30 julho 2003

Tempo para reminiscências - ou Este Post é Grande Pra Caralho!
Quando ela me falou que queria conversar comigo depois da aula, eu jamais poderia imaginar que merda de assunto estaria por vir. Naquela semi-adolescência de namoros pueris na bucólica Porto Alegre, uma coisa meio aventuras de Tom Sawyer, era hábito no colégio, depois da aula, se encontrar em alguma sala, se fechar sozinhos, e ficar uns trinta minutos se beijando sem parar (e, no final da semana, contabilizar os números de beijos com os outros colegas e seus namoros de hábitos idênticos), saliva rolando, mãos mais ou menos ousadas, e a estranheza dos cheiros de boca que tanto me impressionavam em uma época de descobrimentos quase eróticos e mais ou menos românticos.

Naqueles tempos em que Kevin Arnold, de “Anos Incríveis”, era meu maior ídolo, e caçar uma Winnie Cooper era meu hobbie, eu andava meio por cima da carne seca, em época de sexta série, me pegando com a guria da oitava, enquanto o resto da gurizada se contentava com as magrinhas da quinta e seus peitinhos ameaçando princípios de aflorescência.. Parte do meu sucesso, era devido a fama de poeta que sempre ajudei a alimentar através de poeminhas calhordas, rabiscados pretensiosamente nos cadernos de questionário. Os famosos questionários. “Qual sua banda preferida?”, em plena época de New Kids on The Block, Erasure e todos os tunt-tunts da época. As perguntinhas bobas na entrada, para ir avançando na intimidade do questionado... “Você gosta de alguém?, Quem você levaria para uma ilha deserta?”... Tchan, tchan, tchan, tchan! Até que a cobra fumava, quando vinha a bomba: “Você é virgem?” e outras pérolas do gênero. Mas era no finalzinho, quase sempre no “Deixe um recado para alguém”, ou “Deixe um recado para a dona deste questionário”, que os poeminhas cachorros e oportunistas despontavam. E as meninhas quase sempre se derretiam, naquela puerilidade típica da gurizada da época, de maneira geral, cujos dotes impressionistas se resumiam a acertar grandes lances no basquete ou no futebol, eu me destacava – até porque esporte nunca foi o meu forte, e tinha que ser bom em alguma coisa! – nos poemas e na literatura em geral.

É engraçado relembrar tudo isto sob a ótica de novos tempos que hoje se estabeleceram – a barriga gelada, o caminhar para a sala de aula, todo o erotismo alcançável por um garoto de doze anos dentro da aula, apalpando desesperadamente qualquer carne ao alcance das mãos, sozinhos dentro daquela sala, os hálitos se confundindo com a emoção daqueles beijos estranhos e perdidos dos iniciados. Mas naquele dia não foi bem assim. Diferente de todos os outros dias, quando eu ficava de pau duro só de ir caminhando ao seu lado em direção à sala de aula, antecipando todo o manacial de sexo à que minha vida então se resumia, neste dia havia o prenúncio de alguma coisa de ruim, que estava para chegar. Seu comportamento estranho, quase protetor, como a querer dar o prólogo do sofrimento, foi perfeitamente compatível com suas palavras quando então entramos naquela sala que nunca antes me parecera tão fria e escura. Extremamente preocupada – daquela maneira que faz a gente ter mais raiva ainda – com meus sentimentos – mas nem tanto para fazer o que fez! – disse, com as palavras mais escolhidas possíveis – se é que isto é capaz.... – que estava sentindo uma atração por um dos nossos amigos(!!!!!!!!!!!!!!!), e que não queria me magoar, e blá, blá, blá, blá, blá, blá, assim mesmo, como a professora do Charlie Brown. Puta que pariu! E para completar: “E se tu chorar, eu vou furar estas tuas bochechas...”, seguido de um sorriso de pena sem fim por aquele ser à sua frente que acabava de inundar os olhos d’água, e se virava, com um sorriso forçado, em direção à porta, para “a vagabunda”, como – na minha infantil revolta – passei a chamar, não ver os meus olhos marejados e meu descontrole emocional que começava por vir à tona. Carol, minha amigona do peito, no entanto, provavelmente já sabedora por antecipação do desfecho da história – alguma coisa tipo corrente de consolo, para quando eu saísse da sala... Sabe, tipo mega-ator de telenovela que fica paraplégico, nunca mais vai dar uma bimbadinha, e quando mete a cabeça na janela do hospital, para tomar um ar tem aquelas histéricas com aquelas faixas: “Adroaldo Fernando, estamos com Você! Comunidade de Moçoroca, Minas Gerais.”?

