07 novembro 2003

TIM MAIA SORRI EM ALGUM LUGAR

Quando você entra, cuida para não tropeçar no palco logo à sua frente e para não estancar em frente à porta, caminho dos que chegam depois e, como você, têm que sofrer se acostumando com o minimalismo do lugar. Feito o reconhecimento, você dá uma olhada para a sua direita, onde, debaixo de um mezanino de madeira, refugiadas na sombra que convida à devassidão, menininhas de barriga de fora e pierciengs nos mais inusitados lugares, rebolejam, alteradas pela sonoridade funky que toma conta do lugar. Enquanto decide se fica por ali, se dá conta que os que entram, atrasados e aos borbotões, esbarram em você, enquanto você tenta se concentrar na virada de baixo do baixista enlouquecido Samambaia. A posição frente ao palco é ótima, a vista à sua direita é delícia, mas os marmanjos que esbarram em você não fazem parte, certamente, das experiências mais agradáveis da noite. Então, você caminha para reconhecer o ambiente, vê à sua frente, logo acima da banda, a bandeira gigante onde se pode ler Vermelho 23, deixando bem claro para ti em que lugar estás. Mais alguns passos, e tu reconheces as gurias, as gurias te reconhecem, alguns beijos e você sabe muito bem que está ouvindo Proveitosa Prática quando Márcio Leonardo e Telmo começa a ser executada. Você pode se permitir, neste momento, se fascinar. Mas não perca totalmente o controle de seus sentidos, por que, se vacilar, você tropeça. No palco. Tá, pode fechar os olhos, se quiser, enquanto eles tocam O Ladrão de Bicicletas, e o mestre Tim Maia sorri em algum lugar. Mas não marca muita bobeira, não. Encontra os teus parceiros, toma uma bira e se deixa embalar pela noite funk que segue até perto das duas, porque o lugar é pequeno, os vizinhos reclamam e tudo tem que terminar cedo. Mas, ainda assim, você terá sentido que valeu muito a pena.