23 fevereiro 2003

O grande e bizarro senhor de bigodes fartos achava que eu ainda queria mais café. Me olhava com ar solícito demais para o meu gosto reservado, como que me inquirindo com a constância silenciosa e irritante "quer mais café, seu merda?". Eu fingia que não me importava - na verdade, me importava um pouco, mas conseguia disfarçar bem. A madrugada estava quente demais para me encharcar desta maneira de café e, a bem da verdade, eu estava ali somente por causa da roliça senhora que me fazia rir à grande com suas histórias antiquadas recheadas de anões holandeses negros e gordos. Não podia crer que eles existissem, é lógico, mas aquela senhora tinha um jeito de me manter durante horas a fios sem nem mesmo conseguir desviar o olhar de seus olhos baços e de sua boca constantemente ressecada: acho que era o café. Mas ela não parava de tomar. Eu insistia para que bebesse algumas cervejas, a madrugada está terrivelmente quente, eu dizia, sem conseguir, no entanto, convencê-la que estava fazendo um mal negócio enchendo de lucro os bolsos daquele senhor grande e bizarro de bigodes fartos que parecia se comprazer terrivelmente em encher com uma freqüência extraordinária a caneca da senhora adoradora de café.

"Bebe um pouco aqui, bebe", a senhora roliça me ordenou, praticamente empurrando minha nuca de encontro à caneca onde aquele café absurdamente quente parecia esperar somente a chance de encher meus beiços de bolhas de queimadura. "Vai pra puta que te pariu, gorda de merda!", eu ainda berrei, derramando, por fim, com um safanão mais circunstancial que intencional, o café por cima das pernas varizentas da roliça senhora. Engraçado que ela não deu um grito quando aquela calda escurecida e medonhamente quente encharcou suas pernas. Me olhou, sim, com profundo pesar e mal abriu os lábios quando berrou com clareza "Dimitri", e fez sair de uma das pequenas portas que eu não tinha notado, junto ao caixa do bizarro e grande senhor de bigodes fartos, um anão negro e gordo, que se movia com seus tocos curtos para junto de mim, com imprompérios em forte sotaque holandês.