08 abril 2003

PARA MINHA IRMÃ


Ando procurando pelos cinemas coisas um pouco diversas do sempre onipresente cinema norte-americano. Não, nada a ver com boicote nestes tempos polticamente-corretos de guerra. Só a vontade, mesmo, de experimentar outras nacionalidades, descobrir o que anda sendo feito por aí - o que é uma vergonha para um amante do cinema, que eu esteja decidindo a fazer isto tão tarde. Já vi coisas muito boas, é lógico, mas uma boa continuação disto foi assistir, neste sábado, no Santander a "Para minha irmã" [A Ma Soeur!], filme francês de 2000, dirigido por Catherine Breillat. Grata surpresa, mas que com certeza não agradaria àqueles que pouco acostumados com um filme de andamento bem mais lento e introspectivo que a grande maioria dos que acabam baixando nestes cada vez mais dominadores cinemas de shopping centers.


Perturbadora a história das irmãs Elena e Anaïs, que divergem tanto - a primeira na sua beleza assustadora e a segunda na sua obesidade deprimente - e vivem num embate eterno onde se contrapoem a ternura e o ódio. Planos longos e cenas em que se acha que alguma coisa mais além do que é mostrado vai acontecer [e não acontece!], fazem ver o quanto é saudável trocar de vez em quando o viciado cinema nervoso hollywoodiano, por produções de andamentos bem mais lentos, roteiro inteligente e sensível e trabalhos convincentes de atores.


Andei pesquisando a obra da diretora [que faz o papel da mãe pouco presente, no filme], e ela tem um rol de filmes com alguma controversão. Trabalha muito com o lance do erotismo - e, em muitos casos, "Para minha irmã" pode chocar os mais pudicos, como chocou alguns de seus filmes anteriores ["Procura-se um amor em Barcelona", "Uma Adolescente de Verdade" e "Romance", no qual o famoso ator pornô Rocco Siffredi foi utilizado interpretando mais do que normalmente consegue].


No final das contas, a discussão sobre a virgindade das duas irmãs, e a forma como encaram isto, até a maneira desesperada e por vezes doentia com que a gorda Anaïs pensa em perder a sua, são o grande mote do filme. A deseperadora necessidade de Anaïs de se empanturrar de comida cada vez que se acha deprimida, e isto acontece com uma freqüência enorme, em contraponto a esbelteza e beleza que incomoda de Elena. Cenas que poderiam se perder facilmente na mão de diretores mais inábeis, e parecer sem justificativa, como a cena em que a bela Elena é sodomizada, aceitando a penetração anal para "manter" a sua virgindade, é belamente explorada, sob a observação doentia de sua irmã. Como ele surpreende, de maneira lenta, até o impactante e quase inacreditável desfecho é uma questão.A outra é a belíssima atriz Roxane Mesquida, a Elena, com uma beleza impressionante.


Uma idéia clara de como os Estados Unidos são tendenciosos e unilaterais, é o nome que o filme teve naquele país: "Fat Girl"! Uma solução grosseira e profunda como um pires.