28 maio 2003

Os americanos, na real, adoram escândalos e adoram fazer das figuras protagonistas destes, os heróis de suas futilidades. Como eu já presumia, Jason Blair, o doente viciado do The New York Times está soltando suas asinhas para se tornar mais um faturador no show business norte-americano. Com aquela supervalorização por tudo que se torna escandaloso, ele vai lucrar uma grana contando em livro tudo a respeito de suas falcatruas dentro do jornal. Passando a bola para outros motivadores, que não o seu vício em cocaína e álcool, contará detalhes sobre "as festas de cocaína no quinto andar da redação", bem como divulgará a história do "editor surpreendido na cama com uma estagiária". Trilhando o caminho da outra famosa Mônica Lewinksi, isto tudo é um passo para tal sujeito se tornar grande personalidade e acabar apresentando um programa do tipo reality show e lucrando muito, no final das contas, com toda esta função. E tudo em cima do que fez e pelo que está sendo "crucificado" nos Estados Unidos, terra pródiga em produzir casos semelhantes, condenar seus envolvidos, e acabar pagando para que a coisa cresça ainda mais e eleve os personagens a objeto de culto.


No livro do cara, que deverá se chamar Burning Down My Master's House - algo como Detonando a Casa do Meu Chefe, o autor deverá, ainda acusar o jornal de racismo [Blair é negro], confidenciando que, ao mesmo tempo em que esta condição lhe era vantajosa - todo aquele princípio do politicamente correto - era tremendamente cobrado por isto. Estratégias de escape para que de alguma forma a atenção se remova um pouco de sua pessoa e ele consiga cavar fatos bombásticos em relação a este que é considerado um dos maiores jornais do mundo. Nada, no entanto, é justificável para a sua atitude. Se foi obra de algum tipo de insanidade ou decorrência somente de sua relação com as drogas, não importa. O que não cabe é ele querer procurar motivadores emocionais, como pressão dos editores e besteiras do tipo para conseguir desculpa por ter inventado, forjado, plagiado, copiado informações durante quatro anos.


A atitude do jornal em publicar uma matéria na edição de domingo, de quatro páginas - uma espécie de dossiê sobre o caso - foi vista por ele como aproveitamento. De certa maneira tem um pouco de razão nisto. Por que, ao mesmo tempo em que o jornal procura, com isto, passar uma imagem de transparência, é fato de que o número de vendagem de seu jornal e toda a onda em torno deste caso elevaram em absoluto seu merchandising gratuito, e a garantia de publicação de uma matéria deste tamanho e com a intensidade que deve ter tido, com certeza teve procura estrondosa. Mas são as próprias contradições do mercado show que muitas vezes é o jornalismo norte-americano, que acaba vendendo a si próprio como atração. Desmascara mas usa para vender.