08 julho 2003

Os anos 50 são uma ótima década para se retratar temas como os do filme Longe do Paraíso (Far from Heaven, EUA, 2002). São anos que sempre apareceram para nós através do cinema, como o de uma assepsia absoluta, com recatos extremos de meninas pudicas e meninos engomados com casacos de linho e lambretas reluzentes. Tudo o que soasse além da brilhantina no cabelo parecia desproposital para aquela época, e, os comportamentos em sociedade - apesar destas observações estarem se referindo à uma visão americana de tal década, embora, por aqui, como emulamos muito do comportamento americano, principalmente quanto à música e cultura, a coisa se estabelecia semelhantemente, com o devido distanciamento regional, é claro - eram tratados com demorado esmero e preocupação. O rock era comportado em tal época e as relações interraciais não era nada bem vistas.

É uma boa década para se retratar a história de uma dona de casa com um casamento e uma família superficialmente perfeitos, cujo mundo começa a se transformar quando surpreende o marido aos beijos com outro homem em seu escritório. Esta é a trama principal do filme. O que acontece depois, é conseqüência disto. A dona de casa em questão é a ruivinha Julianne Moore, que levou uma indicação ao Oscar pelo filme e foi bastante elogiada pela crítica. Conseguiu o melhor prêmio de atriz em Veneza. Analisar uma interpretação de Julianne Moore é tarefa complicada. Ela parece sempre estar perfeita em cena, o que talvez não seja necessariamente verdade, mas erro de olhos fascinados por sua graciosa atuação e sua beleza avermelhada. A impressão dos primeiros instantes de filme me lembrou a de sua personagem em As Horas, embora tudo se refira à latente infelicidade que parece emanar de cada poro de suas duas personagens, e nada mais do que isto. São duas obras completamente diferentes. Nesta, do diretor Todd Haynes, depois de flagrar o marido (o ator Dennis Quaid) - executivo de uma empresa fabricante de televisores, e que, junto com a esposa, formavam o casal-propaganda da empresa (Magnatech) - beijando um outro homem em uma noite que foi levar o jantar para ele em seu escritório, a mãe de família exemplar que faz Julianne, decide, junto com o esposo, enfrentar uma terapia para "recuperar" a sua heterossexualidade. Lógico que, já neste ponto, ele tem plena noção de sua condição homossexual e de que aquilo de nada adiantará. Na aflição de sua vida falsa de prata polida, a esposa só pode contar com o jardineiro, vivido por Dennis Haysbert, para abrir seu coração - já que suas amizades são o reflexo máximo da falsidade da época que o diretor pretende passar.

Ao se envolver com o jardineiro, negro, e começar a ser vista com o mesmo em público, logo vira alvo da hipocrisia de toda a cidade. O que o diretor estabelece de bastante interessante, é que, antes de qualquer possível conotação de atração sexual de uma branca por um negro [exotismo da raça diferente da sua, estereótipo másculo e tantas babaquices já vistas em outros filmes], o que faz com ela se una ao jardineiro é mais uma admiração pelo caráter e sensibilidade do mesmo, um sujeito que vai além do esperado para um negro em tal época, freqüentando vernisages e criando a sua filha como pai solteiro. A cobrança do marido, homossexual que acorbetava um casamento de mentira, aos primeiros boatos que surgem de um possível caso de sua mulher com um negro, também é relevante, já que ele indaga sobre como vai ficar sua "reputação" depois disto.

Filmes sobre os anos 50 para mim são complicados de analisar. Ainda que tudo pareça extremamente interessante, como a goma que se levanta em cada calça vincada, a sisudez dos saiotes rodados, e os cabelos demoradamente penteados, por vezes parece incrivelmente falso. Você não sabe até que ponto aquilo era daquela maneira e a partir da onde começou-se a exagerar. As geladeiras incrivelmente brancas e pesadas, as casas infinitamente limpas com suas decorações em madeira aparente e listas de mogno, os carros enormes e lustrosos... Tudo é tão perfeito e simétrico que soa muito falso. As pessoas não podiam viver todos os dias com aquele sorriso de propaganda de creme dental, os cabelos milimetricamente escovados. Ainda assim, é um ótimo clima para se estabelecer temas que iriam de encontro à uma sociedade como aquela, se era assim que funcionava a coisa. E a emulação da década está bem bacana, com uma brilhante trilha sonora [que também foi indicada ao Oscar] e um clima outonal freqüente naquela árvores de folhas amareladas cainda à toda hora para dar passagens aos carrões azul-frigideire. Nenhum fenômeno que vá arrasar multidões aos cinemas [aqui em Porto Alegre, por acaso, você sabe quando isto vai acontecer, quando o filme estréia somente em pequenos cinemas "de arte" e não naqueles grandões do tipo filme-pipoca], mas com certeza você não se arrependerá de assistir.