10 outubro 2003


O ÚLTIMO SUSPEITO

Tentava me lembrar quanto tempo fazia que eu não chorava no cinema. Não deveria ser uma coisa muito difícil, já que tenho uma certa sensibilidade que não me agrada nenhum pouco e, para falar a verdade, na maioria das vezes só prejudica a minha vida. Que se foda. Eu tava com a minha guria e consegui assistir a um filme que realmente me tocou ["tocou" é meio veado, mas vá lá...]. Não dava nada pelo filme: para falar a verdade, acho que estreou aqui em Porto Alegre com tamanha rapidez que deve ter saído nas resenhas de quarta, quinta ou sexta, dias em que me mantive alheio do mundo e não li jornais e fui o último a saber dos acontecimentos. Pois bem. Se depender do bicha de bochecha rosa chamado Rubens Ewald Filho, para quem só interessa a existência de atores que tenham nascido na década de 20 e que é superestimado com uma insistência nojenta neste mainstream previsível que é a crítica de cinema de sites e revistas, o filme é uma bomba cheia de clichês e Robert DeNiro é um velho gagá.


Como eu quero mais é que Rubens Ewald Rosa e suas caixas de rouge se explodam, sua crítica tem poder zero sobre mim - até porque eu a li depois que já tinha assistido o filme, já tinha curtido este trabalho de interpretação mais soturno de Robert DeNiro, já tinha chorado [com lágrimas rasteiras e silenciosas, como convém a um bom chorinho em cena dramática. É. Deu um pouco de vontade de emitir algum som, mas acho que o ambiente não era muito propício, então eu enxuguei de canto as lágrimas e me deixei envolver pelo aconchego quente do ombro da minha namorada.] o que tinha de chorar e já tinha achado o motivo existencial do cinema... mais uma vez. Tá. O filme é O Último Suspeito, título extremamente, mas extremamente tosco para o original City by the Sea.


A trama é tão evidente quanto o título anuncia: o que fazer quando o criminoso é o último suspeito que você imaginava - seu próprio filho? Tinha todas as chances de desabar para o dramalhão, mas não consegue isto. Michael Caton Jones, que já tinha dirigido DeNiro em "O Despertar de Um Homem" segura bem a onda e vai até onde tem que ir, domando a mão para que a obra oscile entre o clima noir e dramático sem cair em baixaria. O fato de ter bons atores também ajuda, é lógico. Frances McDormand é uma tia que bate um bolão, ainda. A banalidade tinha tudo para se impor neste filme, afinal, o argumento não é dos mais originais. Pai policial, filho de um homem condenado à morte pelo seqüestro e assassinato de um bebê, fracassa no casamento e na criação do seu filho, que acaba se tornando um viciado fodido que assassina um traficante durante uma briga e é acusado de um segundo assassinato - do policial parceiro do pai dele. O filho quem faz é James Franco, que havia interpretado James Dean e compõe um viciado sem frescurices e com a crueza e podridão que um bom fumador de crack deve parecer ter no cinema. O clima é de total sentimento de perda e frustração, todos são perdedores e ninguém prega frasezinhas de salvação ou de lições de vida. O que está em jogo é uma relação pai e filho, que pode ser salva quando não parece haver saída para mais nada, ou pode se perpetuar como se fosse uma maldição de DNA que tornasse as gerações daquela família um fracasso em relação paternal. A perda e a inconstância aparecem em cada detalhe: DeNiro é um policial com uma rotina de vida tão excitante quanto a de um peixe de aquário; as ações diárias são sempre as mesmas e até o sexo de fim de noite com a vizinha do andar de baixo, com que já mantém uma relação estável de visitas noturnas e pequenas intromissões pessoais, soa sem graça e feito por obrigação. O clima da cidade do título original é de decadência e abandono, o que não deve estar sendo nada legal para Long Beach, mas é possível sentir a criminalidade e o vício reinante em cada esquina acinzentada e em cada prédio destruído que a câmera foca. Não há tempo para perda de tempo em lugares-comum, já que em nenhum momento se propõe a "redenção do filho drogado que se recupera e vira um bom rapaz". O cara é um merda, um cachorro sarnento que alguém chuta com desprezo, o que torna um pouco difícil sua identificação como herói da história (posto logo passado para seu pai), viciado com uma mulher viciada que trabalha num drive-in para sustentar o filho dos dois. Quando o personagem de DeNiro descobre que é avô, tudo não se torna um mar de rosas e o filme não se transforma em uma novela da Globo. Até que o final se aprochegue, em um único momento de afirmação de amor incondicional, algo difícil de se contrariar em se tratando do laço sangüíneo entre pai e filho, as coisas são tão sem futuro com um caso como este deve ser na realidade. O que fica é a possibilidade de escolha, ainda que tudo pareça extremamente sem sentido e não pareça existir nada mais à sua volta. O resto é o resto.

Publicado originalmente em 26/05/2003 no CápsulaZine. Grande Cápsula. Que em breve estará de volta. Eu sei que sim. Chuif.