11 agosto 2003

Embriagado de Amor (Punch-drunk love - 2002)é o novo filme de Paul Thomas Anderson, depois de se tornar o queridinho da crítica e também do público com Magnólia, realmente um filme fantástico, que consegue ser ainda melhor que Boogie Nights, seu filme anterior de 1997. O que parece ser o grande desafio, ao menos para se aventurar a entrar no cinema para assistir a este filme, é resistir ao preconceito de saber que Adam Sandler é o protagonista. O que é uma grande bobagem, na realidade. Birra de quem acha que comediante não consegue bom desempenho em filmes de gêneros diferentes de seus comumentes realizados. Jim Carrey tem mostrado o contrário, e quem assistia a Saturday Night Live, programa onde muitos comediantes como Sandler começaram, já tinha conhecimento do talento do cara. Portanto, preconceitos desta espécie, só para pessoas realmente nada tolerantes.

O grande lance deste filme é fugir do convencionalismo com um protagonista cuja identificação e simpatia se torna uma tarefa difícil, quando se trata de um cara todo errado, neurótico e com tendências a surtos terríveis de ira ou crises de choro. Um cara que, como ele mesmo diz em dado momento do filme, não gosta de si mesmo a maioria das vezes. Sandler é o inconstante Barry Egan, único filho homem no meio de sete irmãs, o que acabou contribuindo para que sentisse um incrível desajeitado no mundo, fato compreensível quando se percebe a maneira como suas irmãs sempre o trataram - ilustrada por uma reunião de família organizada por estas, na qual Egan comparece e, alvo das lembranças de infância nada agradáveis com as quais suas irmãs insistem em lhe zombar, tem mais uma de suas crises quebrando as vidraças da casa da irmã num acesso de fúria.

Empresário dono de uma pequena fábrica de desentupidores especiais, descobriu uma falha em uma promoção de milhagens oferecidas através da compra de pudins. Se dá conta que poderá viajar a vida inteira gratuitamente com as tais milhagens, comprando uma grande quantidade das sobremesas. Assim, praticamente esvazia um supermercado com os tais pudins, empilhando-os num canto de sua fábrica.

A vida meio sem sentido de Egan começa a mudar quando conhece Lena (interpretada por Emily Watson), amiga que uma de suas irmãs insistia em lhe apresentar. É meio complicado de perceber que encanto Lena enxerga em Egan, ainda assim, esta relação é tudo de que ele precisa para se encontrar com um pouco mais de segurança e felicidade. Felicidade esta, que ainda encontrará percalços durante o tempo que Egan leva para se livrar da confusão que uma ligação para um serviço de tele-sexo lhe arranjou. Vítima de estelionatários [tendo como chefe o sempre formidável Phillip Seymour Hoffman, figurinha carimbada nos filmes de Paul Thomas Anderson], é num de seus acessos de fúria que acaba mostrando o quanto Lena lhe é importante e como o amor pode ser capaz de transformar o mais desajeitado dos homens em um sujeito encantador.

Com alguns detalhes inexplicados, como o pequeno piano [piano, não! harmonium!]que é depositado à frente de sua fábrica, levado para seu escritório e tornado personagem constante no filme, mais um acidente de carro incrível que ele testemunha e que fica por isto mesmo, o filme possui aquela estranheza propícia a quem está sempre à procura de alguma novidade neste marasmo previsível que costuma ser o cinema norte-americano.