02 maio 2003

REPARTIÇÃO

Tomou o gole do café ali, encostado no balcão da padaria, e sentiu que o líquido lhe desceu pesado como um sapo gordo que não consegue se sustentar em cima de uma daquelas folhas que boiam e que eu nunca sei o nome. Pagou o velho da padaria amaldiçoando-lhe como se este fosse o responsável por uma úlcera que sentia crescer, mas que continuava a alimentar com cafés pretos junto a padarias sujas. Tentou caminhar até a escadinha que levava à rua, mas sentiu sua pança inchada e uma vontade louca de cagar. Se segurou até chegar ao escritório, cedo demais para encontrar a Márcia, que não gostava que ele usasse o banheiro das secretárias. Forçou uma evacuação, mas não conseguiu nada mais do que sonoras e fedidas flatulências que o constrangeram mesmo estando sozinho na repartição. Quando ouviu o barulho de uma porta bater, olhou para o relógio e viu que era tarde demais: as secretárias já estavam chegando, e não havia como sair do banheiro sem passar por elas e receber um olhar reprovador pela sua atitude de confrontamento com o que elas haviam estipulado. Sentiu vontade mandá-las à merda, mas uma fisgada no ânus o fez se concentrar novamente no bolo de fezes que não conseguia libertar. A pança se revolvia como se tivesse vida própria, e os arrotos que agora lhe chegavam, não tinham outro odor senão o de café requentado. Alguém bateu na porta do banheiro e ele fez silêncio, esperando para ver se desistiam. (os tec, tec do sapato de solados de madeira denunciaram Marta, a insuportável responsável pelo setor, que caminhou de volta para a sua mesa e ficou batendo as unhas pontiagudas no tampo de eucatex enquanto a janela do explorer permanecia congelada na sua tela.) Quando sentiu que se afastavam, forçou mais uma vez para ver se conseguia se livrar da bosta ressequida na saída do ânus. Sentiu uma ardência e teve certeza de que foi sangue o que pingou na água do vaso sanitário. Suava em demasia e sua camisa de trabalho não se encontrava mais em condições apresentáveis devido às rodelas de suor embaixo do braço. Maldita hora em que entrei neste banheiro, pensou. Sem conseguir defecar, enrolou uma tira de papel higiênico nas mãos e passou no rabo, sentindo o papel muito áspero machucar-lhe as carnes e voltar sujo de sangue. Atirou o papel na privada, que agora continha pequeninos pedaços de merda que sairam junto com os filetes de sangue. O banheiro fedia terrivelmente e o spray de bom ar não funcionava. Apertou a válvula da descarga que não respondeu senão por pequeninas ondulações na água em volta dos pedacinhos de merda e do papel amarfanhado que lá jogara. Alguém batia na porta novamente. Fez silêncio e ouviu gritarem seu nome. Ainda não tinha levantado as calças, quando se olhou no espelho e se desesperou com as pequenas brotoejas em suas nádegas, como bolhas de desidrose estouradas que umedeciam seu traseiro. O tec tec se aproximava novamente. Bateu com a cabeça forte contra a parede de cerâmica, mas ainda sentiu quando o maxilar se quebrou contra a louça da privada.