25 julho 2003

Quando passou por mim com o olhar meio atordoado, caminhando na chuva como quem não soubesse para onde deveria ir, ainda levei um tempo para decidir se deveria interpelá-lo e perguntar se precisava de alguma ajuda, se sabia, ao menos onde estava. Como continuou com o olhar alucinado, mas caminhando assim, sem cambalear ou parecer drogado, achei que decidira, simplesmente caminhar na chuva e não ficaria nem um pouco feliz em ser interrompido em seus pensamentos ou seu desespero ou o que quer que fosse que estivesse sentindo. Eu continuei o meu caminho e não cheguei a pensar "que doente, caminhando assim pela rua". Tentei, na verdade, me desvencilhar de minhas noções burguesas de guarda-chuvas e capas superprotetoras e lembrar de quantas vezes eu caminhara na chuva nos últimos anos. Não consegui me lembrar - mas isto não foi suficiente para eu me sentir alguma espécie de ator de comerciais de antiácido e largar o guarda-chuva que eu segurava e sair cantando e correndo pelas poças d'água por onde os carros insistiam em passar molhando ainda mais as pessoas na rua. Continuei o meu caminho como o bom desgraçado infeliz mas sem a capacidade de me atordoar como aquele sujeito de agora à pouco, mas também, sem motivo algum para sorrir. Pelo simples fato de saber que ninguém estaria em casa quando eu chegasse e a cama estaria terrivelmente fria.