. Ela comenta que trabalha como cozinheira no Barônia, faz uma referência ao suor e a gordura que se impregna em sua pele, eu sou novamente evasivo em meus comentários solidários, etc, etc. Em dado momento, a senhoura olha bem nos meus olhos e pergunta se eu estou apaixonado. Aquilo foi meio surreal. Dei uma risada e, movido não sei bem por que [talvez a fim de saber onde aquilo ia parar...] disse que sim. Ela sacudiu a cabeça, com aquele ar de sabedoria extrema e disse que sabia, tinha certeza, porque eu só respondia "ahã" e seus congêneres à suas perguntas e comentários. Ela disse que este tipo de atitude é típica de quem ou está apaixonado ou tem problemas [na verdade, eu acho que eu ando com mais problemas do que apaixonado, mas vá lá. Me pareceu uma daquelas cenas típicas de filminhos que passam de madrugada na televisão, e era bacana se tornar objeto de análise daquela completa desconhecida].

Em seguida, ela desatou a falar que ela também estava apaixonada "e o que é pior" (sic), pelo próprio marido, que já não estava correspondendo mais aos seus sentimentos, ela o inquiria se tinha outra, ele negava, mas ela dizia que o conhecia e sabia que estava diferente, enfim, comentou para mim uma parte importante de sua vida. A mim - um desconhecido em uma madrugada quente no ponto de ônibus da Perimetral. Me senti um pouco mais gente naquela hora e quando o ônibus chegou parecia que a vida não era tão vã assim.