04 novembro 2003

Não tinha erro. Isto eu pensei. Mas a verdade é que eu estava tri cagado. Não tinha dado nenhuma banda por ali e ao me deparar com aquele bando de barrigudinhos ranhentos na volta do carro, murmurei com o canto da boca: "Ih, agora eu me fudi...". O primeiro veio cheio da moral e dizendo que ele é que dava a coordenada. Percebi que os outros se mantinham afastados a uma distância suficiente o bastante para demonstrar que o primeiro - com a carapinha pintada com uma cor entre amarelo ouro e caramelo [tinha um aspecto doce, o cabelo, confesso] - era quem mandava, mas perto o bastante para me deixar claro que era só eu dar uma vacilada que o bicho ia pegar para o meu lado. Com aquela cara de turista alemão em primeiro dia de visita no morro da Rocinha, perguntei pelo Antenor. "Não tem nenhum mané Antenor, aqui não, rapá!". Isto quem me disse foi aquele que se escorava numa pedra, o mais distante de todos. Preto e barrigudo como todos os outros, mas com uma navalhada na testa proeminente que o tornava o mais asqueroso de todos eles. O da cabeça cor de caramelo virou, com uma calma que deixaria o mais clássico dos mafiosos no chinelo, e deu uma olhada. Mas uma olhada só. Direto. No olho do barrigudinho da testa navalhada. Este se contorceu, visivelmente incomodado, mas obviamente indeciso entre manter uma pose de aspirante à líder da falange ou de simples tocaio daquele bando deveras bizarro de barrigudinhos disformes. Cabeça de caramelo se virou para mim, os outros todos deram um passo para trás com um automatismo que nem o mais singular dos coreógrafos conseguiria marcar com maior naturalidade, e falou, rouco como um asmático: "Tá querendo o quê com o Antenor?". Eu achei que tinha feito uma cagada pelo simples fato de ter chegado até ali, dentro do carro, sozinho e me deparar cercado. Mas a maior cagada, mesmo, estava por vir. Foi exatamente depois da seguinte frase que saiu da minha boca: "É... que o assunto é pessoal, mesmo...", que eu vi que, se o meu santo era realmente forte e aquele trabalho de fechar corpo da minha tia Lica funcionava, ali era a melhor das oportunidades para que estes dois fatos se fizessem verdadeiros.

Barrigudinho-Caramelo puxou um catarro do fundo da alma com um fervor que realmente me comoveu. Foi mais ou menos entre a ventarola e o retrovisor que ele acertou. Enquanto aquela plasta verde deslizava com uma má vontade que começava a me revolver o estômago, Caramelo, ainda calmo, me perguntou, pausadamente: "Tu tá de brincadeira comigo?". Eu disse "para falar a verdade, não...". Aí que eu me dei conta de onde estava o meu erro. Cachorro sente o cheiro do medo. Cabeça de Caramelo estava me testando. É. E eu não poderia ceder simplesmente e me deixar envolver no temor de que aquele bando de pretinhos esquálidos com barrigas de verminosos me amedrontassem. Por isso que eu saltei do carro e cheguei junto de Caramelo, simultaneamente à ação de todos os outros vinte ou vinte e cinco barrigudos armarem uma roda em nossa volta e uns três ou quatros começarem a cheirar o ar que saia de dentro do meu carro. Ali era o caminho das cobras, pensei. Puxei a calça com vontade, estufei o peito e fui chegando cada vez mais perto de Barrigudinho Cabeça de Caramelo. Ele se manteve têso, impassível, até o momento que eu sussurrei para ele: "Seguinte, eu não estou a fim de te dar moral. Então, você e este bando de barrigudos de merda, podem fazer o favor de tirar suas carcaças podres e fedorentas de perto de mim e do meu carro para que possa chegar até a baia do Antenor?". Confesso que eu falei isto com o tom mais cheio de educação que eu fui capaz de fazer soar pela minha boca, ainda que ela tremesse um pouco ao final de cada palavra. Mas acho que deu para convencer. Eu vi até que eles começaram a armar uma espécie de clareira por onde, pensei, se faria o caminho natural para que eu pudesse passar. O que eu não percebi, nem quando notei a voz de Antenor em algum ponto distante de nós, foi em que momento exato Cabeça de Caramelo deu a ordem para que o barrigudo de olho vazado me atingisse com a pedra exatamente no meio dos olhos. Como eu ainda consegui perceber qual deles me atingiu com a pedra, e isto tornou-se evidente, tão evidente quanto o fato de que, com uma pedrada só eu não cairia, eu ainda pude ouvir o grito de Caramelo "Fiadaputa!", simultaneamente a tudo o mais em minha volta se transformar em uma massa enegrecida e convulsiva de membros que se transformavam em pedra quando socavam-se em minha cara e foram mais do que suficientes para que, em segundos, eu não tivesse noção de mais nada.