01 agosto 2003

A ascenção de programas do tipo reality-show, tais quais Big Brother, além do demérito próprio do programa em si, traz consigo uma avalanche de subprodutos em sua cola. O cinema, lógico, também se "aproveita" desta onda toda em torno destes programas, e o resultado - que talvez até pudesse construir coisas tão instigantes de uma maneira geral quanto foi o Truman Show, por exemplo - têm, em sua maioria, produzido grandes porcarias, alimentando um cinema de categoria muito B e que não explora nenhum pouco qualquer tipo de nuance psicológica ou sociológica que tal mote poderia proporcionar.


Uma desculpa para a utilização de câmeras digitais, barateando o custo dos filmes, poderia encontrar bom argumento em tramas originais e que consigam, realmente, construir todo um universo que justifique a utilização das mesmas mais do que mero fator estético, mas de primordialidade para a história que está sendo feita. A Bruxa de Blair conseguiu isto. Ao modo câmera na mão, muito pouca grana em produção e bons atores - fora um marketing sensacional, que incluia desde sites falsos até veiculação de jovens supostamente desaparecidos, tudo o que contribuiu para dar uma tremenda aura de realismo para o filme, assim que este estreou - deu justificativa mais do que suficiente para o uso não convencional de câmeras tremidas em detrimento de "tomadas cinematográficas" e outros recursos mais. Já a continuação foi uma grande porcaria e nem há nada mais para se falar a respeito.


Agora, é lógico que a coisa não pararia por aí, e outros diretores tentariam também dar vazão ao princípio voyeur que impulsiona toda filme inspirado em reality's shows. Até produções que, mesmo nunca tendo sido grande coisa em qualidade cinematográfica, mas que se mantiveram, de uma maneira ou outra, com suas continuações - e estamos falando de Halloween - resolveram apostar na brincadeira de câmeras que observam e jovens que fazem de tudo para se tornar celebridades, mesmo que para isto tenham que passar uma temporada em uma casa sendo vigiados 24h por câmeras que registram todos os seus movimentos. Halloween: A Ressurreição (Halloween: Resurrection, EUA, 2002) é um filme inacreditavelmente ruim. A trama é básica e se perpetuará por muuuitas produções que vêm por aí, ainda. Jamie Lee Curtis, pobrezinha, faz uma participação no começo do filme extremamente lamentável. Assassinos mascarados sempre foram profundamente cômicos. Não conseguem assustar, só provocam o riso com seu silêncio infinito, e sua condição de indiferentes a qualquer tipo de agressão física, mesmo que isto signifique uma machadada na cabeça, como já assisti Jason levar em um dos muito epísódios de Sexta-Feira 13. E quem reclamava? Como a séria é quase tão antiga quanto andar para a frente, fez a alegria oitentista de muito jovem que conseguia se encantar com o nojo de Jason por casais transando em traillers no meio da floresta e jovenzinhas correndo enfiadas em calças justas de malhas e regatas super decotadas. No entanto, bastava um close na cabeça deformada de Jason que a risada era certa. Da mesma forma o também ridículo assassino de Pânico e sua beca preta e sua máscara hedionda.


Michael Myers não consegue fazer diferente: é ridículo do começo ao fim, com aquele seu corpanzil de quem não corre mas está sempre a frente de todas as vítimas. Resumo do filme? Michael Myers está de volta e agora o seu terror é tecnológico! Um grupo de jovens é selecionado para passar a noite na casa onde o assassino serial foi criado, sendo vigiado por um conjunto de câmeras e sob o comando de um casal de produtores ambiciosos. Alguém consegue passar desta noite? É complicado, já que Myers resolveu voltar ao pago e expulsar na faca os invasores de seu doce lar. É lógico, no entanto que sempre sobre alguém, de preferência uma menina bonitinha, para contar a história e dar continuação a mais uma porcaria da espécie.


