23 maio 2003

Ontem tava lá no Insano com minha guria, no aniversário de um companheiro de banda [aliás, primeira vez no local, nada de espetacular: bicicletas e corpos de manequim pendurados, para dar aquele clima descolê e a mesma coisa de sempre], quando a lembrei que quero muito assistir neste fim de semana aquele documentário Criaturas que nasciam em segredo, para dar ainda mais vazão ao meu fascínio por anões. Lembrando, é lógico, que aqui não vai nenhuma dose de excentricidade erótica. O anão, como pessoa, na sociedade em geral, me fascina por sofrer uma exclusão deveras contundente, e por possuir também, toda uma série de informações que contribuem para tornar o imaginário acerca deles ainda mais vasto e fecundo. Sei que falando assim, parece que perpetuo a idéia do preconceito do ponto de vista bizarro, da visualização pela diferença e outros princípios politicamente corretos que devem estar afetando aos leitores mais sensíveis. Mas, na realidade, para não ser mentiroso, tem um pouco disto também. Fora o universo de bizarrices a que os anões normalmente se vinculam e são vinculados, me interessa ali, o anão normal, com suas práticas e atividades não necessariamente ligadas a algum universo circense ou de algum show freak, demonstrando que seu diferencial em estatura não deve ser necessariamente associado a práticas não ortodoxas para a maioria das pessoas.

E este documentário parece inclusive, tocar neste ponto, pelo release que li, enfocando uma família de cinco anões e sua busca do desentrelaçamento destes princípios pré-estabelecidos, a fuga destes ambientes em que são visto como e somente como figuras a serem ridicularizadas e expostas ao escárnio humano, como se humanos não fossem. Anões rendem histórias, também. Imagino a gama complexa de elucubrações mentais que não assolam estes pequenos seres, com as dificuldades típicas encontradas em uma cidade que em nada lhes favorece, a não ser no orelhão para deficientes físicos [de cadeiras de roda], que, afinal, eles podem aproveitar também. No más, o fato de estar sempre com a cabeça na altura da genitália do outros, e ter que conversar com não-anões com a cabeça virada para cima deve dar um torcicolo do cacete.

Que os anões não me vejam como defensor de qualquer tipo de prática de exposição de suas vidas ou suas habilidades como passíveis de serem exploradas em shows de horrores. Mas que é bizarro e deveras fascinante, isto não posso deixar de voltar a afirmar. Volta e meia surge um anão ou uma anã nos meus contos mais ensandecidos e não sei se isto é algo que poderei evitar de fazer - mas é com todo o respeito.