Foi mais ou menos como o Adroaldo que eu me senti... Fodido, coração quebrado, estraçalhado, estropiado, mas com a corrente de consolo para me amparar... Que me chamem de mal agradecido, mas a última coisa que eu queria era virar laranja, para que me abraçassem, me espremessem, e eu, debulhado em lágrimas, produzisse mais suco. Este negócio de solidariedade tem um pouco de egocentrismo, da pessoa que está sendo solidária se sentir bem, por ser tão “boa” e estar ajudando o próximo, com tanto despreendimento... Esquece. Recordações amargas de uma tarde fria e cortante que acabou quebrando meu coração, também... E destruindo todo uma gama de recordações, que hoje poderiam ser mais inspiração e testemunho para novas investidas literárias, porque, ao chegar em casa, naquele dia frio, de um mês que não me lembro qual era, (mas se fosse julho e estivesse nevando – em Porto Alegre? Rá! –, pelo menos o romantismo de ter sido abandonado pela mulher amada teria um pouco mais de charme nesta história bestinha), a primeira coisa que fiz foi, aproveitando a lareira já acesa pelo meu pai, colocar fogo, devagarinho, naquela dezena de cartas apaixonadas que ela me escrevia, em todos os seus cartõezinhos do Garfield e seus amigos, smilingüidos e sei lá o que mais, como se meu então ódio do abandono pudesse se esvair junto com aquelas cartas consumidas pelo fogo.

Mas, como dizia meu tio-avô Adagobaldo, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, “em casa de ferreiro, espeto de pau”, “Deus ajuda a quem cedo madruga”, e outras maravilhas do gênero, “o feitiço vira contra o feiticeiro”, e, hoje, não sei se por não ter sido bem sucedida nas suas intenções de namorar o nosso amigo, ou por um arrependimento que jurou de pés juntos ter, disse-me ter descoberto que aquilo não passava de uma atração, que o homem da sua vida era eu, e, desesperadamente, e mais tarde, através de apelos dos nossos amigos comuns, insistiu cansativamente para que eu lhe desse uma chance e voltássemos a namorar. Mas, por mais que meu coração ainda batesse compassadamente no ritmo e no som do seu nome (momento love songs...), meu orgulho era maior do que qualquer coisa, e, ainda que chorando escondidinho no canto, mas, na sua frente com o queixo levantado, eu continuava a repetir impiedosamente que não, que eu na condição de traído – era assim que me referia à mim mesmo – não cogitava rebaixar-me a voltar a namorar com uma menina que me chutou como seu eu fosse um cachorro sarnento (não foi bem assim, mas foi mais ou menos...).

Meus amigos voltaram com suas correntes de apoio e solidariedade, mas desta vez para ela, querendo que eu a desculpasse, pois foi algo momentâneo e patati, patatá, mas eu, nada! E, nisto, nossos dias foram passando, passando, até que o que sobrou, foram textos rabiscados em questionários daqueles tempos, que, se hoje, ainda existentes, são páginas amarelas, grafadas à bic, com suas frases de efeito, repetidas à grande junto aos nossos amigos, que eu fora seu melhor namorado, e que nunca me esqueceria. Bem, esquecer eu também não me esqueci, agora, é bem provável que as experiências diversas que adviram deste rompimento, já a tenham feito mudar de idéia a muito tempo.