26 abril 2003

Começo de um conto ainda em fase de finalização [e, por enquanto, sem nome]:

- Velho. – Me chamou como se alguma coisa de ternura tivesse ao dizer o que disse, e, na realidade havia. No entanto, não me enganava ao dissimular por trás de cada sílaba meigamente pensada todo o ódio que, na realidade tinha por mim. Chamava-me para perguntar, provavelmente, alguma das futilidades de sempre, que poderiam transitar entre o “tu viste o que saiu no jornal, hoje?”, até o “o que é que tu queres comer hoje, no jantar?”. Sempre perguntas, indagações de assuntos que, na realidade, não tinham uma dose de pessoalidade maior do que a vontade de trazer fatos tão corriqueiros como que numa ânsia sôfrega de nos aproximar por trivialidades. Convenções, não mais do que isto. Se enganava se pensava que eu não via por trás daquelas grossas lentes o tremor das pálpebras enrugadas que se quedavam contrárias à naturalidade que procurava dar a cada ato. Eu me fazia bem de louco; ela que se ferrasse se achava que eu não sabia que, por trás de cada “Velho...”, - sibilado na dose exata para parecer natural e carinhoso ao mesmo tempo – havia, na realidade, um “Velho de merda!”, resultado de tanto ódio guardado como aquelas suas compotas antigas no alto do armário da despensa, sempre à espera de uma visita ilustre que, em mais de vinte e cinco anos nunca aparecera.


- Fala, velha... – O melhor era simplesmente me comportar como sempre. Não era chegada a hora, ainda, mas ela viria, eu tinha cada vez mais certeza. Por enquanto, com a naturalidade de sempre, corresponder aos seus vazios comportamentais e me juntar a ela como se cúmplice fôssemos contra um terceiro que nos atazanasse. O terceiro, na verdade, era o único elemento a nos unir. O ódio, que cada vez mais caminhava pesadamente por sobre aquelas velhas tábuas de madeira do assoalho, era, entre nós, um ente querido que se deixava ficar sem muita solenidade a perambular por entre os móveis que a velha já não mais limpava. A velha não tinha mais tempo de limpar por que na certa tramava alguma coisa que lhe impedia de dar tratos à higiene que, antes, tanto prezava. Tinha mais facilidade para dissimular antes, também – era verdade. Limpava tudo, arrumava a casa, até cuidava dos nossos filhos e conseguia nutrir aquele ódio por mim com mais habilidade do que nos dias de hoje. Se antes havia até mesmo o sexo dissimulado para tentar impor um amor onde este não existia, agora, ficava-lhe muito mais difícil, com poucos artifícios, criar vínculos que não lhe revelasse a tamanha amargura e rancor que alimentava por mim. Por isso tinha que recorrer a estratagemas tão ridículos: apegar-se a palavras, apelidinhos que se criaram depois de velhos os dois, e gestinhos tão minimalistas quanto a meiguice que procurava colocar em cada ato dirigido a mim. Queria fazer-me crer que, de fato se importava em me agradar ao ouvir minha opinião a respeito de que merda fosse que ela estivesse se referindo que tinha saído no jornal. Rá, é lugar-comum extremo se comportar como a esposa submissa que espera que o marido expresse sua opinião para que ela pudesse tecer a sua em cima desta. Me enganava tanto quanto me perguntava o que queria, afinal, para o jantar, logo mais à noite. Me dá o que queres de uma vez: veneno, chumbinho, merda, o que for. Se é para ser ao menos mais honesta, é melhor do que agüentar os pratos bem decorados depositados nos panos de prato com seus crochês de tantos anos.