16 dezembro 2003


O cinema que não se vê

O cinema brasileiro - que de uns anos para cá vem ressurgindo com uma maior quantidade e qualidade de produções - passou por anos de ostracismo com a produção de filmes medíocres que acabaram por gerar malformações tanto em sua forma de acesso ao público, quanto de empatia junto a ele. Quando surgiu a primeira edição do Festival de Gramado, em janeiro de 1973, o cinema passava por um processo de provação que o fazia desenvolver a habilidade necessária para poder driblar a censura e tentar estabelecer o cinema no nosso país como arte para grande público, que se pretendia tanto à transformação e subversão do cotidiano, quanto ao entretenimento. Eram anos em que um filme adaptado da obra de Nelson Rodrigues pelo diretor Arnaldo Jabor trilhava caminhos tortuosos. Toda Nudez Será Castigada, premiado então como melhor filme na mostra competitiva (além de melhor atriz, para Darlene Glória), retratava a decadência da moral burguesa em período de abertura política no país. Cinco meses após o sucesso em Gramado, o filme foi censurado no Brasil. Desde aquele momento, o pequeno número de produções em longas-metragens já fez com que, a partir de 1974, a categoria curta-metragem passasse a fazer parte das premiações.

Entre 1974 e 1977, ocorre um revezamento na premiação entre filmes de temática mais debochada (Vai Trabalhar, Vagabundo de Hugo Carvana em 74) e filmes mais intelectualizados, que apesar do grande sucesso de crítica, distanciava o grande público do gosto pelo cinema nacional (O Amuleto de Ogum, de Nélson Pereira dos Santos, em 75; O Predileto, de Roberto Palmari, em 76 e À Flor da Pele, de Francisco Ramalho Junior, em 77).

O grande problema do Festival de Cinema de Gramado sempre foi a inconstância de sua linha de premiação e a quantidade difusa das categorias, ainda que isto possa representar de certa maneira, o caráter com que o cinema se apresentou durante estes anos no cenário nacional e a necessidade de abertura para diversos formatos. No entanto, ao mesmo tempo em que isto pode ser visto como medida prática para o não esmorecimento de tal festival, é visível que, ao longo dos anos, longe do apelo tecnológico com que o cinema foi se revestindo, e a melhoria na qualidade de suas produções (principalmente a partir da década de 90, com alguns destaques para o período oitentista) tal confusão de categorias e formatos contribuiu para afastar o público geral do interesse pela função, e afastá-lo também do entusiasmo por esta que deveria ser a festa mais importante do cinema nacional. O que se vê nos últimos anos, é o interesse que cerca somente a "classe" que forma a nata hoje produtora de cinema no Brasil (alguém aí pensou na família Barreto?).

A partir de 1979 começa a premiação de filmes de difícil apelo popular, como Raoni, de Luís Carlos Saldanha e Jean-Pierre Dutilleux, uma co-produção francesa premiada neste ano. Tratava-se de um documentário sobre índios e ecologia (!). Em 80 se repete o mesmo fenômeno na premiação de filmes extremamente segmentados: Gaijin, Caminhos da Liberdade, de Tizuka Yamasaki fatura os principais prêmios da função festiva. Em 82 ocorre a abertura para um filme de caráter contestatório e com grande apelo de público na época: Pra Frente, Brasil de Roberto Farias conquista o prêmio principal, ainda que acabe tendo a mesma sina do filme do Carvana - acabou proibido pela censura. Em 1984 acontece a estréia histórica para o festival realizado no Sul: o filme Verdes Anos, longa gaúcho de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil é premiado com o Kikito de Revelação (Kikito é o prêmio dado no festival que significa "o Deus da Alegria"). Nota-se também a maciça inscrição de curtas-metragens e a produção cada vez mais criativa que começa a vicejar nesta área.

1991 foi o último ano de exclusiva participação dos filmes nacionais na premiação. A partir da 20ª edição, em 1992, o festival passe a se chamar Festival de Gramado - Cinema Ibero-Americano, abrindo-se para a premiação de produções latinas, também. Se por um lado tal abertura já começou premiando o colombiano Tecnicas de Duelo, de Sergio Cabrera, por outro lado, o festival também pôde ter a honra de premiar Pedro Almodóvar, por De Salto Alto com três Kikitos: melhor diretor para Almodóvar, melhor atriz para Marisa Paredes e melhor música para Ryuicky Sakamoto. Com tal abertura, que serviu para compensar o fato de haver então poucos filmes brasileiros para concorrer no festival durante este período de baixa produção pelo qual passou, o Brasil ficou até 1996 sem ganhar o prêmio principal (o festival passa a completar seu nome com Cinema Latino), o que só aconteceu com Quem Matou Pixote?, de José Joffily, quando, então, o festival adota o nome que carrega até hoje: Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. Já estamos dentro da engrenagem de boas produções nacionais, e 1997 premia Beto Brant por Os Matadores, e começa a haver um real equilíbrio entre as produções brasileiras e latinas premiadas.