Agora, este novo O Olho que tudo vê, se insure em uma categoria que chega a ser revoltante. Apesar de ter esta trama que sugeriria um filme raso, tôsco, tinha tudo para ser brilhante, enfim, um ótimo filme de suspense, até mais que o famigerado terror. No entanto, no momento em que a coisa deveria se firmar é que toda a maionese desanda. Este filme, de nome original My Little Eyes, faz parte de uma pequena retomada do horror inglês, tal qual o bem bacana O Jogo dos Espíritos. Apesar de filmado em sua grande parte com câmera digital - e brincando com as câmeras que estão espalhadas pelas paredes da casa, a vigiar os jovens, inclusive com o som de seu movimento toda vez que acompanha algum dos participantes pela casa, mais os até quatro quadros em que de vez em quando se divide a tela para podermos vislumbrar os vários ambientes da casa - tem uma estética muito interessante, fugindo dos batidos e irritantes cômodos escuros mostrados a todo momento em Halloween. Os atores também não decepcionam, embora se teime em continuar a construir os mesmos estereótipos desde... sei lá, Clube dos Cinco. Temos o quê, então: uma menina com grande vontade de ser estrela, cuja imagem é freqüentemente relacionada com a de uma... puta! Isto mesmo. Temos então, uma vagabudinha, um rapaz desequilibrado sem amigos que foi criado pelo avô com quem tem grande ligação, uma menina perfeitinha que desde o primeiro momento sabemos ser a que deveria escapar viva, um rapaz tipo bonitão do qual ninguém sabe coisa alguma e um outro desequilibrado, um pouco mais punk cujo pai se suicidou - fato este ao qual ele dá vivas.


A proposta é que passem seis meses dentro de uma casa perdida no meio do nada, para ter suas cenas veiculadas em um site pelo qual algumas pessoas deveriam pagar para ter acesso. A casa está situada em um lugar frio em que neva o tempo todo, sem socorro próximo, a não ser o da própria produção através de um rádio tôsco. Pequenos fatos vão contribuindo, aos poucos, para lhes deixar claro que alguma coisa não está muito certa na brincadeira tôda: martelo ensangüentado surgindo em cima de um travesseiro, uma caixa de tijolos e um revólver carregado com cinco balas são os pequenos indícios de que a brincadeira pode ser mais séria do que eles pensavam. As peças começam a se encaixar quando recebem a visita de um suposto esquiador que se abriga na casa e, mesmo sendo programador de computadores, e lidando diariamente com a internet, nem ouvira falar de sua história, nem mesmo conhecia o site onde eles deveriam estar sendo veiculado. Aí, eles mesmo confessam que a produção não lhes disse que site é, nem onde fica o local onde estão. Os momentos de tensão apartir deste momento, se intensificam de uma maneira que poderia levar o filme a um ápice de grande maestria. Um notebook e uma conexão hacker com um aparelho de GPS lhes indica que, com certeza fazem parte de um plano bem mais sério: a participação em um snuff movie, gênero de filmes realizados com mortes reais, coisa que já havia sido abordada com pouco sucesso de público mas ótima qualidade ao meu ver em 8mm, com Nicholas Cage. O grande problema aqui é quando o filme começa a esquentar, as coisas começam a fazer sentido, o diretor perde a mão terrivelmente, e tudo vira uma grande palhaçada. A trilha sonora no momento que deveria ser o de maior tensão, uma perseguição perto do final, é ridícula, e o tom de claridade que toma conta da imagem faz com que tudo pareça um videogame. É uma pena.


Há um tom sinistro quase o filme inteiro, e a chegada gradativa ao que eles descobrem ser a verdade, até as maneiras com que buscam fugir desta, geram uma aflição pouco vista nos filmes atuais. Não é preciso um elenco conhecido, como este não é, mas sim um bom para tornar a coisa bem aterrorizante. A sensação que se tem nos últimos quinze minutos é que o diretor se revoltou e resolveu terminar o filme de qualquer maneira, ou coisa que o valha. A coisa boa que se leva é que não há final feliz como nos semelhantes filmes americanos.