03 dezembro 2003

Das últimas coisas que eu ainda me lembrava quando voltei à casa, faziam parte a caneca metálica - corroída pela ferrugem e sempre depositada em cima do velho filtro d'água, dos antigos, feitos em barro -, e o gato, velho e gordo, com uma idade que eu não me atreveria em momento algum a especular. Sobre ele, as lembranças eram ainda mais vívidas do que sobre a caneca, uma mera caneca. (O que há para se lembrar dela, afinal? Me servia para beber a água com gosto de terra, e só.) O gato, lento, mas particularmente traiçoeiro, me espreitava do seu canto, perto da porta por onde entrava um filete de sol mesmo nos dias mais frios, e parecia se arrastar com um sofrimento infinito até perto de nós quando eu ousava me aproximar de dona Ataíde. Ela ria, dizendo que ele tinha ciúmes dela e não permitia que ninguém chegasse perto. Pegava o bichano no colo, depois de esperar pacientemente que ele conseguisse romper a distância ínfima, mas olímpica para sua quase total falta de mobilidade, e o postava sobre seu colo, cobrindo sua cabeça e suas orelhas carcomidas com tantos afagos que o bicho ronronava e fechava os olhos, entregue ao prazer. Ao fim de tudo, eu nunca conseguia conversar pacientemente com dona Ataíde, por que aquele bicho me punha nervoso. Entre olhar a velha e cuidar os olhos do gato que, quando abertos, me fitavam profundamente, eu recitava uma meia dúzia de frases e dizia que era hora e tratava de sair logo dali. Ela sempre com seu fica mais um pouco, tu nem tomou o café, mas eu nunca consegui me acostumar com a presença daquele felino balofo.


Dois verões depois e outras visitas ainda mais esparsas que eu sempre lhe reservava, dona Ataíde, já completamente cega pela catarata ainda lamentava e sempre acabava em choro ao lembrar o seu desespero quando o vizinho encontrou o gato coberto por uma pesada pedra.


Eu nunca lamentei.


Trecho do romance inexistente As pernas flácidas de dona Ataíde, a nunca ser lançado.