18 junho 2003

O que dizer a respeito de um filme ruim como Foi Só um Beijo? Talvez, nada. Por que é profundamente vazio e isto aqui poderia se traduzir, na realidade, como um alerta para que você, caríssimo leitor, não gaste seu rico dinheirinho com o ingresso para tão desastrada produção. Mas é claro que eu não resistirei à tentação de alinhavar os motivos para considerar tal empreitada cinematográfica um desperdício de tempo e paciência do espectador. Apesar da presença da sempre deliciosa Marisa Tomei - única referência que merece ser citada -, aconselho-te a esperar até a sua tardia porém inevitável chegada à Sessão da Tarde em uma tarde nebulosa de um inverno qualquer, para então, e só então, perderes teu tempo com tal catástrofe cinematográfica. Depois de assistir O Apanhador de Sonhos, tinha quase a certeza de que minha cota de infortúnios como espectador de cinema se tinha esgotado: vão engano. Eis-me lá, sentadinho para assistir à tal bomba descerebrada. Você pode até perguntar: Também, puta que pariu! O que continua fazendo com que tu percas teu tempo e dinheiro com mais uma comediazinha romântica chocha? Aí, eu poderia responder que, se fosse só mais uma inocente e ortodoxa comédia chocha, tudo poderia ser relevado. O problema é quando tal comédia se pretende levar a sério e utilizar recursos de inteligêntsia para enchertar elementozinhos de animação e outras peripécias do cinema digital para soar descoladinha. Ao chegar à sessão com o filme já começando, achei que se tratava de algum simulacro de Waking Life, com umas animações tosquinhas feitas por cima da imagem - efeitos repetidos à exaustão e sem qualquer necessidade e motivo: malabarismos de um tal de Fisher Stevens, responsável por tal barbaridade. De resto da película, o que se tem é uma trama imbecil de um diretor de filmes publicitários metido a conquistador, que traia a namorada com uma bailarina gatinha mas doidinha, altamente depressiva e suicida, e por quem o melhor amigo dele, um ator cujo maior mérito foi um papel de águia americana em um comercial de manteiga de amendoim (!) e que está apaixonado pela tal bailarina. Por causa do envolvimento do diretor e da bailarina - o beijo do título do filme - todos mudam de casal, surge um violoncelista para tornar tudo ainda mais emaranhado, junto com sua mulher promíscua e daí pra frente é um festival de piadinhas dispensáveis e aquelas supracitadas animações repetidas incansavelmente até mesmo para dar um colorido ao sangue da tal bailarina quando esta corta os pulsos. Três meninas atrás de mim parecem ter adorado o filme - riam às gargalhadas nas mais prosaicas e imbecis cenas - e eu, na realidade, só não saí no meio do filme, como minha namorada insistia para que fizéssemos, por uma espécie de princípio interno de nunca deixar de assistir a um filme que eu comecei, por pior que ele seja. Seria dispensável escrever também, que perto do fim do filme, quando parece que tudo vai se resolver [mais uma ressalva para a sempre deliciosa Marisa Tomei e suas calças de couro, que encarnava a única personagem interessante: uma garçonete de boliche com altas tendências sadomasoquistas e que aparecia em pequenas inserções mentais nas poucas cenas que davam para manter em mente por mais de dez minutos do término do filme], o diretor comete a sensacional estripulia de, voltando alguns trechos com aquele ridículo efeito review de vídeo-cassete, refazer a trajetória da história de maneira que tudo se aninhe perfeitamente. No final das contas, assisti-lo até o final serviu ao menos para poder escrever com conhecimento de causa os motivos pelos quais você não deve assistir a tal maravilha.