28 junho 2003

Na época das pornochanchadas, os filmes nacionais eram facilmente identificáveis por este detalhe que, nos dias de hoje, continua a contribuir para o ranço existente para com os filmes feitos no Brasil: doses cavalares de putaria. De uns tempos para cá, dentro daquela tão adorada e chamada retomada do cinema nacional, os filmes têm ser caracterizado, com poucas exceções, que na maioria das vezes se detém naquela merda de cinema carioca (Bossa Nova, Copacabana, A Partilha, estas bostas), em filmes de marginalidade. A estética do cinema pobre, do retrato das comunidades carentes brasileiras e coisas do gênero. Vide Carandiru, é lógico, grandíssima bomba e tentativa de humanizar ou maquilar com leveza a marginalidade das prisões brasileiras. Deu no que deu. Um filme extremamente dispensável, desagradável e profundamente mal feito. Cidade de Deus talvez se salve nesta história porque teve a pretensão de ir um pouco além. É perfeitamente observável que se tivesse se detido a uma análise seca e fria, como naquele adorado cinema de Glauber Rocha, acerca da comunidade da Cidade de Deus, teria fracassado nas bilheterias. Sua sorte foi ser dirigida por um diretor de filmes publicitários, que lhe imprimiu aqueles movimentos frenéticos à la Tarantino e Snatch. Resultou em um produto extremamente pop, ágil, e que caracterizou-se como diversão de primeira espécie, sem pretensões a debates intelectualóides sobre o papel da sociedade do asfalto na criação do marginal do morro.

Sempre achei que teríamos indícios de que o cinema nacional entrou realmente em vias de produção industrial, quando, além de boas coisas do gênero, sem traços de análise para cinema de arte, produzíssemos besteiras tipo roadie movie e coisas mais experimentais sem cairmos na busca da inteligêntsia para justificar cada tremida de câmera digital e outros experientos mais rebuscados. O fim da adaptação de livros do Assis Brasil, em besteiras épicas como Jacobina e, dizem Concerto Campestre, que deve vir e outras pérolas do cinema-chimarrão, como Neto Perde sua Alma, também seriam fortes indicadores de que as coisas estão entrando nos eixos. Adaptações de livros na maioria das vezes não resultam em boas coisas. Bons autores de livros é que tem consequido se sobressair como bons redatores de cinema. Gente como Marçal Aquino e Fernando Bonassi conseguem dar uma cara urbana em produções inteligentes e bem feitas.

É um ótimo fato uma trama ser pensada exclusivamente para a tela grande, em todas as suas nuances estilísticas e por gente com qualidade profissional metida nisso. Por isso, O Homem que Copiava é uma gratíssima surpresa. É quase um sopro refrescante em meio a este cinema amarronzado feito até então. Com uma trama ágil, roteiro que não poderia se esperar menor, feito por um cara do porte de Jorge Furtado, finalmente um filme sem grandes pretensões além de se contar uma boa história, amarrada por interpretações sensíveis e verossímeis.

Fora um debate extremamente atual sobre a fragmentação tanto das informações que recebemos quanto acerca do universo de influências à nossa volta. É mais do que metafórico que esta menção seja feita por um operador de copiadora, que recebe tudo em pedaços, e não consegue ao menos concluir a leitura de um soneto de Shakspeare porque acabou-se o número de cópias e ele deixo de ler a última estrofe. O zapear constante e insignificante na busca somente de imagens na televisão, as relações pessoais medíocres, e as próprias ilustrações feitas de restos de cópias mal sucedidas, são artifícios utilizados na busca desta colagem do mundo pessoal de André. Com uma trilha sonora que atira para vários lados, a música também é fator de percepção do que há para se entendido no filme.

Sempre que estréia um filme novo, eu gosto de ler a opinião cada vez mais enojante de Rubens Ewald Filho, o queridinhos dos fãs do cinema da Audrey Hepburn. É só, realmente, para abalizar ainda mais a minha opinião sobre a sua visão pequena a respeito de tudo o que não tem o toque clássico e tradicional dos filmes dos anos 20. Eu tinha quase plena convicção sobre o que ele falaria sobre O Homem.... Opiniões são opiniões, é lógico, e cada um tem a sua, mas não deu outra: a visão do homenzinho sobre o filme é a de um reacionário que ainda deseja a justiça a qualquer preço, e a certeza de que todos pagam por aquilo o que cometeram.

Além dos méritos nos quais não quero adentrar muito, até para não entregar o ouro para quem não assistiu ainda, o que se tem da trama é um jovem operador de fotocopiadora, André (personagem de Lázaro Ramos, de Madame Satã)trabalhador em uma papelaria da Zona Norte de Porto Alegre, com uma vida extremamente entediante, em um trabalho repetitivo e no qual não é necessário grande quantidade de pensamentos profundos, com uma vida enfadonha, corroborada por uma convivência monotemática e distante com a mãe em um apartamento pequena. Suas únicas distrações são as ilustrações, arte pela qual é paixão pela vizinha Sílvia, interpretada sensivelmente por Leandra Leal, a quem observa através de um binóculo (comprado em muitas prestações) pela janela do seu quarto. Em dado momento, numa ação que poderá ao menos aproximá-lo de seu objeto de amor, precisa desesperadamente de R$ 38. O que o fará se enveredar por uma trama de falsificação, onde entrará Cardoso (de Pedro Cardoso), dando abertura ainda maior na história para a balconista Marinês, (a gostosíssima Luana Piovani, nos brindando com fartas doses de barriga à mostra e peitos volumosos) colega de papelaria de André, e cobiça máxima de Cardoso. Estes dois últimos, por sinal, garantem os maiores momentos de humor em uma história que poderia ficar por demais pesada se se detivesse seriamente na saga de roubo, falsificação e morte por onde acaba se enveredando.

As coisas acontecem como poderiam acontecer, da mesma maneria que tudo poderia ser diferente: o autor opta por uma visão amoral que não julga seus personagens, e suas ações. Não entra em considerações punitivas e simplesmente acha que eles merecem ser felizes. Fazendo o que tiver que fazer, sem tempo para julgar seus atos.

Ainda que o filme se arraste na primeira meia hora, em uma demorada apresentação do universo de André, ele se redime em seguida, com uma seqüência de reviravoltas surpreendentes, onde uma utilização de colagens semelhantes às usadas em Ilha das Flores garantem o apelo pop para dar à trama, definitivamente, um caráter comercial de fácil digestão em qualquer parte do país. Apesar de se passar em Porto Alegre (o que para mim, como porto-alegrense, é lógico que é um fator extremamente positivo, de fuga das mesmices do centro do país), e ter suas peculiaridades regionais, nada de cenas do pampa gaúcho ou coisas do tipo pode impedir o caráter extremamente universal de sua história. É cinema feito por gente que sabe desvencilhar a película de leituras estereotipas e soluções fáceis e "justas" sobre o ponto de vista do que já está estabelecido. Grande sacada de quem se pode esperar muita coisa boa do tipo.