25 abril 2003

GAROTOS INCRÍVEIS

Quando o autor Michael Chabon estreou na literatura, aos 24 anos, a crítica tratou de dizer que ele era a maior novidade surgida desde J.D. Sallinger. Exageros à parte, o autor mostrou que realmente tem qualidade literária ao ganhar o Pulitzer pelo livro As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay . Por aqui, ele é particularmente conhecido pela adaptação de seu livro Garotos Incríveis, para o filme de mesmo nome, estrelado pelo Michael Douglas, Tobey Maguire [de Homem-Aranha] e Robert Downey Jr. Eu já havia assistido o filme há algum tempo, e gostei por que tinha um tipo de humor que me agrada bastante, corrosivo e sarcástico com lances rápidos e uma trama extremamente inteligente. Em Garotos Incríveis, Chabon conta a história de um romancista em crise, que tem compulsão pela escrita e não consegue colocar o ponto final num romance que já tem mais de 2. 000 páginas. Com humor digno de um veterano, o autor cria personagens e situações impagáveis, além de satirizar os meios intelectuais e a vida literária. A direção do filme ficou a cargo de Curtis Hanson, o mesmo diretor de Los Angeles - Cidade Proibida, outro filme que me agradou bastante.

O bacana do filme, e que estou comprovando agora, com a leitura do livro, é que o diretor manteve o clima deste humor meio negro que permeia toda a sua trama. A dificuldade demonstrada pelo personagem principal [Grady Tripp], em terminar o seu romance, chamado Wonder Boys, que gira em torno de dos irmãos Wonders em uma saga que envolve gerações da família, teria sido a mesma que se abateu sobre o autor depois do lançamento de seu primeiro livro. Passando por uma crise criativa, ele teria conseguido somente se livrar dela quando desistiu da escrita do que seria o seu segundo livro, e começou o seu terceiro, este, em que utilizou Tripp quase como um alter-ego para os problemas que estava tendo.

Grady Tripp, que é também professor de uma oficina de criação literária, acaba se envolvendo de uma maneira quase paternal com o seu estranho e talentoso aluno James Leer, um sujeito obcecado pelos suicídos de atores de Hollywood, e um profundo conhecedor e apaixonado pelo cinema dos anos 40 e 50. Com uma personalidade perturbadora, tem uma tendência ao isolamento e à fuga da realidade. Quando o editor de Tripp, o homossexual Terry Crabtree chega à cidade para participar junto com Tripp de um festival literário que acontece anualmente na universidade onde Tripp leciona, logo se interessa pelo confusa identidade de Leer e acaba colaborando, senão para o seu descobrimento, para maior confusão ainda na vida de Leer. James Leer, sujeito que confunde a realidade, e freqüentemente inventa histórias sobre sua vida, para confusão de seu professor, embarca com este para uma comemoração de páscoa na família judia da esposa de Tripp, que o está abandonando, já que este, por sua vez, tem um caso de longa data com a reitora da universidade, que deve estar grávida dele.

O livro tem 333 páginas, a história se desenvolve em dois dias e o ritmo é constante, entremeado de sarcásticos comentários e críticas ácidas sobre o mercado editorial norte americano, repleto de escritores de muito sucesso e apenas um livro.

O autor, que trabalha também como roteirista para a TV, foi um dos indicados para fazer o roteiro do X-Men, mas acabou preterido e, agora, parece ser o nome que dará forma à continuação de Homem-Aranha. Ele tem toda uma história de envolvimento com o universo dos quadrinhos, e, inclusive o livro seu que foi ganhador do Pulitzer de melhor romance, em 2001, é ambientado em um universo ligado aos quadrinhos. A imprensa internacional descreve a história como um romântico conto sobre super-heróis de quadrinhos e vilões da vida real.