04 abril 2003

Confesso que meu comentário anterior sobre Riso no Escuro do prezado Wladimir Nabokov foi um pouco precipitado. É bem verdade que durante grande parte da leitura, as observações que fiz no comentário anterior, foram pertinentes aos meus sentimentos. Para um cara que não leu Lolita, somente assistiu sua versão cinematográfica, Nabokov me pareceu um cara que inspirava uma maior incursão em outras fontes, que não a tão conhecida.


E este foi um dos motivos pelos quais escolhi a leitura de Riso no Escuro. Não tinha feito nenhuma pesquisa mais extensa, para me dar conta de que o livro tem a sua certa aclamação, e acho, também, que o estava lendo, no começo, com um certo ranço de quem acha que o autor está repetindo a fórmula.


Se as coisas soam um tanto parecidas - cara mais velho que deseja menina mais nova - as comparações param por aí. Neste livro, o que vemos é uma incursão à degração pela qual um sujeito ingênuo pode passar quando incutido de grande amor por uma tremenda pilantra. As linhas gerais, não querendo me estender muito, já que devo publicar alguma coisa no Cápsula mais detalhada sobre o livro, trata da história de Albinus, um crítico de arte, que herdou uma grande fortuna do seu pai e, portanto, vive sem nenhuma preocupação de ordem financeira. Sem fazer nada, para falar a verdade, o que é um pouco irritante e um pouco lugar-comum em certos romances desta estirpe. Parece que somente com a facilidade do personagem principal não ter que se ocupar com a burocracia de algum trabalho normal, é que o autor poderá fazê-lo ficar enchendo a cabeça de besteira e alimentando delírios amorosos não-mútuos por uma menina que não lhe oferece a menor abertura.


Considerando o fato que Albinus se apaixona perdidamente pela guria e, ela, uma suburbana cheia da maldade e com uma história de vida que acaba lhe preenchendo de malandragem, abocanha-se naquela relação que, sabe, lhe trará bons frutos se tudo for conduzido de maneira benéfica para a ilusão amorosa de Albinus. O detalhe é que Albinus é casado, e com uma filha, que, segundo uma descrição bacana de Nabokov, e fugindo das comuns descrições deste tipo, é uma menina muito feia. A mulher de Albinus, apesar de bonita e boa esposa, é fria e um tanto desligada do mundo. Albinus tem impressões e idéias um tanto excêntricas para justificar a sua futilidade de homem rico e apaixonado pelas artes. Apesar de não parecer um cara dado a tamanhas ousadias, não hesita em abandonar sua família e se juntar com Margot, a menina que lhe trará sua desgraça.


Margot, junto com o antigo amante, usurpa tudo o que pode da vida financeira e moral de Albinus. Durante toda a leitura do livro, já se sabe que Albinus cairá em desgraça, afinal, o próprio autor, na primeira frade do livro, antecipa o que virá, anunciando o homem que se apaixonou e teve sua vida destruída. Nos últimos capítulos se justifica o nome dado à tradução para o livro. Um tanto nos compadecemos de Albinus, outro tanto festejamos o fim a que sua ignorância o conduziu. Apesar do compadecimento, é difícil ficar do lado de alguém sem noção alguma de vida e que se deixa enganar com uma facilidade incrível. Ingênuo demais, mas resulta em um personagem bobo instigante.