24 fevereiro 2003

O Brasil é engraçado. Sente-se compelido com uma necessidade extrema em alçar ao posto de gênios os primeiros músicos que surgem com propostas um tanto diversas do maistream. E nisso, vai tempo que todos aplaudem Caetano Veloso como gênio até mesmo se ele regravar o "Parabéns a você".

Da mesma maneira que se viu surgir uma Marisa Monte americanizada que conquistou a todos com seus ótimos dotes vocais e que acabou estabelecendo-se na cena musical com bons discos e boas composições, hoje talvez seja contestável que, juntando-se aos outros "gênios" Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, ela tenha gravado um disco que para mim pouco se diferencia dos sucessos do carnaval baiano. Mas foi o disco mais vendido do ano passado.

Somos invejosos do sucesso alheio? Criticamos demais a tudo e a todos? Ficamos mais ignorantes quando damos espaços para que MC's surjam com sua simplicidade da periferia a abocanhar algum dinheiro por algum tempo com seus sucessos questionáveis? Na realidade, eu fico feliz que isto aconteça. Se, por acaso, eu vejo ou escuto, é porque eu gosto. Opção eu tenho. Nem que seja desligar a TV ou mudar a estação do rádio.

Melhor do que adotar a indignação de uma velha defensora da Tradição, Família e Propriedade e bradar a plenos pulmões que o mundo está perdido. Perdido, nada. Quanto mais puderem se beneficiar desta festividade enlouquecida e constante que parece dominar o país, mais existirão contrapropostas esforçando-se em qualidade para tentar modificar a situação vigente. E contrapropostas que, se merecidas forem, não devem existir apenas para encher a boca de velhos críticos maravilhados, mas também para serem consumidas à grande por todos que, com elas se identificarem. O que, no entanto, pode ser um pouco perigoso. Porque basta vender muito para se tornar, aqui, repulsivamente popular.

Muita ranhetice e pouca tolerância em um país que já teve que passar por supervisão para cada canção que queria ganhar as ruas. Se, em algum lugar, alguma ou muitas pessoas se deliciam com o batidão que faz fundo para o "pocotó, pocotó" e outras se revoltam, é só lembrar-se que, com a mesma rapidez com que veio, também vai. E daí, é esperar o que surgirá então e será a bola da vez.