13 abril 2003

POR QUE ELE SEMPRE VEM


Eu acabo identificando realmente Porto Alegre quando o friozinho começa a rolar. Quando é verão, e eu fico por aqui mesmo, além da caloria demasiada bragarái fazer ferver o chão de concreto das áreas cinzentas, parece que ninguém está muito à vontade. Fica aquela sensação de tentativa de clone de cidade praiana, com os caras passeando com seus bermudões, os carros com sua sonzera tranformada tocando os batidões típicos deste período e os vendedores de suco de laranja suando como os pedreiros do inferno. Não posso negar que me agrade muito as menininhas com seus umbigos de fora. Ah, os umbigos... Mas a sensação iminente, é de que realmente tudo em breve irá para dar lugar ao cenário verdadeiro. É como uma representação cenográfica breve para mostrar que, sim, nós também temos verão! E o amante do café, do vento frio no rosto, das folhas secas e das peles femininas arrepiadas, fica olhando tudo de soslaio, como a dizer: "Esperem que o frio já vem... Rê, rê, rê!" [som de risadas malignas]. Ele vem, é verdade, meio tímido, como que não querendo se intrometer entre os adoradores do suor, mas deixando claro que a casa é sua. Eu fico rindo, bem de canto, enquanto preparo um café e convido o frio para sentar e comer um bolinho com açúcar e canela.