24 novembro 2003


Domingo
Comprou uma daquelas calças de moletom que sempre deixavam o saco parecendo incrivelmente volumoso, por mais que o tamanho da calça fosse grande, ou por mais que puxasse a calça para baixo. Acostumado a usar calças jeans, resolveu de uma hora para outra que começaria a usar moletons, ao menos aos domingos, quando saia para comprar pão naquela padaria da atendente gostosinha. Moletons combinavam com tardes deprimentes de domingo. E meias soquetes brancas socadas pelos chinelos de dedo no meio dos dedos eram outro acessório que faria parte de seus hábitos dominicais. Não sabia se era mania ou se somente queria estar confortável aos domingos, mais do que em quaisquer outros dias.

Comia pão com chimia rindo com a boca aberta dos programas imbecis de domingo e pensava na guria gostosinha da padaria encostada no balcão, sem televisão (ao menos não tinha que ver os programas imbecis!), vendendo pão e chimia para os tradicionais fregueses de domingo e olhando o escasso movimento em frente à padaria. Pensou em levar um pedaço de pão com chimia para a guria, mas provavelmente ela o acharia louco, ou alguma espécie de imbecil. Viu que ela notou que ele passou a ir à padaria com aquela calça de moletom que deixava ele boludo. Por mais nova que a calça fosse, parecia sempre uma calça podre de dormir ou de ficar em casa comendo pão com chimia rindo com a boca aberta dos programas imbecis de domingo. Será que ela se impressionava com o tamanho de suas bolas sacudindo no meio daquelas calças de moletom? Ela fugiu com o olhar e perguntou se ele queria mais alguma coisa, ele disse que não, obrigado, e ele notou que antes de se virar para atender o outro freguês, ela ainda deu uma olhadinha para as calças de moletom dele.