24 novembro 2003


As coxas de Sara
Sara puxou a sainha de crochê um pouco mais para cima e deixou à mostra suas coxas, dominadas por uma profusão daquelas bolinhas que brotam na pele quando a gente está arrepiado, seja de frio ou de excitação - como eu me encontrava agora. No entanto, a imagem da pele da galinha, cheia de bolinhas semelhantes às das coxas de Sara, deixaram meu pênis confuso entre manifestar-se conveniente e verdadeiramente, ou esperar pelo próximo incentivo que Sara estivesse interessada em oferecer-me. Por hora, resignei-me em molhar os lábios e constatar aquele gosto de cafeína extremamente adocicado e gosmento que uma lata de coca-cola tomada sem nada no estômago deixa em nossa boca. Bafo gosmento e profundo. Pedi para que o Jorge me trouxesse mais um refrigerante e fiquei olhando para Sara sem dizer uma só palavra. Aliás, fazia horas que não dizíamos uma só palavra um ao outro. Chegamos, pedi duas coca-colas. A de Sara continuava intocada, e, àquela hora, com certeza, quente e sem gás. Ela fazia uma cara estranha, retorcia-se um pouco na cadeira e emitia alguns gemidos que, por vezes, imaginava vir do péssimo rádio de Jorge, que estava invariavelmente sintonizado em uma destas emissoras que tocam de tudo o dia inteiro, para onde as pessoas ligam e pedem a música cantando.

Aquele clima era modorrento e preguiçoso, mas Sara não se manifestava e eu, na minha pachorra, fazia de conta que estava tudo sob controle.

Sara me olhava como se nos entendêssemos mutuamente, somente através de olhares, como em uma daquelas relações extremamente longas e cúmplices. Não éramos cúmplices. Éramos homem e mulher. E só.

Concluí que Sara me fazia cara de safada. Cara de puta. Conclusão que se acentuou quando ela passou a língua sobre o lábio superior, me olhando firme e levantando a sainha de crochê, deixando à mostra sua coxa com bolinhas de arrepio - ou de excitação, sei lá, e que me lembravam pele de galinha, mas mesmo assim me deixavam de pau duro.

Concluí que Sara queria dar uma trepada. Deixei o dinheiro sobre a mesa e levantamos. Acho que nos entendíamos bem.