18 junho 2003

MEU MESTRE SUPREMO

A cada página lida de mais outro livro do Julio Cortázar - esta descoberta infelizmente tardia, mas não falha - eu fico acachapado, como diria meu avô, com o poder narrativo deste cara. Eu tinha lido Bestiário, livro de contos no qual exerce todo o seu domínio de escrita do chamado conto fantástico, e contém obras primas como A Casa Tomada, entre outros contos, e agora estou me rendendo em saborear demoradamente cada palavra de Alguém que Anda Por Aí - livro em que mais uma vez se vê o talento dissecador em palavras concisas e somente as necessárias para escrever contos que são a primazia da literatura. Nada é demasiado nos seus textos. Você enxerga por trás de cada palavra, a intenção clara de se conduzir o leitor a uma atmosfera envolvente no seu universo por vezes inacreditável de acontecimentos. O estranho é que, por mais que certas situações beirem, por vezes, o supernatural, nada parece inverossímil. O próprio jogo de fuga constante do que não sabe, tão presente no conto A Casa Tomada, parece absolutamente natural, tal o clima de temor que se estabelece através dos personagens e que se torna tão sólido. Agora, lendo Alguém que Anda Por Aí, o clima é o mesmo em alguns contos, principalmente em A Segunda Vez, que poderia ser uma narrativa sobre procedimentos burocráticos de pessoas que vão a uma repartição por que receberam uma intimação em casa. As conversas das pessoas que esperam na fila de um pequeno corredor, enquanto o leitor não sabe o que eles estão esperando, traduzem a ansiedade disfarçada em comentários prosaicos de quem acha que vai realizar uma mera inspeção de rotina - e é o que parece, para quem está ali pela primeira vez. A importância do título fica clara já na conversa inicial do conto, em que os funcionários comentam a espera pelas pessoas que chegam ali na segunda vez - afirmando, que, realmente, na primeira, o procedimento é rotineiro até para não gerar suspeitas, uma vez que eles devem agir discretamente. A tensão crescente é justamente no fato de não saber o que acontece, nem que lugar, especificamente, é aquele. O nervosismo por trás de cada risada, os cigarros constantes, a necessidade da conversa entre os desconhecidos para que tudo aconteça o mais rápido possível acaba gerando todo aquele ambiente de nervosismo e excitação que envolve profundamente o leitor. É leitura para reverência, atenção constante e idas e vindas pelo texto - para se dar conta da importância da palavra aquela impressa alguns parágrafos antes. Cortázar é para ler de joelhos.