02 dezembro 2002

na bravo deste mês



O filme [Madame Satã] passa longe de qualquer celebração ou apologia ao homoerotismo e maniqueísmos primários. O protagonista é, quase sempre, mau, covarde e abusivo, como também paternal e carinhoso, capaz de gestos de extrema amizade e da mais completa vilania. O esplêndido ator Lázaro Ramos interpreta Satã com intensa expressão corporal, passando em segundos do mais afetado falsete para cavernosas ameaças, atraído por um sentimento de gravidade que caracteriza o personagem pleno de contradições. O submisso Tabu, vivido por Flavio Bauraqui, dissimula cobiça sob a pele delicada de efeminado, e Felippe Marques representa o amante Renatinho, que se aproveita da paixão e da carteira de Satã. Ninguém é santo.


Desde que o pós-estruturalismo acabou com esta noção de dualidade e binariedade, que estimatizava sobremaneira todos os conceitos de bem e de mal, entre outros adversos, as obras artístiscas se tornaram, ou vem tentando ser cada vez mais, a expressão verdadeira da confusão de sentimentos humanos e das diversas alternativas que o "acaso", por assim dizer [conceito um tanto religioso, posto que neste acaso está quase intrínseca a vontade divina...], pode proporcionar. A chamada terceira via. Um filme que é bom exemplo disso é Corra, Lola, Corra, onde a protagonista, sempre tem uma opção para refazer as merdas que conseguiu causar nas tentativas anteriores. Bah, mas pensando um pouquinho, agora, esta terceira via se identifica de uma maneira quase que assustadora com todo este aspecto de globalização [e até esta noção colocada pela publicidade de passar a mão pela cabeça... bateu, compra outro carro, etc, etc, etc], uma vez que, sempre que fizeres merda, poderás melhorá-la e talvez ela se torne um areia clara e asséptica... Não gosto disto. Fez merda, fez merda. Terceira via é para os fracos [fim das elucubrações indignadas. Opções na arte sempre são extremamente bem vindas.]


Este amaranhado de aspectos realmente fazem parte da estrutura humana. Ninguém é bom ou é mal, nem mocinho e bandido [só nas porcas novelas globais. Ahhhh... caralho!!! Morte ao Roberto!!!] Ah, preciso ver este filme.


*se tu leste este mesmo post ontem e notaste uma certa diferença, você não está doido: houve uma atualização, já que mojo encontrou a contradição em minhas palavras. valeu.