24 abril 2003

PROCISSÃO


Nunca entendeu o porquê do vai-vém. No entanto, deveria ser norma entre todas, ou ordem dos cafetões. Enfim. Fazia horas que debruçava-se na sacada do apartamento da namorada e observava a procissão-de-mesmo-lugar que elas emendavam, tarde após tarde, e que acabava por estender-se até a noite. Sentia-se um tanto combalido de vê-las ali, incansáveis, horas a fio, mas não pretendia colocar-se em seu lugar ou apiedar-se das mesmas. Estranhava que no domingo elas não estivessem nunca ali. Nenhuma delas. Quando passava com sua namorada, indo para o apartamento que ficava em frente ao hotel vagabundo que elas utilizavam para seus programas, quase sempre faziam uma piadinha enaltecendo o cristianismo delas de guardar domingos e dias santos. Piada de mau gosto. A loirinha seca lhe dava pena. Parecia que não tinha tática, não tinha esquema. Na realidade, no ir e vir de suas pernas finas, dava a impressão de que o possível cliente deveria tentar conquistá-la, e não o contrário. A outra loira, com quem dividia calçada e um silêncio indiferente, esta, mais fornida, tinha seu jeito, sua técnica. Caminhava acompanhando o alvo, e, na maioria das vezes pegava em sua mão e conseguia até mesmo um curto diálogo; no entanto, quase sempre recebia um não, obrigado, ou, não, fica pra outra vez. Na pior das hipóteses, arrancava-lhes um cigarro e até a gentileza do isqueiro. A loirinha seca, nem isto. Enfiada no seu antigo deandê azul-piscina e em uma jaquetinha de napa, naquela fria tarde de abril, ela continuava sua sina, para lá e para cá, mas sem se prestar a seduzir. Talvez esperasse para ser seduzida. Talvez achasse que valesse para isto. Quando ele voltava da padaria, e estava entrando no prédio, sempre tinha uma moreninha que, desafiando o possível tratado de todas elas, estava abancada em uma cerquinha, uma grade junto ao prédio. Assobiara-lhe já duas vezes, chamando-lhe com a mão. Estranha a sensação. Sentia-se fugidio, entrando rápido no prédio, ela rindo, e ele indo para os braços de sua namorada. A loirinha seca, impassível, não ria. A lorinha seca parecia muito triste, o tempo todo encarangada na sua jaquetinha, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Triste e estranhamente superiora, como se não fizesse parte daquilo e, por isto, não perdia tempo tentando seduzir. Talvez fosse romântica o suficiente para ter certeza de que alguém apareceria ali e a levaria embora para algum lugar melhor.