02 junho 2003

Bem de canto fui assistir para saber qual é deste tal de Carandiru e na verdade, saí de lá ainda querendo saber qual é. Ou o diretor não tem a mínima noção do que queria, ou não entendeu o que o véio Dráuzio queria, quando escreveu o libreto que originou o filme ou ninguém entendeu porra nenhuma e todo o mundo pegou dinheiro público para fazer mais uma novela das oito. Por que a estrutura está ali. E não é preciso mais do que um intervalo frio de 24 horas para se dar conta da grande bomba que é do quanto Babenco é otário em ter ficado brabinho por que não levaram porra nenhuma lá em Cannes. Não há o que levar. Prêmio para o quê? Melhor comédia? Melhor drama? Melhor documentário? Melhor cena de lavagem de escadaria: O que queria, afinal, Babenco, nos dizer? Havia alguma coisa para ser dita, ou tudo o que se queria era aquele amontoado de cenas com fundo musical emocionante para nos deixar levar pela beleza que há na alma de todo presidiário? Ainda bem que eu demorei uma cara para ver o filme e fui absorvendo pouco a pouco todos os comentários em geral, mas sem me deixar levar por eles, porque, em sua maioria, foram todos festejando [terminho de crítico de cinema...] o sucesso de tal empreitada das cinematografias brazuca. Eu imagino a estrangeirada lá em Cannes vendo a PM daqui descer a lenha em cima dos encarcerados: pá-pá-pá-pá-pá! [sons de tiros de metralhadoras] e os pobres dos presidiários se amontoando como gado, caindo uns por cima dos outros, em gritos lancinantes de horror enquanto os respingos de sangue voam de encontro à câmera. Calma, no entanto, porque lá no pátio o véio Milton Gonçalves levanta um balão para nos mostrar o quanto ainda pode haver doçura mesmo no universo cruel de um presídio como o Carandiru. Quem foi que disse que a vida não nos traz bons motivos para sorrir? Sorrir quando o filme acaba ou porque assistimos aos times do presídio cantarem praticamente todo o hino nacional numa cena extremamente dispensável? De bom no filme? O cara que faz o médico é bom, mas de acordo com a declaração do Dráuzio que saiu na Veja, talvez seu altruísmo e toda aquela boa-pracice não correspondesse muito aos interesses do cara que ele representava:

Fiz isso em meu próprio interesse, não porque seja uma boa pessoa e queira ajudar os outros. Não sou uma boa pessoa e não quero ajudar ninguém, especialmente esse tipo de gente.

Pois é. Nada de grandes manifestações de bondade suprema e amor incondicional pelos pobres encarcerados. Talvez fosse uma boa retirar aquele sorriso constante da cara do Doutor - acho que com isto o didatismo da história contada se minimizasse só um pouquinho.