03 julho 2003

Na tal da pós-modernidade, tudo se consome, se analisa e se vivencia ao mesmo tempo. Esta contemporaneidade de experimentos enlouquecidos na área de multimídia, quando parece que querem confrontar a perspicácia de todos os nossos sentidos e nos bombardear com um excesso de informação para dissimular a falta do que dizer, acaba nos trazendo produtos com facilidade de ser rotulados como obras-primas, mas que, na realidade, são iguais a todos os outros montes que vêm chegando aos borbotões. Os filmes estão caminhando por esta trilha. A densidade de tecnologia e de domínio de ferramentas de criação digital é tamanha, que nos falta espaço para imaginar o que seria. O que seria está dito: o técnico em efeitos especiais programou, o computador renderizou e inseriu-se em meio ao filme para nos mostrar que bom que é. Uma história não é mais contada com linearidade há muito tempo. O problema é a eterna busca do contexto que acaba norteando toda e qualquer sessão de filmes. Pessoas inteligentes não sentam mais para ver filmes despreocupadamente, querendo o entretenimento puro: não, alguém lhes disse que em algum lugar da obra, provavelmente ler-se há nas entrelinhas influências de Nietzche, Bakhtin, Kierkgaard ou qualquer outro cara que possa ser mencionado com os dedos em riste fazendo sinais de aspas [maldito hábito dos infernos].

Análises frias do esteticismo das imagens acabam passando por burras, por que você não entendeu o que havia "por trás" da obra apresentada. Segundo os entusiastas deste pensamento, nada é tão simples quanto parece ser. Mesmo a abundância de imagens, sons e eventos em um filme, acontece por um acaso muito determinado do diretor, este mestre supremo. Para que esperar ou imaginar o que acontece, por exemplo, do outro lado da linha de um telefone, se isto pode ser facilmente desvendado inserindo-se uma pequena tela no canto da cena principal, "contracenando" com o ator em primeiro plano?

Este parece ser o princípio que mais norteou o diretor Joel Schumacher ao realizar o seu Por um Fio(Phone Booth, EUA, 2002). Como manter uma platéia interessada durante 81 minutos para contar a história de um sujeito que fica falando na cabine telefônica com um psicopata com uma arma apontada para ele? Com motivos interessantes em que entremeiam-se diálogos memoráveis e profundidade argumentativa? Com convencimentos verossímeis sobre a necessidade de um homem ligar para outro em uma cabine pública e forçá-lo a uma conversa? É, estas poderiam ser alternativas boas a se empregar para fazer um filme com tal argumento [original]. No entanto, descartado tal esforço, o que resta é uma montoeira de telinhas que se abrem, câmera em ritmo videoclíptico, som alucinado e, claro, uma voz gutural e assustadora para um psicopata do outro lado da linha.

É bom não entrarmos em considerações sobre a canastrice que é a atuação da sensação do momento Collin Farrell. É um grande feito já agüentar os 81 minutos vendo aquela interpretação de sujeito desesperado com voz de criança chorona. Isto é como ele fica depois, por que, antes, é um publicitário filho da puta engambelando uns desesperados artistas com promessas de ascenção rápida e sucesso em capas de revista. Esta apresentação de sua personalidade, talvez fosse suficiente [ao menos é, aos olhos do diretor] para confiná-lo em uma cabine sobre a mira de um rifle, sendo alvo da "justiça" do atirador desconhecido. Aqui, lógico, descambamos para aquele maniqueísmo típico de colocar um psicopata com causas justificáveis para suas ações enlouquecidas: escolhe suas vítimas demoradamente, somente canalhas inescrupulosos que fazem muita merda em vida e por isso, ou devem se arrepender ou morrer por sua ação. Arrependimento, no entanto, não contenta Kiefer Sutherland, a voz [e, ao final, o vulto] por trás do psicopata.

Ah, é um canalha desgraçado? Então, vamos arranjar um psicopata para se encarregar de ti e fazer justiça por todos os pobres coitados que enganou com promessas fáceis e as mentiras cretinas que aplicaste na tua mulher para poder foder com outra [Katie Holmes, de Dawnson's Creek, que não faz nada em cena, pobrezinha].

O filme teve a sorte de ficar famoso naquele temor traumático pós 11 de setembro, quando não se podia passar no cinema ou na televisão nada que fizesse menção a qualquer tipo de ato terrorista, sob pena de ser boicotado, terminantemente. Pois bem. Terminado tal período, o filme foi bem recebido pela crítica e tal, mas não apresenta nada de novo que não o leve para aquele final redentor de filme de sessão da tarde. Enfim, nada de novo. Boa diversão para tardes de ócio.