04 dezembro 2003

Ao chegar no seu fatídico formato Acústico MTV, Zeca Pagodinho começa a trilhar um caminho predestinado a um número pequeno (?) mas cada vez mais recorrente de estrelas da música, que nascem de um meio popular, ou engrenam com algum sucesso de caráter mais massivo e, por um motivo ou outro, se tornam objeto cult, e acabam elevados a artistas de primeira grandeza.

Não me entendam mal. Eu sempre gostei de Zeca Pagodinho, desde os discos em vinil como Patota de Cosme, já consumidos desde a minha infância em casa e segui acompanhado discretamente sua carreira e compactuando com o seu estilo orginal de pagode. Sempre foi para mim, portanto, artista de primeira grandeza. Por que com Zeca Pagodinho temos a certeza de estarmos no terreno certo quando falamos de pagode. Este é o princípio das coisas, desde o partido alto. Nada de invencionices com teclados e passinho pra lá e passinho pra cá que os maurícios de camisa de fio de ouro desfilam com seus chororôs românticos. Pagode, no andamento, na musicalidade, na atitude. O porquê deste rascunho de samba-melody de hoje ter adquirido a mesma denominação, é um trabalho demasiado grande para se iniciar aqui, ainda que eu ache que mereça apreciação de um verdadeiro crítico e estudioso musical.

O grande lance é que Zeca Pagodinho sempre reinou absoluto para os conhecedores do verdadeiro samba e sempre esteve em terreno mais do que seguro com suas canções. Continuou em alta e não sumiu mesmo com a ascenção de grupos "de samba" que em nenhum momento honraram grupos como Fundo de Quintal. Em um instante, no entanto, Zeca Pagodinho foi "descoberto" pelos grupos de classe A e B, já um tanto enjoados das cantigas de amor-corno que os pagodes-de-teclado lhes proporcionavam, e foi elevado à primeira grandeza da música. As pessoas, de uma hora para outra, descobriram que é legal enaltecer o original e foram atrás também de Bezerra da Silva! Talvez a Marisa Monte inventando seu arranjo "sofisticado" com a participação da Velha Guarda da Portela tenha alguma coisa a ver com isto. É "inteligente" beber das velhas fontes e "descobrir" aquilo o que é original e de qualidade.

Zeca Pagodinho vêm, dentro deste aspecto, trilhando um caminho mais ou menos semelhante ao que foi imposto aos Los Hermanos. Chegaram com um grande hit grudento que foi centro das atenções por um ano. Depois sumiram. Aí voltaram com canções mais esquisitinhas, numa onda meio Chico Buarque, grandes sambas-canções e o escambau. Deu no que deu. Hoje são amados e lambidos pela filha da Elis Regina ("Ah, se ela gosta é por que eles são bons!"), tem seu lugar assegurado em qualquer festival de música que se pretenda mais alternativex e fazem parte da grande nata da música. A diferença é que Zeca Pagodinho sempre esteve presente com uma qualidade igual (e superior) de música, e não se alterou em nada para fazer e colher o sucesso que hoje é merecido. Acho, inclusive, que merece todo o sucesso que tem. A maneira como o tem é que soa falsa. Com um atraso que se mostra desrespeitoso com sua história, e com uma tonalidade cult que parece indicar pouca duração.

A MTV tenta farejar aquilo o que é descolê, coloca-lhe um invólucro fashion e temos um grande produto de mídia! O mesmo aconteceu com os caras do Art Popular. Em um momento em que o samba-rock virou o grande hype, tacaram os caras com arranjos bacanas de suas músicas, cheios de vocais e violões e tivemos o Acústico Art Popular! A moçada gostou, as loiras da zona norte (no Rio e em São Paulo, zona sul) sacolejaram ao som de seu suingue, esgotou-se o manancial de sucessos e sumiram de novo. Tenho medo que o mesmo aconteça com Zeca Pagodinho. Não que seja esquecido por quem gosta e sempre gostou dele de verdade. Mas que seja usado de maneira tão assoberbada pela mídia, que enjoe, ninguém mais agüente ouvir deixa a vida me levar, vida leva eu, e o decretem peça de museu, quando mostra o verdadeiro artista do samba que é.

Fico feliz é que dentro de tudo isto ele esteja ganhando a sua grana, colhendo os frutos de um trabalho honesto e de qualidade, mas todos sabemos que a caralhada de aparições no programa do Faustão vai lhe reservar em breve um período de ostracismo dos grandes veículos. Assim como hoje é cult, bacaninha buscar na periferia as jóias raras que sempre estiveram por lá (olha a onda hip-hop aí, o culto ao Seu Jorge, e outros), da noite para o dia os cartolas das programações televisivas decidem que o que era já não é mais sucesso, e vamos chamar o Felipe Dylon e esquecer o Zeca. Sorte dele que quem sabe o que é bom sempre será público cativo de seus shows e apreciador de seus trabalhos.