10 fevereiro 2003

Se visto sob a ótica banal apresentada pela publicidade do mesmo, Gangues de Nova Yorque pode ser resumido somente como aquela velhíssima e manjada história do sujeito que para se vingar, entra na quadrilha do cara que matou o pai dele. Se o sujeito em questão for o queridinho e desaparecido Leonardo DiCaprio e se tiver a pretensão de colocar como seu par romântico Cameron Diaz e como "vilão", o também desaparecido, mas competente e renomado ator Daniel Day-Lewis, podemos ter uma interessante salada capaz de atrair um significante grupo de pessoas para as filas do cinema. Envolvendo tudo isto, pode-se dizer que a assinatura é de Martin Scorsese? Beleza! Agora sim, temos um filme com grandes atores e com a violência e trama verossímel tão comuns em filmes de Scorcese. Um candidato a Oscar, diríamos assim.

Que concorrerá em alguma(s) categoria(s), isto é certo, afinal, Martin Scorsese mesmo depois de vinte anos sem realizar algo realmente significante (o último grande filme teria sido Touro Indomável, embora eu tenha real apreço por Os Bons Companheiros), tem o seu prestígio assegurado em Hollywood e somente o fato de ter recebido o Globo de Ouro de Melhor Direção, da mesma forma que é um comprovante deste prestígio, pode também ser o seu prêmio de pré-consolação caso não receba nada mais no Oscar (descontados, é claro, aqueles prêmios técnicos com os quais o pessoal dos efeitos especiais e figurino acaba se regalando)

Porém, é bom que não se veja o filme como somente uma fábula de vingança arquitetada durante anos. Mais do que isto, e com uma pretensão que foi cultivada por pelo menos trinta anos, tempo que Scorsese planejou o projeto, desde que leu o livro homônimo de Herbert Asbury, que foi lançado em 1928, pode-se ter em Gangues de Nova Yorque uma bela noção de como nasceu a cidade mais famosa do mundo. Um nascimento sangrento, embalado por lutas raciais violentas que se travaram em suas ruas, de gangues que se rebelavam tanto contra os emigrantes irlandeses, que eram cerca de 15 mil por semana a desembarcar na cidade e, sob seu ponto de vista, tirar seus empregos, como contra o engajamento forçado de pessoas obrigadas a se alistar no exército e lutar na Guerra.

A dimensão do filme é algo que se vê às primeiras cenas, com uma recriação histórica estonteante (inteiramente rodado em estúdio, em Roma) e que, até por sua grandiosidade, como por outros imprevistos, acabou sendo adiado demoradamente. Quando estava pronto para estrear, ocorreu o 11 de setembro, e, sabe, não ficava muito bem contar o sangrente o odioso nascimento da cidade de Nova Yorque no momento em que o país se encontrava devastado, traumatizado e desolado em seu orgulho. A verdade é que o ataque terrorista acabou meio que por derrubar a estrutura-chave principal do filme, o nascimento de uma grande nação sob o orgulho da luta - coisas que os americanos adoram - e acabou reduzindo-se somente ao que é realmente visto no filme: uma trama de vingança rodeada de elementos-chavões, como amores e traições.

A história, com suas gangues remete a um fato histórico pouco conhecido, que era, realmente a existência das mesmas entre 1840 e 1850, e a hostilidade dos cidadãos que se achavam herdeiros por direito das terras americanas, os nascidos ali, que se auto-denominavam Nativistas e seu ódio aos israelenses (católicos) emigrantes, aos judeus, italianos e todos estes aos negros, considerados como inferiores. As cenas do filme são abundantes em violência pouco-glamourizada e isto é um dos seus pontos altos, uma vez que se é possível contorcer o pescoço se surpreendido em meio a um arremesso de facão de açougueiro. É uma história extremamente interessante, pouco conhecida e que deveria ser realmente contada: o que temos é a constatação de que Nova Yorque nasceu em cima do ódio e da forte segregação racial. Aquela que é considerada a capital do mundo nasceu em cima do sangue e da intolerância racial.

Provavelmente isto é o ponto mais importante que Scorsese queria demonstrar no seu filme, que acabou, entretanto, sendo reduzido a confusa e estranha história do filho (DiCaprio) que, dezesseis anos depois, quer vingar a morte do pai (Liam Neeson), líder irlandês e da gangue dos Coelhos Mortos (Dead Rabbits), assassinado por Bill, o Açougueiro (Day-Lewis). É claro, que, em meio a esta massaroca fabulesca, não podia-se deixar de lado a trama romântica, e, assim, temos uma confusa Cameron Diaz como objeto de desejo e de paixão, perdida entre ser prostituta, punguista e, por vezes, santa e dona das verdades, mulher de todos e de ninguém.

Detalhes que não diminuem, afinal, este filme que, apesar de uma morna interpretação do protagonista, tem no personagem do Açougueiro (que teria, realmente existido), seu ponto alto, com uma interpretação primorosa de Daniel Day-Lewis. De quebra, temos o sumido Henry Thomas (sim, o menininho de E.T.) como o amigo traidor e arrependido e por aí vamos, em duas horas e quarenta minutos que devem ser usados senão para se apaixonar pela história não tão original assim, ao menos para se deleitar com a paisagem rústica de uma Nova Yorque recriada com grandeza. No final, sempre sobra aquele gosto do sentimento de bravura exaltado pelos americanos, mas demos um desconto, já que deve ser coisa da produção e dos estúdios financiadores, afinal, Scorsese é decendente de italianos e, ainda que podado em sua ambição de contar uma história crua do nascimento da Big Apple, não deixou de mostrar como a nação tão megalomaníaca calcou seu crescimento no ódio e na intolerância.