11 abril 2003

CARANDIRU


Atores famosos que resolvem, de uma hora para a outra, fazer um papel muito diferente dos quais a grande massa está acostumada a vê-lo, acabam sempre atraindo para si uma atenção maior do que a obra que em que eles se inserem [com este personagem em questão]. Uma coisa é o cara sempre fazer o papel do galã bonzinho em novelas, peças de teatro e depois aparecer na pele de um vilão, para confundir alguns de seus fãs, irritar outros, indignar mais alguns. Outra coisa é o cara ser conhecido por ter uma carinha bonitinha, mas, ao longo de alguns trabalhos [preferencialmente no cinema, terreno que os atores de novelas globais escolheram para mostrar que têm poder interpretativo] ir mostrando que, realmente, têm talento para interpretações que fogem à regra do rosto bonito e cérebro vazio e conseguir, inclusive, elogios da crítica, e um bom número de espectadores para o seu filme.


O grande problema, em algumas vezes, é que o ator, ainda que involuntariamente, acaba atraindo mais a atenção para si mesmo e sua boa atuação [surpreendente], do que para a própria obra em questão. Se configura em maior problema ainda, quando o ator com as características supra-citadas faz questão de desempenhar o papel de um personagem tão divergente de seus costumeiros, e, em si só, alvo de polêmica pela própria situação do personagem, mesmo que este existisse, que a mídia toda praticamente se esquece do que está sendo analisado - o filme, em que este ator, se não é o grande e solitário protagonista, está dividindo louros de interpretação com outros atores - e passa a cair com sofreguidão louca sobre o ator para conseguir entrevistas e suas impressões e dificuldades em desempenhar tal personagem, e acabam tornando a obra menor tanto em análise, quanto no caráter representativo que ela passará a desempenhar.


Eu senti que algo assim aconteceria quando ouvi os primeiros murmúrios sobre Carandiru, de Hector Babenco. Em questão de pouquíssimo tempo, mais do que análises demoradas sobre o filme em questão, começaram as considerações mil sobre o personagem de quem? O que poderia atrair mais atenção do que um galã da Globo desempenhar o papel de um travesti? Pois é. Rodrigo Santoro passou a ser a questão central, mais do que o filme. Não é possível encontrar resenhas, críticas, comentários, reportagens, sobre o filme que não cheguem num ponto em que, com tom falsamente displicente, se comente que surpresa grande é o personagem Lady Di que Santoro desempenha. Antes de qualquer ranhetice em relação a este textinho, já deixo claro que eu acho o Santoro um bom ator mesmo, nada contrário ao cara e qualquer coisa que faça. Tem mostrado nos filmes que tem feito que é mais que um rostinho bonito, realmente. Tem sempre aquele lance de comentar o quanto é mais difícil ainda, sendo assediado por tantas fãs, demonstrar o quanto é um grande ator, mas isto é outra história. A grande questão, e isto não é novidade, porque acontece com uma freqüência irritante, é realmente esta, que a mídia insiste em manter: a atenção exagerada a elementos que são, na realidade, adendos, somente partes de um todo. Esta necessidade constante de se apegar a imagens estereotipadas, ídolos com personagens bizarros, acaba sempre levando a grande massa néscia a caminhar para a idiota idolatrização que, neste ritmo, nunca terá fim.