17 julho 2003

Quando você não é enganado e se rende, ainda assim, majestosamente à imbecilidade e ao comercialismo desmedido, com plena consciência, considero isto uma experiência única. Rumar de maneira certeira para um recinto onde você sabe que tudo o que verá são cenas nonsense e deslumbramentos para estupidificação dos cérebros e catarses pessoais de estupefação frente às maravilhas proporcionadas pela tecnologia é uma maneira delícia de não ser feito de imbecil. Por isso, todo e qualquer entretenimento [e, nisto, leia-se, realmente, perder alguns minutos com algo que você terá esquecido poucos minutos depois e que não lhe terá proporcionado qualquer tipo de soma aos seus conhecimentos intelectuais e divergirá totalmente do divertimento, em que você se detém sinceramente em alegrar seus sentidos com material franco e que atingirá seu humor pela inteligência e/ou criatividade e/ou falta de sentido imediato mas coberta de referências subliminares e/ou recheada de piadas internas. Normalmente estas últimas têm gerado mais diversão para os grupos, pois basta uma menção sutil, uma olhada cúmplice e todos terão entendido o motivo do sarcasmo ali presente. Fim.] que não se pretenda ser mais do que isto e nem queira enganar passando por sacada inteligente ou humor esperto será bem vindo e terá o seu lugar, ainda que bastante passageiro.

As Panteras Detonando (Charlie's Angels: Full Throttle, EUA, 2003), portanto, é um filme que tem o seu mérito por se tratar somente e francamente de entretenimento. Pura e não absurda perda de tempo. Descanso para o cérebro. Gerador de piadas imbecis e trama inverossímel. E tudo isto tem o seu mais puro valor, não pensem o contrário. Sei que sou dotado de certa ironia que se repete com alguma freqüência nos textos, no entanto, sou absolutamente franco em falar dos méritos de uma produção que não se pretende ser ishperta neste mundo cercado de trocadilhos, piadinhas de meia boca com o canto do olho e sacadas pretensamente inteligentes de seriados americanos. Ser uma produção americana que admite em todos os seus sentidos a sua forma mais americana de expressão, não se levar a sério em momento algum e cair no ridículo de escrachar totalmente em cenas de ação cuja quantidade de cambalhotas e quedas perfeitas leva às gargalhadas é ser estranhamente honesto nos dias que nos cercam.

Quem precisa de resenha para um filme como este? O que há para se falar? Três gostosas [e isto justifica as fotinhas aqui presentes] são agentes secretas e precisam recuperar dois anéis que foram roubados, e que contém, digitalmente, a lista das testemunhas protegidas pelo governo. Um ator brasileiro que todos sabem quem participa do filme entrando calado e saindo morto, há outros atores bastante conhecidos na trama, o diretor atende por uma alcunha monossilábica e o projeto cinematográfico trata-se da continuação de uma refilmagem de uma famosa série de televisão da década de 70. É tudo.

Ao contrário do que os intelectualóides de plantão rapidamente espalham com suas resenhas ácidas pelas publicações mil, não há nada de mal em render-se durante alguns minutos à somente contemplação de belas mulheres, cenas incríveis [e que nada devem ter de verdadeiras para permanecer incríveis] e trama enlouquecida, sem que em nenhum momento destes seja necessária a interação ou exercício maior de intelecto que dois solitários neurônios não consigam realizar. E, não, esta não é uma justificativa para o fato de ter assistido ao filme. Porque é somente em momentos em que você se rende claramente à doar-se momentos assim, sem sair do cinema praguejando por ter jogado o seu dinheiro fora, em que você se dá conta de como funciona a indústria e que existem produtos e produtos, é que você tem certeza de que não precisa de justificativas para cada momento em que se rende à imbecilidade e se torna risonho espectador de um show de imagens. Dê descanso para o seu cérebro sem sentimento de culpa.