31 outubro 2003

Porto Alegre respira e expira cultura por todos os cantos e poros. Em todos os botecos, e salões de cabeleireiras e bancos de praças e salas de aulas e corredores de ônibus as pessoas conversam, gracejam e mencionam os dias de Bienal do Mercosul e Feira do Livro que acaba de se instalar. É nestes momentos que todos - comentam - mais se orgulham de ser portoalegrenses. "Aqui se vive a cultura!", exclamam, cheios de dentes, entre uma sugada e outro do chimarrão em mais um passeio pela Brique ou pelo Parcão em domingos de sol que não se vêem mais desde que o fim de semana passado trouxe uma tempestade amargurante para estes pagos. E olhe a tempestade novamente aí! Mas nada disso importa. Importante é aguardar que um ensolarado sábado ou domingo se façam para ir fuçar as atraentes caixas de saldos nos corredores intransitáveis da Feira. Quem são, afinal, os que por ali passeiam? Os que aguardam ansiosamente até que dias de novembro se apresentem para, juntando aquele dinheiro guardado até então, lavar-se entre as obras que figuram entre as mais vendidas da lista da Veja? Professores com seus parcos salários e sua vontade sôfrega de enveredar pelos clássicos absolutos que Dostoiévski e Cortázar fazem encher a boca de saliva? Intelectualóides moradores de pensão e estudantes de filosofia a fim do mais seboso dos tratados de Kierkgaard? Senhorinhas donas de casa atrás de onze minutos de prazer com magos escritores?

Percorrer as insondáveis possibilidades que se apresentam entre estes escondidos cultuadores dos livros que se mostram tão felizes e sorridentes e passeativos pelas alamedas da Praça da Alfândega, é tentar inutilmente traçar um retrato dos portoalegrenses, ó seres insondáveis e misteriosos, mas fascinantes e únicos! De passada, entre uma folheada e outra, e mais um livro que não se vai levar, porque, afinal, uma olhadinha só já satisfaz o mais humilde dos virtuais compradores, quem sabe dar uma banda ali no Cais do Porto e se intrigar com aquele fusca todo cravejado de cacos de vidro verde? Ou, então, estarrecer-se com aquele bando de cuias gigantes de plásticos daquele tal de Saint Clair Cemin. Mas, afinal, quem é Saint Clair Cemin? Pererecas de plástico derretidas, formando guirlandas fedorentas? Esta tal de arte moderna é complicada demais para mim. Bem, aquele outro não se importa, já que diz um "que se dane o espectador!", ou coisa que o valha. Aos livros, ainda que apertados pelos gordos tios com cuia e térmica a atravancar os nossos caminhos, voltemos!

Imperturbáveis e senhores de si, vamos às compras. Aos quitutes culturais oferecidos em manjares repletos de letras e capas deliciosas. Alisar as lombares com seus alto-relevos dourados e seus cheiros de inteligência. Ah, a inteligência! Sinto seu odor pelas páginas novas e ensebadas de cada livro folheado... Será isto, então, que vêm todos buscar aqui? Dizer para alguém que passou mais de duas semanas de feira sem colocar os pés na Alfândega não parece, neste momento, a mais honrosa das afirmações. "Ah, tu já passou lá na feira?", ouço perguntar aquele tiozinho que corta o cabelo e que se surpreende quando falo de Lya Luft. "Gaúcha?". É. "Não, essa não. Mas eu sei daquela outra... Werchóvz? Da Casa das Sete Mulheres... Minha mulher tava querendo o livro novo dela. Mas tá caro, né?". Hmmm.

Impenetráveis e orgulhosos estes gaúchos. Vivem seus dias de arrebatação espiritual quando passeiam, infantes, pela capital da melhor qualidade de vida, e onde a cultura se faz presente. Ninguém quer se excluído da novela cultural que se desenha. Todos têm que fazer parte do cenário previsível e contínuo, de circuito mínimo e autofágico. Da Feira, estendemos a conversa até o bar do Opinião. Muito cheio? Um café na Casa de Cultura, então. Para acabar a noite, a famosa Calçada da Fama, não sem antes uma salada de frutas com sorvete ali na Banca 40, lógico! Província na casa do caralho! Isto aqui é cidade grande, sim. Mas muito mais próxima de todos, onde todos se conhecem, todos aguardam os mesmos eventos, e todos morrem de felicidade, se afinal, sabemos que Echo & The Bunnymen fará a honra de dar as caras por aqui. Aqui é que tem cultura, sim! Aqui todo o mundo faz cinema, todo o mundo aparece nos histórias curtas e todo o mundo, no final das contas, se encontra na Lancheria do Parque. Ah, este friozinho da hora! Como diria Allan Sieber, massa é dar uma banda na Redenção depois de ensaiar com minhas seis bandas! Ainda vamos tocar no Dr. Jeckyll! E se os jornalistas do único jornal da cidade nos virem, quem sabe fazem uma resenha tri a fu sobre a gente? Acho que o caminho é este. É por aqui que eu sigo. Depois de dar uma banda na feira, é lógico!