21 outubro 2003

Engraçado como algumas coisas que escrevi já a algum tempo atrás, ou mais ou menos recentemente, estão indo ao encontro de certos fatos novos. Algumas vezes a relação é bem direta, como aconteceu com o meu comentário sobre a supremacia da Globo Filmes como a Hollywood brasileira no grande filão cinematográfico que se abre com esta retomada da produção brasileira. Este comentário, que estava dentro de um artigo sobre o Festival de Cinema de Gramado, acabou sendo devidamente embasado pelo texto do Ricardo Calil, no nomínimo.

Agora, um tanto mais sutilmente, no entanto, é que me dou conta do quanto esta proposta da nova novela da Globo, Celebridade [de novo ela, de novo], se enquadra naquele mesmo princípio também já denunciado por este que vos escreve [daqui a pouco, colocarei embaixo dos meus textos: você leu primeiro aqui! É, besteira, esquece...] no texto a respeito do livro Sem Logo. Difícil estabelecer a relação, não é? Nem tanto. Pensa aqui comigo, e presta atenção no seguinte trecho do meu próprio texto: Procurando chegar com seus produtos da maneira que for, aos clientes em potencial, a estratégia das grandes marcas têm sido a de pulverizar-se em meio às manifestações culturais ditas underground e alternativas e, se aproveitando deste universo, tornar-se presente com claras referências visuais e conceituais dentro de suas linhas e abordagens. Desta maneira, observamos os claros apelos de marcas consagradas, como a Nike, dentro de culturas até pouco tempo mantidas à margem da sociedade de consumo. É, está um tanto nebulosa a comparação, mas eu explico: a rede Globo está adquirindo o hábito extremamente saudável para ela mesma de fazer piada de si própria, antes que alguém o faça. Isto já era feito de uma maneira perfeitamente regularizada no momento em que a emissora permitia que um programa humorístico como o Casseta & Planeta fizesse piadas de suas próprias novelas. Lógico, que dentro de um limite pré-estabelecido e permitido. O que acontece agora é a tentativa de fazer piada, ou de tentar a análise próxima do mais do mesmo em um ambiente mais sério - a tradicional novela das oito.

Como? Ora, no momento em que a própria novela toma para si a missão, digamos assim, de denunciar, digamos assim, novamente [ou aspas, muitas aspas] a indústria das celebridades, da busca de sucesso desmedido a qualquer preço, não está fazendo mais do que antecipar-se a um assunto que era objeto de estudo não de uma indústria do entretenimento, mas de pesquisas sociológicas e quetais. Tomar para si mesma a possibilidade de cair em cima de um fato que é notório que é produzida pela própria, que é todo o mundo superficial e de vaidade desmedida que cerca a produção de celebridades, é tornar o assunto esgotado e enfadonho para análises mais aprofundadas. Ou seja, é tornar tal fato desgastante, algo corriqueiro, minimizá-lo para a esfera do cotidiano, para que passe [ainda mais] a não ser visto com a peculiaridade devida, mas como mais uma obra ficcional devidamente produzida e regurgitada pela gigante do entretenimento televisivo no Brasil, e uma das maiores do mundo.

Tomando, portanto, como exemplo o fato de que a publicidade das grandes corporações vêm adaptando culturas até então relegadas ao gueto ao seu próprio discurso publicitário, o que acontece agora é uma emissora adaptando um discurso que na realidade é produzido por ela própria [as grandes corporações adaptam um discurso verdadeiramente produzido por guetos culturais e os tomam para si. A Rede Globo adapta seu próprio discurso como se produzido por outrem]. Ou seja: ela cria um fato [que é a indústria das celebridades, realmente] , joga-o na esfera do domínio público, como se por ela não fosse produzido, e o pega novamente, para elaborar uma obra ficcional, como se fosse a análise de um fato produzido por outrem. O que acontece é que ela se insurge de um duplo poder - primeiro ao produzir um fato e depois ao devolvê-lo duas vezes de maneira diferente: de forma não-ficcional, e, agora, de forma ficcional, como se fosse a análise fria de um acontecimento, de um evento, de uma banalidade não gerada por ela própria! Deus, isto é enlouquecedor!

Não sei se fui extremamente claro nas minhas conclusões. Releva-se que elas tenham sido feitas em um insight muito doido em início de madrugada, num horário em que eu nem costumo postar nada. Enfim. Quando isto que está escrito aqui for dito por outro articulador qualquer [articulador é bom, né?], saiba que você leu primeiro aqui! Ok, desculpa.