17 novembro 2003

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Uma mistura bem dosada de perversidade e lirismo é uma empreitada para poucos. No entanto, o "Vampiro de Curitiba", Dalton Trevisan, consegue esta inusitada composição em seu livro de estréia Novelas Nada Exemplares. Nada é comum neste livro, e nada precisa ser bizarro para adquirir contornos inimaginados para situações as mais banais. A linha nauseada da literatura, uma literatura que não procura salvar ou acusar o homem, mas apenas aproximá-lo de nossas vistas, fazendo com que constatemos nossa identificação com os noivos de província, com os bêbados ternos, com os tortos desdentados. Todos estes tipos passeiam pelos pequenos contos de Trevisan, com uma liberdade absoluta, traçando com desenvoltura seus dias de quase inevitável desgraça e tendência irreversível para o sofrimento. No texto escrito nas costas da capa e contra-capa [não nas orelhas - não há orelhas na minha edição de 1975, deste livro publicado em 1954 originalmente] Carlos Heitor Cony se entrega aos elogios. Trevisan é cruel sem ser malvado. Não permite aos seus personagens outro fim que não o que a eles estava destinado. É um maestro regendo a orquestra dos desvalidos - doces desvalidos. O clima é das famílias e habitantes da classe média baixa: moradores de pensão, noivas de subúrbio, enamorados de pequenas cidades. Gigi, louquinho, brinca com moscas, arrancando-lhes as asas; Betinho satisfaz o desejo da tia ao matar o tio Galileu, mas no final das contas é passado para trás. A Velha Querida é uma pequena obra de arte que penetra no tempo necessário, não mais e não menos, de uma visita ordinária ao bordel. Ou uma visita a um bordel ordinário? Em O convidado, um velho impotente deixa seus convidados à vontade para levarem sua mulher para cama. Depois deste livro e mais alguns, veio a fixação pelos minicontos, e agora Dalton Trevisan volta a ser assunto com o recém-lançado Capitu Sou Eu.