14 fevereiro 2003

Para quê, afinal, servem as comédias românticas? É fato que, talvez, eu pudesse me pronunciar durante infindáveis parágrafos sobre a inutilidade de filmes desta espécie, mas também, é bastante provável que, assim, eu me tornaria um sujeito chato pra caralho, e com certeza, pareceria, também, bastante antipático e insensível. Mas por vezes, se faz necessário que nos perguntemos para que vamos assistir a um filme de roteiro raso, personagens fracos e final previsível desde o primeiro segundo de projeção. A resposta pode ser simples, também: queremos nos encantar, somente isto, e, para isto, não é necessário desculpa, subterfúgios ou licença da sociedade de cinema; apenas nos damos ao prazer de nos conceder alguns minutos de nossas vidas para nos interessarmos por algo que não irá, substancialmente, agregar nenhum grande valor a nossa existência e do qual não poderemos tirar nenhum proveito mais extremo.

Sim, mas cinema não é para isto, ou, não para isto. E isto é tão verdade, que, sem relegar-me a dizer que foi por pressão da minha namorada que eu fui assistir Escrito nas Estrelas, que eu fui assistir Escrito nas Estrelas.

Se é necessário alguma desculpa, talvez caiba esta: férias é um momento massa bragarái para se oferecer bons momentos de ócio ou de entretenimento fácil. Mas, a verdade é que não é necessário desculpas, tive total noção de cada um dos meus atos quando entrei na sala de cinema. Sim, eu li no cartaz do filme o slogan auto-explicativo, identifiquei cada um dos atores pouco significantes [embora a gatinha Kate Beckinsale ofereça bons momentos de devaneio], e me dei conta de que já sabia o fim do filme antes mesmo que o nome Serendipity aparecesse na tela. Não, não me enfureci sobremaneira quando vi que o nome original [que vem a ser a faculdade de fazer inesperadas descobertas sem querer, por acaso, ou uma série de coincidências sem explicação que parecem favorecer certos encontros ou negócios] foi adaptado para o simplório Escrito nas Estrelas - sem que as estrelas representem um significado muito relevante no filme.

Simplesmente eu me sentei ao lado da minha menininha, e me deixei encantar pela história absolutamente fabulesca de dois estranhos que se conhecem, se apaixonam, mas tem de inventar um joguinho besta - orquestrado pela personagem de Beckinsale, Sara - para saber se realmente foram "feitos" um para o outro. O papel onde Sara escreve seu telefone para Jonathan (John Cusack) se perde no vento e ela acha que, como o universo não conspira ao favor dos dois, este é um bom motivo para as frescurices que, no caso, garantiram o emprego do roteirista do filme.

Jonathan deve escrever seu telefone em uma nota de cinco doláres, dada aleatoriamente a um comerciante: se a nota vier a cair nas mãos de Sara, o universo conspira ao seu favor. Já sabemos o que acontece, não é? Sara decide escrever seu telefone em uma edição do livro O Amor nos Tempos do Cólera e vendê-lo a um sebo qualquer. Se Jonathan vier a comprá-lo no futuro, o universo conspira ao seu favor. Já sabemos o que acontece, não é?

Para completar tudo isto, mais um testesinho: ela pede que eles subam em elevadores diferentes do Empire State [se descerem no mesmo andar, são "escolhidos" - algumas confusões, no entanto, fazem com que ele não a encontre quando desembarca no mesmo 23º andar de Sara]. A partir daí, sabemos exatamente o que acontece: anos se passam, outras pessoas surgem em suas vidas, mas os dois não conseguem esquecer a inesperada e inusitada paixão nascida na seção de luvas da Bloomingdale's. E, lógico, aos quarenta e quatro e meio, empenham todas as suas forças até aquele fim que, bem, sabemos como é.

Quem precisa de desculpas para se ocupar por alguns minutos com o inverossímel previsível? Eu simplesmente me concedi tais momentos. A vida nem sempre é feita de profundidade e busca das melhores filosofias explicativas sobre o substanciamento do todo.