Ao mesmo tempo em que ocorre um equilibro entre as nacionalidades premiadas no festival, o que se percebe é uma resposta diferente da pretensa sensação alardeada pelo festival e do real contato do público com os filmes premiados e todos os outros participantes. A má distribuição de filmes brasileiros pelas salas de projeção no Brasil e a pouca receptividade que estes vinham tendo com o público em geral, são motivadores desta dissonância entre apelo popular e consagração crítica. É bem verdade que a má vontade na nossa aceitação de filmes latinos também se dá como complemento para tal difusão - é mais ou menos novidade o respeito que diretores como Almodóvar, Bigas Luna, entre outros, conquistaram no Brasil. O cinema latino, que antes parecia tão kitsch, hoje se mostra o produto ideal para a projeção em disputadas salas de artes. E dizer-se fã de Almodóvar é quase querer passar-se por intelectualizado, uma vez que o diretor demonstra um caráter cada vez mais extraordinário em suas obras: o que sempre foi aclamado pela crítica passa a ser também pelo público, o que é um grande feito. Tão grande quanto o sucesso merecido que os filmes brasileiros também passaram a fazer.

Mas os filmes brasileiros são outra história a se contar e que adquire contornos diferenciados. A atual safra do cinema nacional tem se dividido quase entre dois subprodutos de fácil caracterização: os filmes de apelo urbano, identificáveis por uma grande dose de violência, senão explícita, subentendida. E os filmes feitos dentro dos padrões globais que se situam como uma repetição de fórmulas já consagradas na televisão. Os épicos gaúchos (dentre os quais se destaca a grande bomba A Paixão de Jacobina, do clã dos Barretos) ainda não têm uma representação muito significativa, embora se possam enumerar coisas como Neto Perde sua Alma e Anahy de Las Missiones como produções que se deve esquecer solenemente.

Dentre os filmes do primeiro grupo, estes servem, senão pela qualidade, ao menos como peça para intelectualóides divagarem sobre a gratuidade de suas cenas e a maquiagem esteticamente agradável dispensada aos seus cenários de miséria e marginalidade. Se a tendência monotemática começa a saturar, com a quase confusão de suas tramas excessivamente urbanas e cinzentas (Os Matadores, O Invasor, O Homem do Ano, etc, etc), por outro lado, para mim sempre me pareceu que o cinema nacional estaria entrando em uma rota de grande produção quando começasse também a fazer filmes desprovidos de caráter de grandes elucubrações estilísticas (vide Glauber Rocha) e mais voltados para uma linguagem pop e de ficção degustáveis. O chamado cinema B nas produções norte-americanas. Várias tentativas vêm sendo feitas neste sentido, tendo reconhecimento do público (Cidade de Deus, O Homem que Copiava), mas também se tem cometido lá as suas derrapagens (Carandiru, felizmente, é o exemplo que se situa mais ou menos sozinho neste rol). A ambição por tramas mais culturais e densamente investigativas não terminou, e com isto se tem pérolas como Madame Satã, por exemplo, ao mesmo tempo em que todos estes supracitados tem que competir com a receita fácil de filmes que mais parecem a transposição de uma novela das oito para a película.

Era extremamente óbvio que quando a cinematografia nacional começasse a deslanchar, a toda poderosa Rede Globo entraria de cabeça em tal filão, e com toda a sua grandiosidade, começaria a faturar com a produção de filmes com seu "alto padrão de qualidade". Infelizmente, vem mantendo uma certa hegemonia no mercado com filmes que não acrescentam nada mais do que as suas novelas têm acrescentado ao longo de todos estes anos ao público acostumado a receber a ficção mastigada e previsível. O repúdio à busca de novas soluções cinematográficas por parte do público, e a aclamação do método estabelecido de produção ficcional ainda é uma constante. Somente partindo-se deste pressuposto é que se consegue entender o sucesso de fórmulas de tão pouca riqueza narrativa e com soluções e arranjos tão semelhantes e facilmente encontráveis em qualquer trama do Gilberto Braga. A Partilha, Amores Possíveis, Pequeno Dicionário Amoroso, Solteiro no Rio de Janeiro e os mais recentes O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro não fogem à regra de produções que deram certo na televisão quase na íntegra ou em formas muito semelhantes e, conseqüentemente, não ofereceriam risco em um investimento para o cinema.

O grande problema é viciar a massa popular de espectadores a continuar vinculada à produções que tragam os mesmo atores conhecidos pela tela de tevê. E aqui voltamos novamente para o Festival de Gramado, quando o que se viu causando frisson no grande público foi o desfile de atores globais pelo tapete vermelho do Palácio dos Festivais. Muitos dos quais não estreavam nenhum dos filmes concorrentes, mas que deram o ar de sua graça para comprovar a popularidade que seus personagens em novelas vêm conquistando cada vez mais. Coincidentemente, os dois atores premiados com o prêmio principal são do cast da Rede Globo: Marcelo Serrado e Maria Fernanda Cândido. A resposta festiva a estes atores é o único momento em que parece haver uma identificação entre o que estava sendo premiado em Gramado e o público espectador, porque, no Brasil, o que causa esta estranheza em relação ao nosso maior festival é o fato de a maioria dos filmes não ter passado em circuito comercial em período anterior à premiação nem mesmo nas grandes capitais, sendo de quase total desconhecimento do público. Daí filmes premiados e poucos vistos como De Passagem, Noite de São João, O Preço da Paz contribuírem para gerar um evento que acaba sendo festejado na sua íntegra quase somente pelos privilegiados produtores desta estranha indústria que ainda é o cinema no Brasil.

Publicado originalmente nos sites ExpressOpinião e no Duplipensar.