19 dezembro 2002

Mano Vladimir
obra-prima da lista de discussão do Edufo:


A primeira festa de aniversário de Mano Wladimir
Por Vladimir Cunha


Mano Wladimir está tenso. No colo da mãe, Marisa Monte, ele ainda
não conseguiu entender exatamente o que está se passando. Ao seu
lado, Carlinhos Brown conversa com Wally Salomão, que cita uma poesia
de Caetano Veloso, que dá um brigadeiro orgânico (sem chocolate e sem
leite condensado) para Zeca, que leva um pito da mãe, Paula Lavigne.
Mano Wladimir está tenso. É a sua primeira festa de aniversário.


"Criança sã/De uma rã/Guardiã/Eu sou seu fã/Na
manhã/Aramaçã/Cunhã". A música infantil escrita por Arnaldo Antunes
especialmente para a festa é a trilha sonora da dança das cadeiras.
Nada da Turma da Mônica, nada de atores desempregados vestidos de
Pikachu. Aqui a coisa é diferente. MM resolveu ser mãe em grande
estilo e contratou a Companhia Bufa de Artes e Performances do
Absurdo para animar a festa. Fantasiado de Ed Motta, um ator recita
de trás para a frente toda a obra de Eça de Queiroz para algumas
crianças. Do outro lado da sala, um grupo de clowns (sim, porque numa
festa como essa é proibido ter palhaço) ensaia uma volta à posição
fetal enquanto ostenta reproduções dos parangolés de Hélio Oiticica.
Num canto, Carlinhos Brown dá uma entrevista para uma repórter da
revista Bravo, escalada especialmente para cobrir o evento.


- E aí, Brown? Está feliz com o primeiro aninho do Mano Wladimir?
- É uma coisa da modernidade nagô, no que tange a referência
espaço/tempo do ciclo da história humana. O cósmico supremo da
realização superlativa, a poética da bioenergia enquanto motor da
sublimação ótica. É onde o eu e o tu fundem-se na epiderme
inconsciente.

- E o que você deu de presente para ele?
- Pensei na questão do pacifismo, na guerra como catalisador das
emoções humanas ao mesmo tempo em que atrai e repudia o ser. A
máquina ceifadora que gera vibrações orgônicas, que tangencia e
descontinua a unidade solar dos povos.
- Como assim?
- Eu dei um boneco dos Comandos em Ação...


Enquanto as crianças não podem comer o bolo de cenoura, aniz e mel
de cana - que traz estampado uma reprodução de O Abaporu, de Tarsila
do Amaral, em sua cobertura - Marisa Monte serve a elas copos de suco
de gengibre e balas de cravo da Índia. Até que Paula Lavigne tem a
idéia de chamá-las para um karaokê.


Quem começa a brincadeira é Benedito Tutankamon Pedro Baby, cinco
anos e filho de um dos roadies de Arnaldo Antunes, que canta O
Avarandado do Amanhecer, de Caetano Veloso. Em seguida é a vez de
Zabelê Tucumã Nhenhé Çairã, três anos e filha da empresária de
Carlinhos Brown, que canta Ana de Amsterdã, de Chico Buarque. Ao
saber que a próxima criança a cantar é a impronunciável Zadhe Akham
Mahalubé Sinosukarnopatrionitnafilewathua, filha da copeira de Marisa
Monte, Paula Lavigne acha melhor suspender o karaokê.


É hora do Parabéns a Você. Os convidados reúnem-se em torno da
mesa. E então, Marisa Monte anuncia uma surpresa: quem irá cantar o
Parabéns é Carlinhos Brown.


Brown, que andava meio sumido depois de sua entrevista para a
Bravo, aparece vestido com um cocar feito de canudinhos de plástico,
uma camisa de jornal e uma tanga de folhas de bananeira. Atrás dele,
315 percussionistas da Timbalada, um videomaker e quatro poetas
marginais. Brown pega um garrafão de água mineral e começa a cantar
sua versão para Parabéns a Você:


- Vim para cantar/A tropicália alegria de um povo/Azul, badauê,
zumbi/Ela não me quer/Mas sou um tacle regueiro/Viva o divino samba
de João/Monarco na rua/Meu bloco chegou.


Arnaldo Antunes se empolga e começa a recitar poesias
descontroladamente, Marisa Monte gorgeia e improvisa algumas
melodias, a Timbalada toca um samba-reggae, Paula Lavigne cai na
farra e Caetano acha tudo "lindo". O videomaker filma tudo e Wally
Salomão escreve o release. Os poetas marginais aproveitam a confusão
para roubar uns docinhos.


Um executivo de uma grande gravadora, que entrou de penetra,
contrata todos os presentes e promete CD, DVD, livro, críticas
favoráveis no New York Times, participação de David Byrne e especial
de televisão. Para comemorar, Arnaldo Antunes põe um disco de
Lupicínio Rodrigues. O ator vestido de Ed Motta cospe fogo. Marisa
Monte lê Mário Quintana em voz alta. Mano Wladimir chora. É a sua
primeira festa de aniversário.