24 fevereiro 2003

MC Serginho, o sujeito que atende pela autoria da música da égüinha, pretenso funk sensação deste verão, é um sujeito com uma aparência humilde. Surge amparado por um travesti de pouca massa corpórea que requebra alucinadamente ao som do "pocotó, pocotó", algo que funciona na música como o seu, digamos, refrão. A malemolência exacerbada e tresloucada do travesti rende-lhe o oportuno apelido de "Lacraia", e é ele que, ao contrário do Serginho, funciona como quase mestre de cerimônia às "modelos" que se contorcem repetidamente em um palco abundante de mulheres em shortinhos cavados. Ponto para o cinegrafista que dá zoom e praticamente nos concede a imagem clara dos lábios vaginais das animadas dançarinas.


"Meu Deus, que baixaria", poderia dizer minha avó. "Isto não é música", poderia dizer a sua avó. A mesma expressão, no entanto, utilizada para rotular músicas estrangeiras cujas letras elas não compreendem. Não, isto não é uma defesa destas músicas. Mas também não é uma acusação. Independente de se utilizar de comportamentos contestavelmente sexuais para alçar-se ao sucesso, sempre existiram músicas que, em maior ou menor escala, cresceram nas paradas com forte tendência ao questionamento de sua qualidade. E, eu acho que neste ponto, mais do que o apelo sexual, é a qualidade, ou não, da música que está em jogo. E qualidade, sabemos, pode e deve ser medida por conhecedores musicais, mas sucesso é o público consumidor quem pode atribuir, conforme seu gosto lhe apetece. Se formos discutir os gostos alheios, vamos esbarrar em preconceito e concepções antecipadas. Como autor deste texto, posso dizer livremente que detesto música sertaneja, pagode, axé e todos estes geradores de música de farto consumo popular. Mas devo, no entanto, respeitar quem delas goste.